Foto: Pedro A. Pina

À procura de lixo marinho e de outras surpresas no Tejo

Naturalistas

A Wilder embarcou num semi-rígido numa acção com professores, o Oceanário de Lisboa e a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental, e foi saber por onde andam o lixo marinho e os plásticos no rio Tejo e nos oceanos.  

 

“Nunca vi nada assim”. Hilda Pablo observa a rede que tinha sido lançada ao Tejo cerca de 20 minutos antes, à procura de lixo na água do rio, e olha com surpresa para o seu conteúdo.

À volta desta oceanógrafa, os olhos de uma dezena de professores também encaram com interrogação o que parecem ser muitas dezenas de pequenas esferas transparentes agarradas à rede – conhecida por rede de plâncton – e que mais tarde vão ser transferidas para um recipiente devidamente identificado, juntamente com a água recolhida.

Hilda está a dar a primeira parte de um workshop sobre lixo marinho e plásticos no mar, que leva os professores para fora da sala de aula e os incentiva a porem as mãos na massa – neste caso, a andarem de barco pelo rio. Mais tarde, vão vestir a pele de alunos e aprender novos jogos e matérias numa sala de aula.

 

A rede de plâncton, acabada de ser recolhida. Foto: Wilder

 

Dirigida principalmente a professores e educadores, mas aberta também a estudantes universitários e a outros interessados, a actividade “Plasticologia Marinha” resulta de uma parceria entre a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), à qual Hilda pertence, e o Oceanário de Lisboa.

A aula começa assim a bordo de um semi-rígido. Colete salva-vidas vestido, rio adentro, os professores armam-se de papéis e caneta e tornam-se alunos durante umas horas.

 

Foto: Pedro A. Pina

 

O objectivo desta saída é “fazer uma pequena aproximação de uma campanha de plásticos no estuário”, onde água doce e água salgada criam diferentes densidades e transformam a área onde o Tejo desagua num pequeno laboratório a céu aberto.

Dentro do barco, todos se esforçam a olhar o rio à procura de lixo, tarefa dificultada pela cor cinza da água em dia de pouco sol. Espreitam algas e pauzinhos, nada de lixo, mas Hilda não se espanta. Afinal, “70% do plástico no mar cai para o fundo”, pois não flutua por ter mais densidade do que a água, explica. De todo o lixo marinho nos oceanos, “apenas 15% permanece na coluna de água”, mais perto da superfície.

Com muita dificuldade, poderíamos encontrar também micro-plásticos. Ou seja, pedaços de plástico com menos de meio centímetro, quase sempre resultado da decomposição dos plásticos em materiais cada vez mais pequenos e irreconhecíveis.

 

A água recolhida do Tejo é transferida para um recipiente devidamente identificado. Foto: Pedro A. Pina

 

Enquanto todos vasculham a água com o olhar, a oceanógrafa explica que o destino do lixo nos mares é dificílimo de prever. Sabe-se que 80% destes materiais chegam ao oceano vindos dos rios.

Mas ali chegados, onde vão parar? Uma boa parte do caminho que seguem é ditado pelas correntes, que dependem de muitos factores: marés, diferença de densidades entre massas de água – “no oceano há muitas massas de água, cada uma com a sua temperatura e salinidade” -, fluxos provocados pelos rios, o próprio vento, e muitos outros.

Depois de testado um CDT, sonda que ajuda a perceber as densidades na água do rio, um olhar mais atento às minúsculas esferas transparentes recolhidas há momentos revela que algumas se mexem dentro da água.

Afinal, não se trata de lixo marinho mas sim de minúsculas medusas ainda sem tentáculos, que aproveitaram a protecção do estuário do Tejo para crescerem nesta espécie de berçário. Desta vez ninguém encontrou lixo, mas está provado que por ali surgem por vezes outras surpresas.

 

As mini-medusas sob observação, durante a viagem. Foto: Wilder

 

Mais tarde, admitem os biólogos da equipa da EMEPC, estas medusas irão alimentar peixes e outros animais que andam também nas mesmas águas. [Como a tartaruga encontrada fora de água já depois do regresso da embarcação a terra, num canto da marina, e que foi ajudada a voltar à água por responsáveis do ‘workshop’ e por professores.]

Dissipado o espanto e sem explicação para este fenómeno, a aula sobre lixo e plásticos marinhos vai continuar durante a tarde, já fora da água, numa sala de aulas do Oceanário de Lisboa.

Ali, os professores sentam-se em grupos, à volta de mesas, transformam-se em alunos para identificar o que é afinal o lixo, os diferentes tipos de plástico, aprender o que pode ou não ser reciclado.

 

Foto: Pedro A. Pina

 

Ouvem também a história contada por Teresa Pina, bióloga marinha no Oceanário, que ali mostra o lixo que os filhos encontraram num dia de praia, na Costa Vicentina, numa areia que “aparentava estar limpa” – mas afinal, passava-se o contrário.

“Não trouxemos para casa as beatas todas que estavam ali à volta do chapéu-de-sol, mas havia de tudo: cotonetes, um tampão, balões, peças usadas por pescadores, anilhas de garrafas de plástico, um pedaço de esfregão, muitos micro-plásticos e até um cartucho de um velho tinteiro da HP.”

Atentos, enquanto escutam e fazem trabalhos de grupo, os professores – muitos da área de Biologia e Geografia – preparam-se para mais tarde passar este conhecimento aos seus alunos, noutras salas de aula. Para tentar que os mares fiquem mais limpos e não se repitam experiências como a de Teresa, em novas idas à praia.

 

Foto: Pedro A. Pina

 

Saiba mais.

Para mais informações sobre o workshop, pode ler aqui e aqui.

A parte do workshop dada durante a manhã, pela EMEPC, é também conhecida por “PokePlásticos – Vamos apanhá-los todos!”.