A casa das plantas selvagens portuguesas tem vista para o Tejo

Natureza

O dia começa cedo. Ainda de madrugada e já com quase 60 quilómetros percorridos desde Lisboa, João Paulo Gomes coloca o dístico com o número 74 na viatura e acena para o segurança que lhe autoriza a entrada na Companhia das Lezírias do Tejo.

Hoje, quatro dos sete elementos da SIGMETUM, empresa de produção de plantas autóctones localizada na Tapada da Ajuda, em Lisboa, estão nas Lezírias do Tejo para recolher sementes.

Percorrem-se caminhos de areia entre pinhais extensos e montados de sobro que vão ganhando cor à medida que a neblina matinal se dissipa.

 

Na recolha de sementes de aroeria Fotografia: SaraSaraiva

Na recolha de sementes de aroeira Fotografia: SaraSaraiva

 

“Vamos onde?”, pergunta João Paulo, arquiteto paisagista e coordenador da equipa que o acompanha. “Para as pistácias!”, responde prontamente David Sampaio, também arquiteto paisagista e colaborador na SIGMETUM desde 2012.

Um grupo de seis perdizes-vermelhas atravessa-se à frente do jipe.

“É aqui. Já andei debaixo deste sobreiro”. Diogo Coelho, geógrafo, indica o local para o primeiro ponto de recolha de sementes. No silêncio, uma gralha-preta denuncia a chegada da equipa. “Isto está tão bonito, olhem as Callunas (vulgaris)”, diz Filipa Serra, chamando a atenção para o tom rosa-liláceo das urzes.

 

Urze Fotografia: Sara Saraiva

Urze Fotografia: Sara Saraiva

 

Distribuem-se baldes pretos de plástico, uns de 15 e outros de 30 litros, e a equipa dispersa-se para cada um se dedicar sozinho à recolha das sementes de aroeira (Pistacia lentiscus). “Recolhe-se apenas cerca de 20 por cento das sementes de cada exemplar”, explica Diogo. João Paulo certifica-se que são as bagas mais maduras que interessam para reproduzir no viveiro. O conhecimento da época de maturação das diferentes espécies “é crucial para o trabalho de campo” e tão importante como complementar à propagação no viveiro.

As sementes recolhidas hoje virão um dia a ser plantas que irão ajudar a criar corredores ecológicos nos terrenos da Companhia das Lezírias, no âmbito do projeto de recuperação ambiental – “Diversidade e abundância de mamíferos como resposta ao multi-uso e às práticas de Gestão”, financiado pelo Programa Operacional Regional do Alentejo (INAlentejo/QREN). A parceria com o viveiro, através de um acordo de fornecimento de plantas, tem três anos de existência e partilha o interesse na utilização de espécies do local, produção ainda pouco comum em Portugal.

Após meia hora da recolha da primeira espécie, a equipa reúne-se e transfere as sementes de cada balde para um único que é guardado no jipe e parte à procura de outros potenciais locais.

 

Na recolha de sementes de trovisco Fotografia: Sara Saraiva

Na recolha de sementes de trovisco Fotografia: Sara Saraiva

 

O caminho faz-se por pastagens onde, ao longe, um bando de carraceiros anuncia a presença de gado e por um trilho apertado, lado a lado com uma linha de água.

Na paisagem sobressai o vermelho intenso dos frutos do pilriteiro. “Paramos aqui”, diz David sugerindo a recolha das sementes deste arbusto da família das roseiras, com interesse também para produção.

Seguem-se outras paragens durante a manhã, umas com sucesso para o amieiro e catapereiro e outras falhadas, confirmando-se no terreno o fim da época de recolha para o freixo e madressilvas. Já a murta parece ainda não estar pronta. Segundo João Paulo, é relevante registar esta informação porque é através da experiência de campo que aumentam o conhecimento e afinam a produção em viveiro.

O último esforço do dia é para o trovisco, uma planta com frutos cor-de-laranja muito vivos e que é tóxica, apesar do seu aspecto frágil. Os troviscos estão dispersos num pinhal onde coelhos-bravos escavam as suas tocas para refúgio. Lá bem alto ouvem-se aves de rapina, em constante busca de alimento.

