Em 40 anos, o lagostim-vermelho-da-louisiana entrou em Portugal e espalhou-se por todo o país. É uma das espécies exóticas invasoras mais perigosas. Com o aumento das temperaturas vai mudar a sua alimentação, diz um novo estudo de investigadores portugueses e suecos. E isso não é necessariamente bom.

 

A erradicação do lagostim-vermelho-da-louisiana (Procambarus clarkii) é praticamente impossível. Esta espécie, que entrou em Portugal em 1979, está espalhada por, pelo menos, 11 bacias hidrográficas de Norte a Sul: Douro, Leça, Vouga, Mondego, Lis, ribeiras do Oeste, Tejo, Sado, Mira, ribeiras do Algarve e Guadiana.

É um predador voraz de anfíbios – como a salamandra-de-costelas-salientes (Pleurodeles waltl) e a rela (Hyla arborea) -, insectos e plantas e é temido pelos orizicultores, que vêem as galerias escavadas pelos lagostins secar os seus campos de arroz. Estas são apenas algumas das razões pelas quais esta espécie nativa da América do Norte é uma “espécie com risco ecológico conhecido” no Decreto-lei nº 565/99, de 21 de Dezembro de 1999, que regula a introdução e detenção de as espécies não indígenas invasoras.

 

Lagostim-vermelho-da-Louisiana macho em dispersão terrestre, Serra de Grândola

Lagostim-vermelho-da-Louisiana macho em dispersão terrestre, Serra de Grândola. Foto: André Santos

 

Com as ondas de calor, o lagostim-vermelho-da-louisiana está a mudar de alimentação, consumindo mais plantas em vez de anfíbios e insectos. Esta é uma das conclusões do um artigo publicado ontem na revista científica PLoS ONE. 

Bruno Carreira, o primeiro autor do estudo, é investigador do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (Universidade de Lisboa) e estuda há vários anos o impacto das alterações climáticas na vida selvagem dos charcos temporários de Portugal. Desta vez “quisemos estudar o impacto das ondas de calor da Primavera no lagostim-vermelho. Utilizámos temperaturas que variam entre os 17ºC e os 25ºC e que têm uma duração de duas semanas”, explicou hoje à Wilder o investigador, sobre o que foi feito em laboratório.

“Trabalhámos com lagostins juvenis e adultos, ambos com preferências alimentares diferentes”, acrescentou. Os primeiros são muito mais carnívoros, predando girinos, pequenos peixes e insectos aquáticos; os adultos consomem preferencialmente mais vegetação e detritos nas águas dos charcos.

Perante uma onda de calor, “as maiores alterações que constatámos aconteceram nos juvenis, com um aumento da herbivoria em 20 a 30%, o que é muito significativo”, disse Bruno Carreira.

O estudo concluiu que o lagostim-vermelho-do-louisiana poderá perder importância como predador para espécies de vertebrados e invertebrados mas vai tornar-se um predador mais frequente de vegetação aquática e das plantas do arroz, por exemplo. “O que vai acontecer é uma substituição de impactos.”

Nos charcos temporários mediterrânicos, habitats de importância ecológica reconhecida a nível europeu, os lagostins vão predar a vegetação da qual dependem muitos animais, que a utilizam como refúgio ou como locais para fazer a postura dos ovos. Além disso, é essa vegetação que mantém a boa qualidade da água; sem ela, os charcos tornam-se turvos e lamacentos. E com menos espécies.

Nos arrozais, os impactos vão aumentar. “Não há um proprietário que goste dos lagostins”, disse Bruno Carreira. Agora, vão passar a gostar ainda menos. Com as ondas de calor, os lagostins vão alimentar-se mais das plantas do arroz, especialmente na fase de crescimento das plantas que coincide com um dos picos da reprodução dos lagostins, no início da Primavera.

“Praticamente todos os arrozais do país têm populações estabelecidas de lagostim-vermelho-da-Louisiana, onde a época de crescimento dos lagostins juvenis coincide com a época de crescimento das plantas de arroz”, salientou, em comunicado, Rui Rebelo, coordenador do projeto, investigador no cE3c e docente na FCUL. “Uma maior tendência para a herbivoria por parte destes juvenis pode aumentar o consumo da planta de arroz e os impactos económicos deste lagostim.”

Esta investigação faz parte de um estudo maior para saber como o calor afecta os diferentes animais dos charcos temporários mediterrânicos. Em Novembro do ano passado, Bruno Carreira já tinha publicado um artigo sobre o impacto nos girinos de três espécies, em conjunto com investigadores do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia e com o Departamento de Ecologia Animal da Universidade de Uppsala (Suécia).

Para o futuro, estes investigadores vão determinar se a maior assimilação da dieta vegetal a temperaturas mais elevadas se deve ao facto de os organismos alterarem directamente as suas preferências alimentares, ou se este é um efeito passivo da temperatura que afecta a digestão e assimilação de nutrientes.

 

Agora é a sua vez.

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