Foto: Wilder

Associações pedem reabilitação de rios para a vida selvagem

Conservação

Remover açudes obsoletos poderá ser o primeiro passo para reabilitar os rios e ajudar peixes como o saramugo, a lampreia, o sável e a savelha, defendem as associações Zero e FAPAS, no Dia Internacional de Acção pelos Rios.

 

Muitos são os rios em Portugal que não correm livremente, travados por dezenas de barragens e açudes, muitos deles já sem funcionar. Para a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável e Fapas – Fundo para a Protecção da Vida Selvagem, este é um dos maiores problemas dos rios, seguido de outros como a poluição, destruição de galerias ribeirinhas, drenagem e extracção de água em período de seca e espécies exóticas como o lagostim-vermelho-do-Louisiana ou o jacinto-de-água.

No dia em que se comemora o Dia Internacional de Acção pelos Rios, a 14 de Março, estas duas associações pedem a remoção dos açudes obsoletos, uma vez que estes alteram os habitats, fragmentam os cursos de água, impedem a migração de peixes e o fluxo de sedimentos em direcção ao litoral e criam condições para a proliferação das exóticas invasoras.

Para começar, as duas associações propõem a intervenção em três rios “pejados de obstáculos à livre circulação das espécies”: o rio Alfusqueiro (que desagua no rio Águeda) – com 10 açudes num troço de 14 quilómetros, com sete a impedir a passagem de peixes -, a ribeira do Vascão (afluente do rio Guadiana) – com 32 obstáculos, mais de metade dos quais com impacte nas populações de saramugo -, e o rio Nabão (afluente do rio Zêzere), com 16 açudes e “mais de uma dezena poderia ser removida de imediato”.

Tanto a Zero como o Fapas consideram “fundamental apostar na renaturalização dos rios” e “num Cadastro Nacional de Continuidade Fluvial”, com o objectivo de se delinear uma estratégia nacional de reabilitação fluvial. Tudo porque, dizem, os rios são muito mais que “meros sistemas hidráulicos que escoam a água” e prestam “serviços de valor incalculável”.

As associações lembram que já há “experiências relevantes que nos podem indicar o caminho a seguir”, nomeadamente o projecto Reabilitação dos Habitats de Peixes Diádromos da Bacia Hidrográfica do Mondego, da Universidade de Évora, com apoio técnico-científico do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Este projecto criou em cinco açudes passagens para peixes como a lampreia-marinha, o sável e a savelha, “aumentando o seu habitat em mais de 50 quilómetros de extensão”.

Os responsáveis explicam, no site do projecto, que o objectivo foi permitir “a livre circulação piscícola entre as áreas de reprodução e alimentação”. A reabilitação de um troço do rio Mondego – considerado crucial para espécies como o sável, a lampreia-marinha e a enguia-europeia – passa pela construção de uma passagem para peixes no Açude-Ponte de Coimbra, por cinco passagens para peixes, pela remoção de um açude e pela construção da primeira passagem para peixes exclusivamente dedicada à enguia-europeia no país, no Açude-Ponte de Coimbra.

“Os resultados obtidos até ao momento são muito positivos e têm sido considerados um modelo de restauro que pode ser implementado nos rios portugueses para recuperar habitat considerado muito importante”, acrescentam.