A caminho da Pena Vieja e Torre Cerredo. Fotos: Miguel Dantas da Gama

Nos Picos da Europa, tecto da Cordilheira Cantábrica

Dias com vida selvagem

Finalmente o Parque Nacional dos Picos de Europa, última etapa do roteiro que em Dias com Vida Selvagem temos vindo a percorrer nas melhores paragens de natureza selvagem das grandes cadeias montanhosas de Espanha.

 

Situado no sector oriental da cordilheira cantábrica, a sua origem remonta a 1918 ano em que foi criado o Parque Nacional da Montanha de Covadonga com uma área de cerca de 17.000 hectares. O que é hoje o P.N. dos Picos de Europa surge em 1995 com a ampliação da área protegida que passa a abranger um território com 65.000 hectares nos três maciços do tecto da cordilheira, situados na junção das províncias das Astúrias, Cantábria e Castilla e Leon. Em 2003 é-lhe atribuído o estatuto de Reserva da Biosfera.

 

Desfiladeiro do Dobra

 

Alcantilados sobre a costa atlântica, os Picos são proeminências espectaculares de uma cordilheira grandiosa. Vestígios de geomorfologia glaciar, prados alpinos, turfeiras e bosques caducifólios – dominados pelas faias acompanhadas por azevinhos e carvalhos entre muitas outras essências – definem os principais ecossistemas num ambiente de relevos abruptos, de gargantas e canhões, em solos de rocha “caliza” geradores de “roquedos” e “cuevas” por onde a neve e águas torrenciais se somem. Deles dependem importantes comunidades de vida selvagem características da alta-montanha.

Por aqui vagueiam os ursos-pardos da muito escassa população da vertente oriental dos montes cantábricos onde também os lobos enfrentam uma enorme pressão movida por criadores de gado e caçadores. As camurças e os corços não sofrem da mesma perseguição.

No reino das aves, o grande tetraz é dos que merece maior destaque mas tem sido notícia pelas piores razões. Perda de habitat, caça e muitos factores de pressão humana sobre o seu ciclo reprodutivo têm encaminhado a população desta admitida subespécie cantábrica (Tetrao urugallus cantabricus) para a situação de em vias de extinção.

Outros mamíferos e aves, mas também muitas espécies de répteis e anfíbios, valorizam de uma forma excepcional os Picos e os espaços naturais envolventes. Os mais próximos são o vizinho Parque Natural de Redes na zona centro-oriental das Astúrias, criado em 1996 e Reserva da Biosfera desde 2001 e o Parque Natural de Ponga. Este encerra a Reserva Natural Parcial do Bosque de Peloño, um faial com carvalhos e azevinhos com cerca de 1.570 hectares, onde lobos e talvez ainda algum urso e galos-montês podem encontrar refúgio e alimento. São presenças pressentidas por quem tem o privilégio de atravessar este reduto.

 

Vegabano

 

Os Picos da Europa há muito que são uma meca para naturalistas, montanhistas e escaladores. A massificação em locais mais mediáticos e em determinados períodos do ano é um problema. A espectacular Garganta do Cares e o Naranjo de Bulnes são os melhores exemplos. A primeira desfruta-se num percurso de cerca de dez quilómetros percorridos num trilho escavado nas paredes de um profundo e apertado canhão entre as aldeias de Caín e de Poncebos. O rio, que no início da caminhada flui quase ao nível do trilho, vai-se afundando no abismo sobre o qual progredimos. O Naranjo ou Pico Urriello (2.519 metros de altitude) é um proeminente monólito calcário com quinhentos metros de altura, situado no maciço central dos Picos muito próximo da Torre Cerredo que com os seus 2.649 metros é o cume mais elevado de toda a cordilheira cantábrica.

Inúmeros trilhos sinalizados permitem aceder aos locais referenciais do território do Parque Nacional. Uma das vias que conduz a estes pontos extremos do maciço central, parte do teleférico de Fuente Dé que no lado superior nos coloca próximo da base da Pena Vieja a caminho da Cabana Verónica.

Se nos mantivermos atentos às aves que por aqui ocorrem, somos rapidamente recompensados. Gralhas-de-bico-amarelo, gralhas-de-bico-vermelho, ferreirinhas e pardais-alpinos, chascos-cinzentos, são alternativas interessantes ao avistamento fácil dos «rebecos».

Os menos dados a caminhadas, ou esforços físicos, podem sentir o melhor do Parque percorrendo Los Beyos. Se provenientes de Riaño, a povoação junto ao grande embalse, que se atravessa quando nos aproximamos dos Picos, o Desfiladero de Los Beyos» é um canhão extenso no fundo do qual circulamos por uma estrada estreita. A grandiosidade das paredes que nos comprimem é soberba e o coberto vegetal acrescenta-lhe muito valor. Extensos faiais na parte superior das vertentes, dão lugar a formações mediterrânicas de azinheiras, loureiros e medronheiros nos recantos abrigados. Junto ao rio, é a mistura espontânea de salgueiros, freixos, bordos, aveleiras, azevinhos e de teixos que deslumbra, principalmente no outono.

Voltemos aos trilhos. Quem quiser mergulhar nos melhores bosques, contemplar os mais profundos barrancos, descer às profundezas dos rios, deve privilegiar o maciço ocidental.

 

Picos da Europa, maciço ocidental

 

A confluência do rio Dobra com os seus afluentes Pelabarda, Pomperi e Jungumia, são um local quase inacessível, mas caminhar ao seu encontro é em qualquer caso uma experiência que quem gosta de sentir montanha pura, não deve perder. Por Amieva ou pelo Lago Enol e Mirador del Rey, chega-se perto e sente-se muito, atravessando rios a vau e extensos “hayedos”. Por Soto de Sajambre, refúgio de Vegabaño, Canto Cabronero e Bosque de Carombo ou pelo Mirador de Ordiales (também a partir do Enol) mergulhamos ou contemplamos o vale do Dobra um pouco mais a montante. Por aqui somos esmagados pelas vertentes que cercam a Pena Santa de Castilla (2.596 metros) o cume do maciço que se alcança pela ponte de Carombo e pelo refúgio de Huerta ou pelos lagos acima de Covadonga, passando pelo refúgio de Veja Redonda.

Território mais abrupto e elevado de uma montanha situada sobre o mar, os Picos da Europa estão sujeitos a variações bruscas e extremadas das condições atmosféricas, geradoras de tempestades e nevoeiros repentinos, de alterações acentuadas das temperaturas mesmo em dias de verão, factores que exigem um cuidado redobrado quando se planeiam e desenvolvem actividades outdoor nestas fantásticas paragens.

 

Saiba mais.

Leia aqui as crónicas de Miguel Dantas da Gama sobre as melhores paragens de natureza selvagem das grandes cadeias montanhosas de Espanha.