Fotografia: Joana Bourgard

EUA lançam estratégia para ajudar abelhas e borboletas-monarca

Natureza

A Casa Branca vai lançar uma mega-estratégia federal para recuperar as populações de abelhas, borboletas-monarca e de outros polinizadores, considerados “vitais para a economia, a segurança alimentar e a saúde ambiental do país”, avança um documento ontem divulgado.

A “Estratégia Nacional para Promover a Saúde das Abelhas e de Outros Polinizadores” teve origem num grupo de trabalho criado pelo Presidente Barack Obama em Junho passado, a Pollinator Health Task Force (grupo de trabalho para a saúde dos polinizadores), co-presidido pelo Secretário para a Agricultura e pela Agência de Protecção Ambiental.

O novo plano pretende ajudar principalmente as abelhas do mel (Apis melifera) e outras abelhas ligadas à apicultura, e ainda as borboletas-monarca (Danaus plexippus), mas também se preocupa com outros insectos polinizadores, tal como aves e morcegos.

Uma das principais medidas é aumento e melhoria das terras ocupadas por plantas silvestres essenciais para os polinizadores, para um total de 2,8 milhões de hectares até 2020.

Dentro desta medida, conta o New York Times, prevê-se a criação de uma mancha contínua de jardins – uma espécie de ‘buffet’ de plantas silvestres’ – ao longo da Interestadual 35 (I-35). Com 2.523 quilómetros, a I-35 vai do Minnesota até à fronteira com o México, no Texas.

Encorajar as empresas, os organismos públicos e as escolas a plantarem espécies silvestres nos seus terrenos, em vez de relva, e o reforço da educação escolar sobre a importância das espécies polinizadoras, são outras das medidas da estratégia. Está previsto também um ligeiro aumento das verbas para investigação científica nesta área.

“Prevenir as perdas contínuas dos polinizadores no nosso país requer atenção nacional imediata, uma vez que os polinizadores desempenham um papel crítico na manutenção de diversos ecossistemas e suportam a produção agrícola”, sublinha o documento ontem divulgado.

As abelhas do mel foram introduzidas nos Estados Unidos pelos primeiros colonos, no início do século XVII. Hoje em dia, cerca de 2000 a 3000 empresários apicultores viajam através do país, juntamente com as suas colmeias transportadas em camiões, para cumprirem contractos de venda dos serviços destes insectos aos produtores agrícolas.

Estas abelhas “arrendadas” são utilizadas em grandes produções de maçãs, mirtilos, cerejas, curgetes, e especialmente de amêndoas. O grupo de trabalho destaca, aliás, que “a polinização feita pelas abelhas acrescenta mais de 15 mil milhões de dólares em valor às colheitas agrícolas, todos os anos”.

No entanto, a dificuldade para responder a todas as necessidades e as perdas de insectos têm vindo a aumentar. Calcula-se que em 1940 existiam cerca de 5,7 milhões de colónias de abelhas nos Estados Unidos, mas hoje esse número desceu para cerca de 2,74 milhões.

Os problemas maiores começaram em 1987, com a introdução no país de uma traça parasita que se alimenta da hemolinfa (sangue) das abelhas, a Varroa destructor, e depois em 2006 com os primeiros casos registados de desordem do colapso das colónias (Colony Collapse Disorder ou CCD, em inglês). Neste misterioso fenómeno, um número elevado de abelhas adultas desaparece repentinamente da colmeia, e as que restam são insuficientes para assegurar a segurança e saúde do grupo. Esta desordem termina quase sempre na morte das abelhas que ficaram.

Ainda não se conhecem muito bem as causas destes súbitos desaparecimentos, que afectam as abelhas em muitos outros países, incluindo Portugal. Suspeita-se de que estão em causa vários factores de stress, incluindo os pesticidas utilizados nas colheitas, as viagens constantes das colmeias transportadas pelos apicultores e a falta de alimentação de qualidade.

Nos últimos quatro anos, até houve uma redução destes casos de CCD, mas muitas abelhas continuam a morrer desta forma, e também afectadas pelos pesticidas, pela Varroa destructor e outros problemas ambientais.

As estimativas feitas pelo Ministério da Agricultura norte-americano, a partir de um inquérito anual, apontam que nos últimos 12 meses terminados em Abril, os apicultores perderam mais de 42% das suas colónias de abelhas, especialmente no Inverno.

O Le Monde lembra que estes foram os segundos piores resultados desde que há registo, só ultrapassados pelo desaparecimento de 45% das colónias de abelhas relativo a 2012-2013.

Mas as preocupações estendem-se a outros polinizadores, como as borboletas monarca. Nos últimos 20 anos, os investigadores calculam que se perderam cerca de 90% destas populações, que todos os anos migram através da América do Norte, entre o Canadá e o México, ou entre as Montanhas Rochosas e a Califórnia.

As medidas ontem anunciadas foram bem recebidas, mas várias organizações ambientalistas lamentam que o plano não vá mais longe, em especial no que toca aos pesticidas. Com efeito, neste aspecto os autores da estratégia mostram-se cautelosos: “Os pesticidas têm um papel importante na produção agrícola e na saúde da nossa sociedade. Atenuar os efeitos sobre as abelhas é uma prioridade do governo federal”, afirmam.

A Agência de Protecção Ambiental decretou, em Abril, uma moratória relativa à utilização de neocotinóides, um tipo de pesticidas que se suspeita estarem a matar as abelhas, até à avaliação completa dos riscos associados, lembra o jornal francês.

Na União Europeia, actualmente está proibido o recurso a três grandes classes de pesticidas neocotinóides.