Fósseis de sementes de angiospérmicas (plantas com flor) descobertos em Portugal e nos Estados Unidos, “excepcionalmente bem preservados”, foram analisados por um grupo internacional de cientistas e permitiram novas descobertas sobre as primeiras plantas com flor que surgiram na Terra.

 

As conclusões deste novo estudo foram publicadas na última semana, na revista científica “Nature”, por um grupo de investigadores liderados por cientistas do Museu Sueco de História Natural – entre os quais Else Marie Friis, uma das grandes especialistas mundiais em angiospérmicas que, desde há muitos anos, tem vindo a estudar fósseis de plantas recolhidos em Portugal.

O grupo analisou 250 fósseis de sementes de angiospérmicas, datados do Cretácico Inferior, num período que se estende entre 130 e 100 milhões de anos atrás. Estas sementes tinham sido isoladas de sedimentos recolhidos no Leste da América do Norte e também em várias localidades portuguesas próximas do Litoral, nomeadamente Arazede, Buarcos, Catefica, Famalicão, Torres Vedras e Vila Verde, entre outras.

“Os mesofósseis preservados nesta flora estão muitas vezes excepcionalmente preservados em três dimensões”, descreveram os investigadores, acrescentando que esses vestígios incluem “flores completas ou fragmentadas, tal como frutos e sementes abundantes”.

A análise dos 250 fósseis fez-se com recurso a uma técnica científica de tomografia microscópica que envolve aceleração de partículas e raios-x, classificada como “inovadora”, e que permitiu aos cientistas analisarem os embriões ainda presentes em cerca de 50 sementes, tal como os tecidos em volta, onde estavam armazenados os nutrientes.

Ao examinarem atentamente as sementes e os embriões descobertos em Portugal e nos Estados Unidos, os investigadores confirmaram, por exemplo, a pequena dimensão que tinham as sementes de plantas com flor quando começaram a colonizar a superfície terrestre.

 

angiospérmicas estudo II

Semente de 1 mm de largura. Imagem produzida com tomografia de raios-X por Else Marie Friis

 

Em todas as sementes estudadas, nenhuma tinha mais de 2,5 milímetros de dimensão e as mais pequenas não passavam de 0,5 milímetros. No seu interior, os embriões encontrados eram também eles “minúsculos” e nenhum estava completamente desenvolvido, o que teria sido necessário para assegurar que essas plantas germinassem.

Ou seja, os fósseis “foram preservados durante uma fase dormente do seu desenvolvimento”, adianta a equipa. Os autores do estudo concluíram que “a dormência das sementes, associada com os fósseis de embriões minúsculos, assegurava que as sementes das primeiras angiospérmicas podiam sobreviver até que as condições de germinação e de estabelecimento das plântulas fossem favoráveis”.

Os cientistas acreditam que muitas destas plantas eram “oportunistas”, pois seriam as primeiras “a colonizar com sucesso” habitats onde as condições eram difíceis.

No entanto, o facto de serem muito pequenas e de armazenarem poucos nutrientes limitava também a sua capacidade de germinarem com rapidez, em especial quando houvesse pouca humidade. Ou seja, sublinham ainda, estas primeiras plantas com flor teriam sido incapazes de competir com as angiospérmicas que surgiram mais tarde na superfície terrestre, que provaram ser mais eficientes “na exploração de condições ecológicas efémeras”.