Fotos: Miguel Dantas da Gama

Pelo olival tradicional

Dias com vida selvagem

Começa por ser uma luz ténue. Mas pouco a pouco, no novo dia que nasce, ela propaga-se, intensificando uma densa cortina de nevoeiro. Está um frio de rachar, de “carambina”, como se diz por aqui, num olival antigo do interior transmontano. É então que, por entre a bruma, ganham forma troncos enormes, escuros, retorcidos, esventrados pelo tempo.  São estas árvores, as de maior idade, que me fazem descer das montanhas por onde normalmente caminho mais a oeste do território nacional.

A oliveira é uma essência arbórea especial. É mais conhecida pela cultura que o homem desenvolve há muito com ela do que pelo carácter silvestre da espécie que está na sua origem. Com o decorrer dos tempos, o valor ecológico destas árvores foi sendo menosprezado, prevalecendo, agora mais do que nunca, o interesse económico da sua exploração.

 

 

Por estes dias já se apanha a azeitona. Para conserva e para produzir o azeite, usado desde tempos imemoriais como unguento e na iluminação. Na cozinha, o fruto da oliveira é utilizado numa imensidade de pratos que alimenta e condimenta. A importância do azeite tem sido promovida em dietas alimentares que se querem cada vez mais saudáveis, o que fomenta a criatividade e a diversidade das formas como ele e a azeitona são valorizados nos circuitos comerciais e nas cadeias de consumo. A cosmética e a medicina são outras áreas que há muito recorrem a substâncias extraídas deste óleo. E a utilização da madeira de oliveira é também ancestral.

Estão identificadas duas variedades para a Olea europaea subps. europaea. A sylvestris é autóctone no sul do território continental português. Conhecida como oliveira-brava ou zambujeiro tem um porte arbustivo e ocorre em azinhais e sobreirais. A outra variedade botânica é a europaea. Com um porte arbóreo, aguenta temperaturas mais extremas, sobrevivendo por isso também a maiores altitudes. Ambas são originárias do mediterrâneo onde desde a antiguidade são cultivadas pelo homem. Diversas civilizações como a grega e a egípcia já lhe atribuíam extrema importância.

A domesticação da oliveira na Península Ibérica conhece uma maior difusão com a chegada dos romanos. O esforço de obtenção de melhores colheitas levou ao desenvolvimento e à seleção de formas diversas das plantas manipuladas pelo homem. Devido às exigências do mercado do azeite, foram surgindo novas cultivares, que implicaram o recuo das mais antigas que caracterizavam o denominado olival tradicional. No nordeste transmontano a Zambulha, a Verdeal, a Santulhana, a Negrinha ou a Madural cedem lugar à Cobrançosa (ou Bical). No Alentejo predominam a Galega, a Cordovil, a Carrasquenha. Azeitonas maiores, que crescem mais rapidamente em oliveiras mais fáceis de varejar, nomeadamente por processos mecânicos, têm-se imposto aos frutos produzidos nos olivais antigos. Mas os olivicultores mais velhos não têm dúvidas de que antigamente o azeite era de melhor qualidade, mais resistente e as árvores menos sujeitas a “moléstias”. Muitos contornam o problema misturando azeitonas no lagar, mas a perda das árvores mais antigas é um facto preocupante que por isso justificou ser o tema desta crónica.

 

 

A oliveira é uma espécie de grande longevidade podendo durar mais de 1500 anos. São conhecidos exemplares, em Israel por exemplo, com mais de 2000 anos. No Portugal profundo também sobrevivem indivíduos de porte soberbo. São extremamente importantes para a vida selvagem, num território há muito humanizado, sujeito a plantações de monoculturas, com árvores alinhadas num terreno lavrado e “limpo” de outra qualquer vegetação que possa prejudicar as colheitas.

Nas extensas manchas de olival, as árvores maiores são o único refúgio, abrigo e local de reprodução para muitas espécies de aves, especialmente importantes para rapinas nocturnas, tanto mochos como corujas, bem como para diversos mamíferos de pequeno e médio porte, entre os quais se destaca a gineta (Ginetta ginetta).

A oliveira é uma árvore triste, cinzentona. Mas mais triste é o que lhe andam a fazer. Os fundos comunitários subsidiam a conservação do olival tradicional, mas também dão verbas para a criação de novos olivais em que se plantam estacas de crescimento rápido e fraca envergadura cuja exploração provoca intervenções do solo menos cuidadas e a utilização abusiva de pesticidas. Há agricultores que ganham pelas duas vias. E por uma terceira, quando vendem árvores antigas. Mortas ou vivas. Arrancaram-se exemplares de grande beleza, pela raiz, para utilização como árvore ornamental. Muitas foram para o estrangeiro. Mais incompreensível e inaceitável é o derrube de verdadeiros monumentos naturais para alimentar fogões e lareiras.

 

 

É lamentável a forma como se trata em Portugal um património natural tão valioso e singular. Uma atitude que dá que pensar quando se compara com a indignação que (naturalmente) provoca na sociedade, a degradação de um qualquer imóvel com interesse histórico ou arquitectónico. As árvores e a floresta continuam a ser destruídas, não apenas pelos incêndios. São desvalorizadas, principalmente por muitos daqueles que diariamente com elas mais convivem.