Ilustrações: Helena Geraldes

Na magia do bosque atlântico

Dias com vida selvagem

Da escuridão emergem contornos difusos. Na luz ténue do dia que começa a nascer, as primeiras formas que se reconhecem são as das árvores de maior porte. Ao som dominante da água a correr por leitos previsivelmente acidentados e sinuosos, vão-se juntando os cantos das aves mais madrugadoras.

Pouco a pouco a luz apodera-se do bosque que, nesta fase, ainda se encontra tingido por tons de cinzento. No ar fresco da alvorada sente-se uma humidade intensa proveniente do período nocturno. Em tudo o que se toca, há água. O orvalho ainda vai perdurar por algumas horas, mesmo nos recantos que mais tarde conseguirão libertar-se da penumbra que por agora se mantém omnipresente.

Os cantos que se vão juntando ao coro de sons que têm de competir com o ruído permanente dos ribeiros próximos, denunciam a identidade de outros habitantes alados do bosque.

Avizinha-se um dos grandes momentos do dia. Tocado pelos primeiros raios de sol, o topo da vertente da montanha, virada a nascente, é o primeiro espaço a “acender-se”. Adivinha-se o que vem aí! Cercando pequenas ocorrências de azevinhos – muito verdes e reluzentes, alguns deles carregados de bagas – uma grande mancha de carvalhos com padreiros e castanheiros disseminados pelo seu interior, levanta a ponta do véu, dizendo-nos que chegamos no momento certo, que estamos em pleno Outono, que esta é a época mais propícia para se mergulhar no interior de um bosque atlântico bem preservado, precisamente no auge do período mais exuberante do seu ciclo anual de vida, sempre em constante mudança.

 

 

A luz avança rapidamente encosta abaixo, trazendo à ribalta sanguinhos-de-água, pereiras e cerejeiras-bravas. Com elas emergem novas tonalidades. Do anonimato vão saindo grandes teixos e, perto da água, freixos e salgueiros competem entre si pelo tom mais dourado. A paleta de cores vai agora dos castanhos carregados aos verdes fortes, passando pelos vermelhos e laranjas intensos e por vários tons de amarelo.

Ainda é cedo quando o sol atinge o solo. Reposicionamo-nos de modo a ficarmos sob densas copas arbóreas. O contraste entre as sombras proporcionadas pelo arvoredo e os espaços do bosque iluminados pelo sol, progressivamente mais quentes, é maior. Um calor que, incidindo também no solo, faz evaporar a grande quantidade de água retida no espesso manto de folhagem e na cobertura herbácea. O efeito desta interação é grandioso. Adensados pelo vapor húmido que se eleva do chão da floresta, inúmeros feixes de luz provenientes dos interstícios da folhagem, definem-se, paralelos, criando um ambiente perfeito, propício a imaginar movimentações inesperadas e a idealizar registos fotográficos singulares.

Progredimos numa aproximação ao rio, acercando-nos de uma rústica ponte pedonal que o permite atravessar. O objectivo é alcançar a base da encosta, agora toda ela exposta à luz solar para, a partir daí, subi-la até ao cume.

Na parte inicial do percurso um estreito mas bem marcado trilho, permite uma progressão fácil. Mas à medida que o declive se acentua, a vegetação adensa-se e o caminho dissipa-se. Só o recurso a passagens abertas por corços, também percorridas pelos lobos, torna possível avançar, numa rota em constante mutação, pois há que tornear grandes exemplares arbóreos e a profusa vegetação arbustiva que os cerca. Na base de alguns dos troncos mais velhos há buracos escavados por diferentes animais. Noutros locais encontramos camas onde os javalis se deitam. O ambiente é bravio e por momentos experimentamos a sensação, sempre desejada, de convivermos com um reduto de vida selvagem.

Grande parte da tarde é consumida neste deambular pela floresta, à procura de marcas e sinais deixados por quem nela reside ou a atravessa com regularidade. Sentimos os cheiros, acolhemos os sons. Já próximo do topo, mergulhados na sombra que de novo tomou a encosta, emergimos do bosque. Uma mancha de urze que mais acima dá lugar ao tojo, separa-nos da parede de afloramentos rochosos que define o cume. Avançamos directamente para eles.

Aí chegados, escolhemos um bom spot. Na hora certa. O sol ainda brilhará por mais uma boa hora, iluminando, sem ferir, toda a encosta que sob nós se precipita para o fundo de um novo vale onde um outro rio progride. Desfrutamos, nestes sessenta minutos, de uma vista soberba, percorrendo o vasto campo de visão que daqui se detém. Um bosque quase ininterrupto, exibindo uma policromia explosiva, expande-se num relevo que por ser muito acidentado, o torna ainda mais belo e grandioso. Múltiplas vertentes, fragmentadas por corgas estreitas, todas orientadas para a base do vale que agora vamos ter que alcançar.

O sol já se pôs quando mergulhamos de novo no bosque. A luz atenua-se rapidamente, esbatem-se as cores do arvoredo outonal. Na penumbra que antecede a escuridão que será muito negra dentro do bosque, atingimos o final do percurso. Do interior da espessura florestal que ficou para trás, chega-nos o canto melancólico de uma coruja-do-mato. Não precisávamos de um tão forte apelo para ter vontade de regressar em breve e mais uma vez sentir a solene magia de um bosque atlântico bem preservado.