Foto: Joana Bourgard/Wilder

Estudo diz que biodiversidade local é maior dentro de áreas protegidas

Ciência

A biodiversidade é maior e mais variada dentro da rede mundial de áreas protegidas, concluiu um estudo que analisou 359 locais e milhares de espécies de plantas e animais. Ainda assim, alertam os autores, nem sempre estas áreas são eficazes na salvaguarda do mundo natural.

 

Actualmente existem áreas protegidas em todos os países do mundo. Cobrem 15.4% da superfície terrestre. Até 2020, as partes da Convenção para a Biodiversidade Biológica comprometeram-se a aumentar esta percentagem para, pelo menos, 17%. Mas será que são eficazes?

Uma equipa de 10 cientistas – coordenados pelo Museu de História Natural de Londres, pela Universidade de Sussex e pelo Centro de Monitorização Mundial da Conservação no Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) – procurou responder à questão. Para isso usou dados de 156 estudos científicos – que incluem 13.669 espécies de vertebrados, invertebrados e plantas – e usou uma nova base de dados da biodiversidade global, chamada PREDICTS (Projecting Responses of Ecological Diversity in Changing Terrestrial Systems). Esta base de dados, coordenada pelo Museu londrino, tem dados sobre a presença ou abundância de mais de 50.000 espécies, recolhidos em 31.000 locais em 97 países.

Para este estudo, os investigadores usaram amostras de biodiversidade desta base de dados, recolhidas em 1.939 sítios dentro de 359 áreas protegidas e em 4.592 sítios fora delas. “Apesar disto representar uma pequena fracção da rede mundial de áreas protegidas (0,18%), é substancialmente maior do que as análises anteriores”, escrevem os autores no estudo.

Os resultados, publicados a 28 de Julho na revista Nature Communications, concluem que há mais 14,5% de indivíduos e mais 10,6% de espécies nas áreas protegidas do que em áreas sem protecção. Os impactos positivos na biodiversidade são claros mesmo quando as áreas protegidas incluem solos agrícolas, pastagens e plantações. Mas o efeito protector é maior quando as actividades humanas são minimizadas.

Apesar dos benefícios, as áreas protegidas têm pouco efeito na conservação de endemismos e não aumentam a variedade de nichos ecológicos disponíveis.

A equipa extrapolou os seus resultados para a escala mundial e estimou que, em média, a rede global de áreas protegidas é 41% eficaz em reter a riqueza de espécies e 54% em reter a abundância local.

“Os nossos resultados reforçam os apelos para um maior apoio e reconhecimento da importância das áreas protegidas no mundo, mas salientam que a rede não é eficaz para todas as medidas de biodiversidade local”, escrevem os autores no estudo.

Samantha Hill, investigadora do Museu de História Natural de Londres e co-autora do estudo, comentou, em comunicado, que este é “o maior estudo a mostrar que as espécies sobrevivem melhor em zonas protegidas dos impactos humanos”. Claudia Gray, da Universidade de Sussex e co-autora do estudo, salientou que, “até agora, os estudos sobre áreas protegidas têm usado, maioritariamente, informação de fotografias de satélite para estudar alterações na cobertura florestal. Em vez disso, usámos uma nova base de dados que reúne informação recolhida no terreno por cientistas.” A base de dados, que levou quatro anos a fazer, permitiu “saber de que forma a protecção afecta milhares de espécies, incluindo plantas, mamíferos, aves, insectos, répteis e anfíbios”.

Segundo Samantha Hill “este trabalho é vital numa altura em que o crescimento da população humana está a fazer cada vez mais pressão no solo disponível”.

Os autores do estudo esperam que este possa ajudar os Governos do mundo a compreender melhor o significado de proteger a natureza. “Actualmente, as áreas protegidas não beneficiam todas as espécies”, disse Jorn Scharlemann, da Universidade de Sussex e um dos autores do estudo. “Mas mostrámos que elas têm o potencial para nos ajudar a conservar algumas das áreas com maior biodiversidade da Terra.”