Ilustrações: Helena Geraldes

Nas alturas da região de Barroso

Dias com vida selvagem

Derradeiras semanas de Verão. Os dias ainda aquecem, vivemos o período mais seco do ano com homens e natureza a implorar para que chova.

Os fogos, que este ano voltaram em força devido a uma secura prolongada, às altas temperaturas sacudidas por ventos fortes e a razões mais profundas como o recuo da floresta natural de que a mão humana é responsável, agravaram o período do estio, impelindo-nos a uma incursão pelo extremo norte do nosso território. Aqui trilhamos paragens mais frescas e a maiores altitudes, terras desabrigadas em que nada se interpõe entre quem nelas viaja e o céu ilimitado que sempre as acompanha.

O périplo desenvolve-se na forma de um triângulo em cujos vértices se encontram as serranias eleitas. Todas em Trás-os-Montes, Mourela e Larouco convivem próximas junto à raia, no concelho de Montalegre. A Serra do Barroso situa-se um pouco mais a sul, no concelho vizinho de Boticas. Interpondo-se entre elas, a albufeira do Alto Rabagão é o maior dos lagos artificiais criados pelas várias barragens construídas nos vales dos rios Cávado e Rabagão. Apesar de impactantes, estas barreiras edificadas pelo homem são superadas pelo poder agregador dos importantes valores naturais aqui presentes, repetidamente apreciados por quem tiver o privilégio de se acercar destas três atalaias da região de Barroso e desfrutar da beleza cénica das paisagens que delas se divisam.

Na imensidão do Planalto da Mourela (ver sugestão de férias que a Wilder propôs para o Gerês) o que nos concentra a atenção são as zonas alagadas nas cabeceiras das linhas de água. Nalgumas delas, junto a pequenos espelhos de água, matéria orgânica de inúmeras plantas rasteiras decompõe-se lenta e parcialmente, criando a turfa.

 

Pequeno espelho de água

 

Algumas das espécies que aqui vivem desenvolveram mecanismos para compensar a escassez de nutrientes. São os casos da orvalhinha e da pinguícula lusitânica que se alimentam dos insectos que atraem e capturam nestas turfeiras. Na envolvência próxima das áreas encharcadas prosperam os matos húmidos, rodeados de matos secos que se vão expandindo e adensando à medida que nos afastamos das zonas húmidas. Na composição dos urzais merecem destaque a lameirinha e a margariça.

À semelhança das plantas insectívoras, as bolas-de-algodão convivem directamente com a água, nas áreas alagadas, enquanto as orquídeas-bravas, os milefólios, as sucisas e as gencianas prosperam nas proximidades.

Na Mourela abundam os lameiros, em zonas planas ou, mais frequentemente, em terrenos com algum declive. Para eles são desviadas as águas que nascem perto dos cumes e com as quais se pretendem manter os pastos viçosos. No Inverno a água é bem distribuída por uma engenhosa rede de canais com o objectivo de evitar que o gelo queime o alimento do gado. Mas esta manipulação da água, associada a um pastoreio excessivo e ao fogo, também causa dano quando drena e seca o solo, degradando e reduzindo as áreas de turfeiras, muito importantes sob o ponto de vista biológico.

Tritões-de-ventre-laranja e tritões-marmorados, salamandras-de-pintas-amarelas, várias espécies de rãs e de libélulas, muitas borboletas, algumas menos comuns como a pequena borboleta-azul, são o lado mais visível da animação que reina em charcas e lamaçais e nos canais de rega dos prados onde se colhem os fenos.

A paixão pelas aves motiva aproximações regulares e em diferentes épocas do ano, à Mourela. Mas quem é mais fortemente tocado por ela, aproveita cada nova oportunidade para alargar as suas caminhadas aos vizinhos Cornos das Alturas, ponto cimeiro da Serra do Barroso e aos cumes do Larouco, uma serra de que se fala menos apesar de se tratar de uma das mais altas de Portugal. Esta é uma das motivações mais fortes para este périplo triangular já que o esforço despendido a tentar contactos com espécies de aves menos frequentes pode ser compensado também nestes dois últimos territórios.

Não é fácil observar narcejas, ave limícola que se foi tornando mais rara devido à perda de «habitat» e também à pressão da caça. Muito mimética, no verão alimenta-se em lameiros e outros pastos húmidos.

 

Narceja-comum (Gallinago gallinago)

 

É por aqui, a cotas mais elevadas, que investir no desafio de a tentar avistar, pode valer a pena. Muito mais acessíveis são algumas das petinhas que ocorrem em Portugal. Em pequenos bandos, alimentam-se no solo, dissimuladas na espessura vegetal. Mas quando, muito atentas, permanecem imóveis sobre um pequeno afloramento rochoso, tornam-se fáceis de observar.

O tartaranhão-azulado voa nestes céus, apesar de ser menos comum do que o tartaranhão-caçador (ou águia-caçadeira). Com alguma sorte podemos cruzar-nos com um exemplar melânico desta última espécie, forma em que a ave se apresenta toda negra.

Os falcões-abelheiros, também conhecidos por búteos-vespeiros, estão de partida no seu regresso a paragens mais quentes.

 

Picanço-de-dorso-ruivo (Lanius collurio)

 

Picanços-de-dorso-ruivo, escrevedeiras-amarelas, sombrias e até melros-das-rochas são aves muito especiais que ocupam habitats vizinhos nestas paragens mais inóspitas. Nos confins ocidentais da terra fria transmontana.