Há cerca de 7500 anos, houve um encontro no litoral centro e sul do continente português do qual se sabe pouco, mas que mudaria o nosso estilo de vida.

Na verdade, este encontro foi semelhante ao que ocorreu em muitas outras regiões da Europa. De um lado, estavam os caçadores-recolectores que habitavam esta região há milhares de anos. Do outro, grupos de agricultores e criadores de gado recém-chegados por via marítima de algures do Mediterrâneo (possivelmente sul de Espanha ou de Itália), que eram estranhos em terra estranha.

Ambos os modos de vida passaram a co-existir em diferentes locais no nosso território durante cerca de 500 anos, havendo uma gradual expansão do modo de vida agro-pastoril até este se tornar dominante. Apesar de não haver detalhes do modo como tal aconteceu, podemos de qualquer forma imaginar uma história de amor entre um jovem agricultor e uma bela caçadora-recolectora, com os inevitáveis conflitos familiares. Uma espécie de Romeu e Julieta de tempos imemoriais.

Mas vamos contextualizar melhor esta mudança. Depois do final da última glaciação (há cerca de 10.000 anos), os caçadores-recoletores ocupavam sobretudo áreas junto à costa e ao longo dos rios, alimentando-se de moluscos, peixes, aves e mamíferos. Pela análise de esqueletos encontrados nestas áreas, sabe-se que cerca de metade da sua dieta era composta por recursos aquáticos.

Entram em cena os grupos agro-pastoris, colonizadores que traziam consigo cereais como o trigo e a cevada e animais domesticados como a cabra, a vaca e a ovelha. Tanto as plantas como os animais eram oriundos do Médio Oriente. Fixaram-se em zonas mais interiores, onde havia floresta densa e menor ocupação humana. Viviam, assim, em áreas pouco ocupadas por caçadores-recoletores, e tinham uma alimentação totalmente terrestre.

E como era a agricultura itinerante que praticavam? Começavam por queimar e limpar pequenas áreas de mato ou floresta, cavando de seguida o solo com pequenas enxadas de pedra polida. Depois de semearem e colherem cereais durante alguns anos esgotando a fertilidade natural do solo, deixavam essa área em repouso, mudavam-se para outra e voltavam a repetir o processo. Para além de se alimentarem de plantas e de animais domésticos, também se distinguiam dos caçadores-recoletores pelo uso de cerâmica e de ornamentos tais como colares feitos de conchas ou dentes de veado.

Por outro lado, os caçadores-recoletores concentravam-se habitualmente em áreas no litoral ou junto aos rios de que são exemplos os concheiros do rio Tejo e do rio Sado. O estudo de animais como o veado, o javali e o auroque (uma espécie de bovino já extinta, semelhante ao touro) revelou que estas se tornaram mais pequenas depois do final da última glaciação, provavelmente pelo aumento da temperatura e caça excessiva. Supõe-se que terá havido maior escassez de alimentos, o que explica que os caçadores-recoletores capturassem um maior número de animais de menor porte, espécies mais pequenas como o coelho-bravo e presas de baixo valor alimentar (os tais recursos aquáticos).

Outro aspeto curioso foi a descoberta, em 1880, de um esqueleto quase completo de um cão nos concheiros do rio Tejo (mais propriamente em Muge, Ribatejo) com cerca de 8.000 anos. Trata-se do cão mais antigo encontrado até à data em Portugal, havendo indícios de que era um animal de companhia pela forma como foi enterrado. Este animal terá provavelmente sido usado nas caçadas que estes grupos de caçadores-recoletores faziam regularmente.

E foi desta maneira que se estabeleceu o modo de vida agro-pastoril no nosso território. Os estranhos deixaram de o ser e o cultivo de sementes e a criação de animais domésticos passaram a ser as formas mais habituais dos nossos antepassados obterem alimento.

Bruno Pinto, biólogo e pós-doutorando no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, escreve sobre o clima, as plantas e os animais que viveram no território continental português nos últimos 10.000 anos. Uma crónica por mês. Esta é a segunda.