Garça-branca-pequena no estuário do Tejo. Foto: Helena Geraldes

Garças estão a trocar Alentejo e Algarve por territórios mais a Norte

Natureza

A maioria das espécies de garças que se reproduzem em Portugal estão a abandonar as zonas húmidas no Alentejo e no Algarve e a deslocar as suas áreas de nidificação mais para Norte, conclui um projecto de monitorização às aves aquáticas coloniais cujos resultados foram divulgados na feira da Observanatura, no início de Outubro.

 

Entre Março e Agosto de 2013 e de 2014, equipas de técnicos e vigilantes de natureza do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e voluntários percorreram o país, de Norte a Sul, para saber qual a abundância e distribuição destas aves. Os dados dizem respeito ao abetouro, goraz, papa-ratos, garça-boieira, garça-branca-pequena, garça-real, garça-vermelha, colhereiro e íbis-preto. A estas, juntaram-se ainda dados recolhidos sobre o corvo-marinho-de-faces-brancas, que só há três anos se estabeleceu como nidificante em Portugal.

 

Juvenis de garça vermelha. Foto: Vítor Encarnação

 

Uma das conclusões do estudo – coordenado pelo Centro de Estudos de Migração e Protecção de Aves (CEMPA), organismo tutelado pelo ICNF – é que as aves estão a deslocar-se para Norte, empurradas pelas mudanças de clima, pela pesca desportiva e pela aposta em culturas intensivas.

O último censo relativo às mesmas espécies tinha sido realizado há mais de 10 anos, entre 2000 e 2004, e concluía que a maior parte dos casais escolhiam as zonas húmidas a Sul do Tejo para se reproduzirem, como é o caso das bacias hidrográficas do Sado e do Guadiana e das ribeiras alentejanas.

Agora, os dados recolhidos em 2013 e 2014 indicam que espécies como o goraz, a garça-real, a garça-vermelha e o colhereiro estão a deslocar os territórios onde fazem os seus ninhos mais para Norte, para as bacias hidrográficas do Tejo, do Mondego e do Vouga.

A perda dos recursos alimentares pode estar na origem da mudança, aponta o relatório do projecto de monitorização. O documento explica a situação com o “acentuar do regime torrencial das ribeiras no Alentejo e a introdução de espécies piscícolas exóticas de maiores dimensões, para a pesca desportiva em açudes e barragens”.

As espécies exóticas alimentam-se dos peixes nativos que são mais pequenos, como o saramugo, levando à diminuição do alimento disponível. “Esta aparenta ser uma das grandes razões para o desaparecimento de muitas colónias de garças no Alentejo, nomeadamente garça-cinzenta, garça-vermelha e garça-branca-pequena.”

 

Garça-boieira, em repouso. Foto: © Hans Hillewaert (Wikimedia Commons)

Garça-boieira, em repouso. Foto: © Hans Hillewaert (Wikimedia Commons)

 

A perda de alimento parece estar a afectar também a garça-boieira, a garça mais comum em Portugal. Esta espécie tem vindo a dispersar-se em colónias mais pequenas e teve uma “redução significativa de efectivos relativamente ao último censo de 2000”. Nessa altura, estimavam-se entre 28.410 e 31.460 o número de casais reprodutores; a estimativa actual é de 22.000 a 23.000 casais.

A garça-boieira estará também a ser afectada pela mudança da paisagem agrícola a Sul do Tejo, indica o relatório. Por exemplo, na bacia hidrográfica do Sado e ribeiras do Alentejo, “a recente instalação de grandes áreas de culturas monoespecíficas e intensivas como o olival intensivo” levou a uma maior dificuldade para obtenção de alimentos e instalação de colónias. Isto porque “são eliminadas todas as sebes ripícolas, em particular as árvores de maior porte, onde normalmente [estas aves] construíam os ninhos”.

 

Juvenis de garça-vermelha. Foto: Vítor Encarnação

Foto: Vítor Encarnação

 

Tal como a garça-boieira, neste último censo já se observaram alguns casais reprodutores de garça-branca-pequena na bacia hidrográfica do Mondego, embora a maior parte da população nidificante continue a Sul do Tejo. E também neste caso, o número de casais estimados baixou cerca de um terço, para 1.600 a 1.800 casais entre 2013 e 2014, o que pode estar relacionado com “um aumento significativo da perturbação nas zonas húmidas de onde [estas aves] dependiam para se alimentar”.

 

Mudança beneficiou populações

 

Mas nem todas as espécies de garças perderam população. Aliás, as que se deslocaram mais cedo para Norte parecem ter saído beneficiadas, ao encontrarem o alimento que já não era possível a Sul, aponta o mesmo documento.

Por exemplo, a garça-vermelha, a primeira a iniciar essa movimentação. A maioria dos casais desta espécie reproduzem-se agora a Norte da Bacia do Tejo, nas Bacias do Mondego e do Vouga, “tendo desaparecido como reprodutora praticamente de todo o Sul do país”.

E face ao último censo, estima-se que o número de casais reprodutores mais do que duplicou, passando de 313 a 399 casais reprodutores recenseados entre 2000 e 2004, para 850 a 950 casais entre 2013 e 2014.

Tal como a garça-vermelha, também o goraz e o colhereiro registaram crescimentos significativos da população nidificante, enquanto a garça-real parece ter estabilizado, indicam os dados do projecto coordenado pelo CEMPA.

Os trabalhos de monitorização confirmaram ainda a instalação de colónias reprodutoras de íbis-preto e do corvo-marinho-de-faces-brancas, em Portugal. No primeiro caso, estimam-se entre 500 a 550 casais reprodutores, com tendência de crescimento rápido; no segundo, há três anos começaram a surgir indícios de que estaria a nidificar nas bacias do Tejo e do Guadiana. Este dado foi agora confirmado, com um total de 153 casais registados.