De volta ao viveiro

João Paulo, David e Filipa chegam ao viveiro pelo amanhecer. Está uma manhã incerta, húmida e ainda escura, mas já se ouve o despertar dos pássaros. Um pisco-de-peito-ruivo soa entre as árvores da Tapada do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.

Na casa de arrumos, a luz está acesa e vários tabuleiros, com sementes a secar, estão dispostos por espécie. São as sementes que foram apanhadas na visita às Lezírias e que esperam, para breve, sementeira.

 

Pilriteiro Fotografia: Sara Saraiva

Pilriteiro Fotografia: Sara Saraiva

 

A equipa troca de roupa e apanha o material: luvas, tesouras-de-poda e carrinhos-de-mão.

“Estamos a preparar a nova época”, explica João Paulo. “Primeiro as espécies costeiras”, indica, enquanto se prepara para mondar as cuvetes de estorno (Ammophila arenaria), planta que aparece em quase todas as praias com dunas da costa portuguesa. Puxa as ervas que crescem nos alvéolos de cada planta de estorno. “Estas foram semeadas em Maio”, diz. Hoje têm cerca de um metro de altura.

No talhão ao lado, varre-se a tela de chão para serem colocadas cuvetes e vasos de Santolina impressa, associada às dunas mas apenas da região do Sado. “Vamos selecionar os exemplares saudáveis e eliminar os doentes ou mortos”, explica David. “Escolhem-se as mais vigorosas, com melhor aspeto e as que cresceram pouco são eliminadas”, suprimindo deste modo potenciais doenças e perigo de contaminação para as outras plantas. Uma salamandra-de-pintas-amarelas está entre as cuvetes sem se incomodar com a agitação.

São quase nove horas e já se ouve o barulho da cidade de onde se alcança o Tejo e a ponte 25 de Abril. Diogo junta-se à equipa e acompanha Filipa que se dedica às palmeiras-anãs (Chamaerops humilis), a única espécie de palmeira nativa da Europa.

 

Palmeira anã Fotografia: Sara Saraiva

Palmeira anã Fotografia: Sara Saraiva

 

Estas pequenas palmeiras, já com dois anos nos vasos, “têm sofrido alguns surtos principalmente fungos”, diz Diogo que assumiu no viveiro a prevenção e o estudo das fitopatologias. “As doenças são inúmeras e havia algum desconhecimento acerca delas no viveiro.”

Dois periquitos-de-colar atravessam o talhão e entram numa das casas de sombra do viveiro que permite acolher as plantas nos estádios iniciais de crescimento.

Com capacidade de produção para 128 espécies diferentes, quatro casas de sombra, três talhões exteriores e uma estufa de vidro, a SIGMETUM nasceu em 2006, em modo experimental, graças a uma ideia há muito concebida por Filipe Soares, arquiteto paisagista e dono da empresa. “Produzir plantas autóctones e colocá-las no local certo” é a intenção deste projeto que parte de um conceito teórico sobre a vegetação potencial de um determinado local, aliado à possibilidade de aplicação prática da vegetação em projetos de jardim e de recuperação de zonas naturais. “A afirmação da empresa no mercado é difícil”, apercebe-se Filipe, reconhecendo que pode demorar algum tempo e que é necessário “provar capacidade” e identidade.

No viveiro ecoam com maior frequência estorninhos-pretos. Está na hora de arrumar. João Paulo, David e Filipa preparam o material das sementeiras que será a tarefa do dia seguinte, enquanto Diogo se demora a trabalhar. Vai pulverizar um antifúngico nas plantas no exterior e deve fazê-lo quando todos forem embora. Amanhã regressarão, logo cedo, pela manhã.

Agora é a sua vez.

Em caso de estar interessado em plantar espécies autóctones na sua varanda ou jardim, o viveiro da SIGMETUM está aberto ao público todas as quartas-feiras, das 10h30 às 16h00. Pode ver aqui quais as espécies que estão disponíveis para venda até Março.

E se quiser saber mais sobre as plantas autóctones de Portugal, o site Flora-on é um óptimo sítio para começar. Aqui pode descobrir quais as espécies que estão em flor no momento, que espécies tem no sítio onde mora e ainda identificar e explorar por região as plantas selvagens, desde arbustos, a gramíneas ou herbáceas.