Ilustração: Helena Geraldes

O apelo da Primavera

Dias com vida selvagem

Os dias há muito que estavam a crescer, desde as vésperas de Natal, mas foi a alteração da hora e uma subida mais expressiva da temperatura média diária que puseram fim a essa sensação de vivermos num arrastado e infindável período de Inverno.

No campo multiplicam-se os sinais da mudança. Já despontaram as primeiras flores a que em breve outras se juntarão para pintar por completo os prados e as orlas dos bosques onde o arvoredo ganha rapidamente nova folhagem. Aos cenários campestres regressam as cores vivas dos narcisos, das orquídeas, das violetas, das margaridas e de muitas outras flores silvestres, elementos mais impressivos das alterações facilmente perceptíveis aos olhos de quem vai ao encontro desta cíclica renovação em que a natureza se empenha.

A Primavera manifesta-se, mas não se sente apenas através da contemplação. Os aromas que advêm desta explosão generalizada de vida, de nova vegetação, geram outras sensações, indissociáveis da sua chegada. São muitos e variados, dependem dos habitats que atravessamos.

Com a partida do frio – pelo menos daquele que nos acompanhou de uma forma constante e continuada – e com os dias maiores, há mais tempo, há mais luz, há mais vida a impelir-nos a sair para o campo e a caminhar. Rãs, salamandras e tritões voltam a animar-se nas margens de ribeiros e lagoas e, na vegetação igualmente anfíbia de charcas e turfeiras, a vida também se agita.

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Cobras e víboras, lagartos e lagartixas acordam da letargia, emergindo dos interstícios de paredes e muros e das fendas de afloramentos rochosos.

Mas no reino animal, são as aves que mais exuberantemente se manifestam neste começo da sua importante época de nidificação. Os machos entregam-se a grandes exibições, de voo e de canto, tentando cativar a atenção das fêmeas e dar início ao ciclo de reprodução. Às muitas espécies que por cá resistiram aos rigores do Inverno vão-se juntando as estivais, provenientes de paragens distantes e que regressam ao nosso território também para nidificar. Fundamentalmente estas últimas, associamo-las à Primavera porque só as avistamos com a chegada da nova estação. As andorinhas são sempre as mais conotadas, mas outras espécies há, que nos tocam noutro sentido.

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A Primavera é também feita de sons. Sons que, para quem se embrenha na natureza com regularidade e ao longo de todo o ano, se associam a dias de sol, de muita luz e também de mais calor. Os cantos das poupas, das rolas-comuns e dos mais esquivos papa-figos destacam-se entre os chamamentos que melhor sugerem a época.

Também nos céus primaveris dos nossos montes há agora mais para procurar e seguir. São outras aves, maiores, que chegam ao nosso território enriquecendo o mundo sempre admirado e mais restrito das aves-de-rapina. As grandes águias-cobreiras distinguem-se pela envergadura e pelo tom muito claro da sua plumagem na parte inferior do corpo. E por peneirarem, imóveis e durante longos períodos tentando detectar cobras no solo, a sua presa por excelência. Águias-calçadas, tartaranhões-caçadores e falcões-abelheiros manifestam-se de formas distintas mas contribuem para que a época do ano que agora se inicia seja ainda mais motivadora.

Voltemos à luz que também a caracteriza. Entramos num período de dias luminosos que se vai prolongar até finais do mês de Agosto. Dias também compridos, para os quais planeamos caminhadas especiais nomeadamente as mais extensas. Na montanha, há que ter em conta com a mudança, por vez radical, da percepção que temos de um mesmo cenário quando submetido a diferentes exposições de luz. Um mesmo percurso feito ao início do dia pode parecer muito diverso quando por ele regressamos ao final da tarde. E a ideia que fazemos da distância a que nos encontramos de um ponto distante no horizonte, pode variar com a luz a que o espaço está exposto, num fenómeno que é sempre agravado, quando, a altitudes maiores, escasseiam as referências físicas (edificações humanas ou árvores) que normalmente nos rodeiam e com as quais avaliamos por comparação, dimensões de uma encosta, de uma parede rochosa, ou a altura de um cume. Sem estas referências, a determinação da distância torna-se mais difícil.

Recordo-me de uma das primeiras incursões nos Pirinéus. Já às primeiras horas da tarde, avistámos uma parede rochosa na vertente mais elevada da montanha, interrompida por uma fenda que decidimos atingir após uma “ligeira” avaliação da distância que ainda teríamos que percorrer. Mais meia hora de caminhada deixou-nos a impressão que o objectivo estava mais distante do que inicialmente parecia. Foi então que com o binóculo detectamos uma coluna militar de cerca de 50 homens caminhando, quase imperceptíveis, pela base da parede! A referência que faltava. Rapidamente calculamos que a “muralha” teria uns 100 metros de altura e a fenda cerca de 40. E que a distância que nos separava delas tornava o objectivo inalcançável tendo em conta as exigências de tempo impostas pelo regresso.

Quem se aventurar por montanhas maiores, por novas travessias em terrenos desconhecidos, mal sinalizados e a maiores cotas, à procura de vida selvagem e de ambientes que exigem maiores desafios, deve acautelar-se, se não dispuser de equipamentos de orientação ou de mapas. Deve procurar registar elementos na paisagem que sirvam de referências e prever a necessidade de tempo adicional que permita corrigir eventuais enganos ou outros erros cometidos.