Abate de árvores na Malásia. Foto: William Laurance

Já alterámos gravemente 97% das regiões mais ricas em espécies da Terra

Natureza

A equipa internacional de investigadores que traçou um novo mapa dos impactos da Humanidade no mundo natural terrestre à escala planetária concluiu que 97% dos locais com maior diversidade de espécies do planeta já foram gravemente alterados. O estudo foi publicado na terça-feira na revista Nature Communications.

 

Estradas, casas, campos agrícolas, pastagens, caminhos de ferro e luzes artificiais são apenas alguns exemplos da pegada humana no planeta, analisados neste estudo, que comparou dados de 1993 com os  de 2009. Os biomas mais pressionados incluem as florestas temperadas da Europa Ocidental, zonas Este dos Estados Unidos e China e partes da Índia, Brasil e Sudeste Asiático.

“As regiões mais ricas em espécies no planeta, especialmente as florestas tropicais, são as mais atingidas. No total, cerca de 97% dos territórios mais valiosos para a biodiversidade foram gravemente alterados pelos humanos”, comenta, em comunicado, Bill Laurance, professor na Universidade australiana James Cook que participou no estudo.

Apenas algumas regiões remotas escapam aos danos. Estas concentram-se nos desertos do Saara, de Gobi e australiano e nas florestas tropicais mais remotas das bacias hidrográficas dos rios Amazonas e Congo.

“Os humanos são os consumidores mais vorazes que o planeta Terra alguma vez viu. Com o nosso uso dos solos, com a caça e outras actividades de exploração, estamos agora a afectar directamente três quartos da superfície terrestre do planeta”, acrescenta.

Ainda assim, nem todas as notícias são más. Os investigadores concluíram que o impacto global das actividades humanas no ambiente está a aumentar mais devagar do que o crescimento económico e populacional. Enquanto a população global aumentou 23% e a economia global 153% entre 1993 e 2009, a pegada global humana cresceu apenas 9%. “Ver que os nossos impactos aumentaram a um ritmo mais baixo do que o crescimento económico e populacional é encorajador”, comenta Oscar Venter, da Universidade de Colúmbia Britânica do Norte, em comunicado. “Quer dizer que nos estamos a tornar mais eficientes a usar os recursos naturais.”

Mas esta é uma história complexa e nem tudo acontece da mesma maneira. “De uma forma geral, as nações industrializadas e as com taxas mais baixas de corrupção parecem estar a fazer um trabalho melhor em abrandar a expansão da sua pegada ecológica do que os países mais pobres, com fraca governância. Mas os países ricos têm uma pegada per capita muito maior, por isso, cada pessoa nesses países está a consumir muito mais do que as pessoas nas nações mais pobres”, salienta Bill Laurance.

Os autores do estudo esperam que os mapas ajudem os decisores políticos e investigadores a identificar os locais ainda selvagens e que devem ser protegidos, bem como os locais onde é preciso recuperar os serviços dos ecossistemas.

Na opinião de Oscar Venter, “concentrar pessoas nas cidades para que as necessidades de habitação não se espalhem na paisagem e promover Governos honestos e capazes de gerir os impactos ambientais” são formas de chegar a um desenvolvimento sustentável.

Este estudo surge a poucos dias do arranque do congresso da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN), realizado de quatro em quatro anos. Este ano será realizado de 1 a 10 de Setembro no Havai.