O que fica de uma tarde de fotografia no Guincho Velho

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Fotografias: Carlos Rodrigues

Um grupo de dez apaixonados pela fotografia explorou a natureza do Guincho Velho, em Cascais, com o intuito de levar um olhar sobre ela para casa. Acompanhámo-los e também levámos o nosso.   

 

Ao início da tarde, uma dezena de amantes da fotografia reúne-se no caminho do Rio Touro, entre a Malveira da Serra e a Azóia, em Cascais. Estão prontos a abandonar o quotidiano urbanizado para descobrir e captar o encanto da riqueza natural do Guincho Velho.

O passeio, organizado pela empresa Green Trekker, tem como guias Miguel Vilardebó, 46 anos, animador turístico de natureza, e Bruno Amaral, 37 anos, agricultor e fotógrafo nos tempos livres.

Debaixo de um Sol intenso que se espelha ao longe no mar, começa o passeio. Tácito Araújo, brasileiro de 40 anos e analista de sistemas, diz em tom de brincadeira que veio apenas pelo “dia de Sol” mas admite de imediato que a paixão pela fotografia e a vontade de “fazer amigos da mesma área” foram as principais motivações. Michael Engholm, sueco de 53 anos e aposentado a viver na zona de Cascais, espera ser “encantado pela vista e tirar grandes fotos” a uma paisagem que considera mais bela que muitas no seu país natal. “Talvez por ser diferente”, diz.

A fotografia também faz parte das intenções de Paulo Parreira, 45 anos. Este engenheiro de telecomunicações diz que quer, acima de tudo, divertir-se mas se vierem umas boas fotos “tanto melhor”.

Por entre curtas paragens, Bruno Amaral chama a atenção para curiosidades da flora, como as orquídeas, os narcisos, as armérias e os chorões, espécie exótica que ameaça a existência destas últimas. Depois de algum tempo a descer é altura de fazer uma primeira paragem para saciar a criatividade e o engenho dos apaixonados da fotografia.

 

 

A vegetação, em vários tons de verde, é pontuada por amarelos e roxos. Neste ponto da caminhada, o mar está mais perto e ouvem-se as ondas a embater com força contra as rochas.

Quem não se deixa dominar pela vista é Paulo Rodrigues. O banqueiro reformado de 56 anos diz que até gosta de ver, “mas ir até ali ao fundo nem pensar”.

Por esta altura, já a cidade se vai vendo esquecida, à medida que o tempo se perde envolto em natureza e se vão acostumando os movimentos do corpo ao trilho. Mas, mais do que com o espaço, a relação vai-se desenvolvendo entre as pessoas. Tácito Araújo fala sobre a sua pouca experiência em fotografia e como prefere aprender com pessoas e não com tutoriais virtuais. Paulo Parreira aconselha programas de edição fotográfica não sem deixar de esclarecer que prefere as imagens ao natural. “Edição é o mínimo possível.”

É altura de retomar a descida, pois o melhor está ainda por descobrir. Faltam agora poucos degraus rochosos para alcançar o destino pretendido: o Guincho Velho propriamente dito. E ao chegar à praia, o cenário não desilude. Os enormes rochedos ali dispostos envolvem o grupo num ângulo de 180º, deixando uma perspectiva frontal aberta, só interrompida por dois rochedos de maior dimensão, batidos sem descanso pelas ondas. Os fotógrafos apressam-se a montar os tripés e as câmaras fotográficas.

 

 

Bruno Amaral, organizador do percurso, anda de tripé em tripé a conversar com os fotógrafos e a dar-lhes dicas. Enquanto isso, Miguel Vilardebó retira da sua mochila duas garrafas térmicas e distribui chá de maçã e canela.

Talvez por isso Norberto Guedes, consultor financeiro de 48 anos, tenha começado a falar mais profundamente da sua vida. Revela que veio mais pelo convívio do que pela oportunidade de fotografar a paisagem, o que explica a máquina sempre guardada. Fala da sua paixão pela fotografia e de como antigamente preferia fotografar paisagens. “Agora, se não tiver pessoas, dificilmente acho grande piada”, conta. Muito devido às aventuras vividas em viagens fora do país. Norberto conta como as crianças das montanhas do Tibete se deslumbravam com a câmara fotográfica. “Normalmente chega a um ponto que é incontrolável e tens que ir embora”, tal é o número de vezes que pedem para ver a fotografia de si mesmos. Norberto aconselha vivamente que os jovens viajem muito para sair da sua zona de conforto.

Entre palavras, gargalhadas e fotografias, o Sol vai descendo e perdendo a intensidade. O resultado é um aumento da nitidez das formas e um horizonte azulado, interrompido por uma faixa laranja. Rui Pereira, arquitecto de 38 anos, destaca a qualidade da luz, a textura das rochas e o movimento da água, apesar da falta de “nuvens para tornar o céu mais dramático”.

Todos se concentraram em recolher o melhor da paisagem para dentro da câmara. Passado algum tempo começa a escurecer. Pensa-se já em ir embora. Mas não sem Bruno Amaral anunciar que o melhor está por vir.

Assim, Bruno vai à mala tirar um pequeno batedor de cozinha manual e coloca dentro dele um pouco de palha-de-aço. Perante os olhares surpreendidos e expectantes dos restantes presentes, sobe para uma rocha, de onde pede que preparem as máquinas e esperem pelo devido sinal. O guia pega fogo à palha-de-aço com um isqueiro, dando o sinal e começando a girar um fio de corda atado à batedeira. Faíscas de cor laranja voam para fora de um círculo da mesma cor, formado pelo movimento circular do guia. Tácito Araújo diz que no Brasil lhe chamam o “fogo-de-artifício dos pobres”. O objectivo foi produzir, em cada câmara fotográfica dos respetivos presentes, uma obra de light painting. O resultado foi uma fotografia em que Bruno aparece a formar um círculo luminoso, a partir do qual chovem diversos feixes de luz.

 

 

Terminado o espectáculo de pirotecnia acendem-se as lanternas para iluminar o caminho de volta. Se a descer todos os santos ajudam, o mesmo não se pode dizer quando é para subir. Victor Trincão, reformado com 66 anos, aparenta estar ofegante e pede para parar várias vezes. Mantendo o bom humor do início ao fim, diz, com uma voz abafada: “Sabem, estou cansado porque ainda ontem vim a pé desde Nova Iorque”.

A subida demorou muito mais para todos, talvez porque o entretenimento da paisagem se via agora substituído apenas pelo escuro da noite, pelo barulho dos passos e pela vontade de jantar. Mas a chegada ao destino foi feita com uma sensação de preenchimento interior e com novos laços de amizade construídos. Vítor confessa que “não vivia algo assim há 50 anos”.