O fascinante Celacanto abriu as portas à exploração das Espécies Lázaro, aquelas que ressuscitam dos mortos. E é no mundo marinho que continuamos nesta viagem, que constrói pontes entre o presente e o passado.

 

A vida marinha não cessa de surpreender nos contos incompletos. A baleia-franca-pigmeia (Caperea marginata) conseguiu também ela passar despercebida aos olhos da ciência. Não pelo tempo durante o qual se pensou estar extinta, mas pelo seu tamanho e a família a que afinal pertence este animal.

Esta Família de baleias estava considerada extinta desde o início do Plistocénico (há 2 milhões de anos). No entanto, em 2012, a classificação desta espécie – até então conhecida quase exclusivamente por ossadas e por alguns arrojamentos – foi definitivamente colocada na família Cetotheriidae num trabalho de Fordyce e Marx da Universidade de Otago, Nova Zelândia. Chamando-lhe a última das cetotheres, eles ressuscitaram esta Família dos cetáceos.

 

Foto: Darryl Wilson, University of Otago

Foto: Darryl Wilson, University of Otago

 

Neste caso, não se tratou de uma espécie não conhecida, mas sim de uma reclassificação. Não obstante, esta pequena baleia de 6,5 metros foi muito raramente avistada e hoje representa mais uma Espécie Lázaro, pois a sua nova colocação filogenética trouxe de volta à vida uma Família .

Já o que se passou com os moluscos da Classe Monoplacophora é particularmente aberrante, mas não por serem animais com um grande tamanho. Devido ao seu habitat e à sua concha calcária, têm uma grande probabilidade de ficar conservados no registo fóssil. E no entanto, a Classe a que pertencem considerava-se extinta desde há 320 milhões de anos!

Estes moluscos têm apenas uma concha, semelhante às lapas. Habitam na plataforma continental e em montes marinhos, tanto em substrato rochoso como arenoso.

O registo fóssil dos Monoplacophora é comum em rochas do Paleozoico até ao Devónico Médio (há cerca de 390 milhões de anos). São considerados os primeiros moluscos, com os fósseis mais antigos datados do Câmbrico, há mais de 488 milhões de anos.

No entanto, estes curiosos moluscos passaram mais de 300 milhões de anos sem aparecerem no registo fóssil. É que desde 1952, sabe-se que eles ainda existem – o que significa, muito seguramente, que nunca desapareceram.

A descoberta de espécimes desta Classe ocorreu a 6 de Maio do referido ano, quando 10 espécimes vivos foram colhidos na costa Pacífica da Costa Rica. Os responsáveis pela descoberta faziam parte de uma equipa dinamarquesa que participava na expedição Galathea, cujo objectivo era estudar as profundidades marinhas. Estes exemplares foram capturados em amostras colhidas a 3.590 metros de profundidade e baptizados de Neopolina galathea (hoje Neopilina galatheae).

A ausência destes moluscos do registo fóssil durante mais de 300 milhões de anos é difícil de explicar. Ainda mais quando alguns géneros e espécies fósseis, como o braquiópode Lingula (que ainda hoje existe), aparecem no mesmo estrato geológico que os Monoplacophora e apresentam um registo fóssil relativamente contínuo até hoje.

Mas nem sempre a redescoberta que coloca uma espécie na categoria Lázaro implica que o reencontro seja com um exemplar vivo. O reaparecimento no registo fóssil, após milhões de anos de ausência, pode significar também um renascer dos mortos.

 

reconstrução de S. bartelsi feita por Elke Gröning da TU Clausthal (Technische Universität Clausthal)

Reconstrução de S. bartelsi, por Elke Gröning da TU Clausthal (Technische Universität Clausthal)

 

É o caso do artrópode Schinderhannes bartelsi. Os artrópodes (do grego arthros, articulado, e podos, pés) compõem o maior Filo de animais, compreendendo os insectos, os aracnídeos, os crustáceos, entre outros. É um Filo composto por seres invertebrados que possuem um exoesqueleto articulado e vários pares de apêndices também eles articulados. Esta espécie, da Subordem Anomalocarida, foi encontrada em 2009 na Alemanha por Hans Vogtel, um mineiro de Bundenbach. Foi datada em 390 milhões de anos (Devónico Médio), apanhando de surpresa os cientistas.

 

Fóssil do S. bartelsi na colecção do Museu de História Natural de Mainz. Foto: Georg Oleschinksi, Steinmann Institute, Bonn.

Fóssil do S. bartelsi na colecção do Museu de História Natural de Mainz. Foto: Georg Oleschinksi, Steinmann Institute, Bonn.

O S. bartelsi pertence a um grupo conhecido exclusivamente do Câmbrico e que se considerava extinto desde meados desse período – ou seja, pouco mais de 100 milhões de anos antes da data a que surgiu ligado o novo achado na Alemanha.

Para a ciência, a particular importância deste fóssil são as suas estruturas, que o colocam como um elo de ligação entre os anomalocarídeos, gigantes marinhos conhecidos do Câmbrico, e os artrópodes modernos. Com uma cabeça semelhante à dos primeiros, o corpo é segmentado como o dos modernos artrópodes. Os seus apêndices da região da cabeça são aliás considerados os ancestrais das pinças dos escorpiões e dos caranguejos de ferradura.

Este animal apresentava também um par de membros triangulares entre a cabeça e o tronco que seriam, muito provavelmente, utilizados para a locomoção aquática, de forma semelhante aos pinguins. No entanto, ao contrário dos seus parentes mais antigos, que atingiam perto de um metro, esta nova espécie era bem mais pequena: ficava-se pelos 10 cm de comprimento.

Mas apesar de pequeno, o S. bartelsi trouxe um enorme avanço na compreensão da evolução do maior Filo, encantando todos aqueles que estudam a história da vida.

 

Sobre o autor:

Gonçalo Prista é doutorando da Universidade de Lisboa, em Ciências do Mar, e membro da Sociedade de História Natural de Torres Vedras. Trabalha nas áreas de paleoceanografia e paleontologia.

Os ressuscitares marinhos são o tema da sua segunda crónica, numa série dedicada às Espécies Lázaro. Aqui, pode ler a primeira.