Fotos: Miguel Dantas das Gama

Roteiro pela essência da montanha em Ordesa e Monte Perdido

Dias com vida selvagem

Nestes Dias com Vida Selvagem vamos iniciar um roteiro por algumas das melhores paragens de natureza selvagem das maiores cadeias montanhosas de Espanha. Ao longo dos próximos meses abordaremos os melhores parques e reservas das cordilheiras pirenaica e cantábrica. Valorizando os espaços e as paisagens grandiosas que eles proporcionam, procuraremos a flora e a fauna que só nas montanhas maiores se conferem.

 

Para os amantes de alta-montanha, Portugal não satisfaz. Falta-lhe (muita) altura. Apesar disso, não nos podemos queixar. A sorte está do nosso lado, ou melhor, ao nosso lado. O país vizinho é dos mais montanhosos da Europa.

O primeiro destino é a prova maior. Ordesa e Monte Perdido é sublime! Nele estão reunidos todos os requisitos que na nossa mente se juntam para definir a montanha perfeita. Declarado parque nacional em Agosto de 1918, está situado na província de Huesca, na comunidade autonómica de Aragão, zona central dos Pirinéus onde se localizam os cumes mais elevados, naquela que é a mais alta montanha calcária da Europa. O território nuclear desta área classificada abrange cerca de 15.700 hectares, envolvidos por mais 19.200 hectares de uma zona periférica que o protege. Foi declarado Zona Especial de Protecção para as Aves (ZEPA) em 1988, Reserva da Biosfera em 1977 e Património Mundial da Unesco em 1997. No Parque Nacional ocorrem mais de 1.500 plantas vasculares, 50 das quais são endemismos pirenaicos, a maior parte sobrevivendo em solos rochosos ou enfiados em gretas, às cotas mais elevadas. É também a maiores altitudes que ocorrem as espécies de animais selvagens mais interessantes devido à raridade dos «habitats» de que dependem.

 

Faial

 

O Monte Perdido, o Cilindro de Marboré e o Soum de Ramound (ou Pico Anisclo) são os três picos mais elevados e que ao longo da fronteira com o parque nacional francês des Pyrenées dominam todo o espaço protegido. É deles, das «Tres Sorores», que irradiam os quatro vales que vamos percorrer.

Ordesa é o mais conhecido. De origem glaciar, é tão perfeito que parece ter sido talhado à mão. Por uma mão grandiosa, tão enorme é a imponência das encostas que o delimitam e definem.

É obrigatório deixar o automóvel no parque da «Pradera de Ordesa». Depois começamos a caminhada, deixando para trás as muralhas do Mondarruego, uma sucessão de escarpas que se vão sobrepondo em altura, e o Tozal del Malo, um maciço que faz lembrar um gigantesco altar, ou o seu retábulo.

 

Mondarruego

 

À medida que subimos o vale por um trilho que acompanha de perto o rio Arazas, a grandeza e a verticalidade dos alcantilados mantêm-se sem interrupção, continuando a surpreender. À nossa esquerda, na margem direita do rio, sucedem-se o circo da Carriata, o Gallinero, o ainda maior circo do Cotatuero por onde se despenha uma imponente cascata e a parede da Fraucata. Sobre a outra margem do rio estende-se, a perder de vista, a grande Faja de Pelay, uma parede onde no ano 2000 foram avistados os últimos «bucardos», a subespécie de cabras-montês, Capra pyrenaica pyrenaica, que só aqui ocorria.

O circo do Soaso e a sua afamada «Cola de Caballo» atingem-se depois de passarmos pelas Gradas do Soaso, uma sucessão de belas quedas de água que antecedem o troço em que o rio mergulha em cascatas profundas (desvios do caminho principal conduzem o visitante a miradouros diante das cascadas de Arripas, de La Cueva e del Estrecho).

 

Cola de Caballo

 

Aqui, na cabeceira do vale, a observação de melros-d´água e de chascos-cinzentos é extremamente fácil. A montanha cresce mais em altura, vislumbrando-se já parte dos cumes das «Tres Sorores». Se quisermos ter uma perspectiva grandiosa de toda a paisagem, há que subir para outro patamar da montanha vencendo a encosta por trilhos mais íngremes e ziguezagueantes, ou então, arrepiando caminho, por passagens não recomendáveis a quem sofra de vertigens. Neste caso o percurso encaminha-nos para as denominadas «clavijas» que se vencem com o auxílio de correntes amarradas à rocha a que nos temos que agarrar para evitar uma queda no precipício. Uma espécie de micro-escalada… assistida.

Ordesa também pode (e deve) ser percorrido por vários trilhos que progridem a diferentes cotas em ambas as encostas do vale. Para os atingir, há sempre que subir bastante, inicialmente imerso em densos e sombrios faiais. À medida que ganhamos altura, estes vão dando lugar a pinhais, primeiro de pinheiro-silvestre, depois de pinheiro-negro, já num ambiente pré-alpino. Um encontro com camurças, pode dar-se a qualquer momento.

 

Camurça (Rupicapra rupicapra)

 

Trajectos mais aéreos como a Faja de las Flores, nalguns troços esculpida na rocha, alcançam-se vencendo outras clavijas como as da Carriata e as do Cotatuero, de todas as mais desafiantes, ou, do outro lado do vale, a «Senda de los Cazadores», um ziguezague sem fim, vertical, tão demolidor para quem o desce como para quem o sobe e que se torna extremamente perigoso nos dias em que a neve e o gelo cobrem o trilho fazendo aumentar o risco de uma queda a cada segundo que passa. Vários acidentais mortais comprovam-no pelo que não é de todo recomendável nos períodos de maior invernia. Nada de preocupante para quem demanda o carismático vale de Ordesa. As alternativas são imensas.

Ao cair da noite regressamos ao parque de estacionamento da «Pradera de Ordesa», no final de mais uma das inúmeras caminhadas que a partir daqui é possível empreender. À nossa espera estão outros vales bem como uma imensidão de território aparentemente inóspito em torno dos cumes de Ordesa e Monte Perdido onde prosperam seres vivos mais raros e onde a essência da montanha nos toca mais de perto. É para aí que seguiremos na próxima crónica Dias com Vida Selvagem.