Foto: Wilder/arquivo

Mais de cem homens combatem fogo no Parque Nacional da Peneda-Gerês

Natureza

Um incêndio está em curso há mais de oito horas no Parque Nacional da Peneda-Gerês, área protegida com cerca de 69.500 hectares e que, no ano passado, perdeu 5.698 hectares para o fogo. Ao fim da tarde estavam no terreno 137 operacionais, segundo a Autoridade Nacional para a Protecção Civil (ANPC).

 

O incêndio deflagrou às 01h39 de hoje junto à localidade de Lourido, concelho de Ponte da Barca (Viana do Castelo). Ao longo do dia, os meios de combate às chamas foram sendo reforçados. Ao final da tarde estavam no local 137 operacionais, 42 meios terrestres e um meio aéreo, segundo o site da ANPC.

Segundo Miguel Dantas da Gama, fundador do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens (FAPAS) e profundo conhecedor da Peneda-Gerês, a área que está a arder é uma zona de entrada do Parque Nacional, dominada por pinheiro-bravo e mato. “É uma zona já muito alterada pelo Homem, mais fragilizada, ainda que nem sempre tenha sido assim”, contou esta tarde à Wilder. Mais acima fica a Mata do Cabril, que ardeu em 2010.

No ano passado, o Parque Nacional da Peneda-Gerês foi a área protegida portuguesa com maior extensão de área ardida (com mais de 5.500 hectares) e a maior percentagem de afectação face à área que ocupa (8,2%), de acordo com o último Relatório Provisório de Incêndios Florestais de 2016 (1 de Janeiro a 15 de Outubro).

Na sequência desses fogos foi aprovado em Conselho de Ministros, a 27 de Outubro de 2016, o Plano Piloto da Peneda-Gerês, para recuperar a Mata do Mezio, a Mata do Ramiscal, a Mata Nacional do Gerês e os teixiais.

Miguel Dantas da Gama lembra que “o fogo não começou hoje. Há sempre há focos de incêndio um pouco por todo o lado. Há duas semanas estive no Ramiscal e estavam a fazer queimadas”. A diferença desta vez foi a proporção atingida. “Nestes dias corre um vento de Leste, do interior, muito seco. Além disso, já não chove há algum tempo. Assim, o fogo toma estas proporções. Entra pela floresta adentro.”

Este naturalista, autor de livros como “Árvores do Parque Nacional da Peneda-Gerês” (2010) e “Uma longa caminhada com as águias-reais da Peneda-Gerês” (2013), defende que os matos deviam ser convertidos em floresta e não controlados por fogo controlado. “O fogo controlado não muda nada, só faz com que os matos voltem a crescer com mais força.” Antes, propõe uma estratégia assente em limpezas e abertura de clareiras por corte e mondas para depois ali serem semeadas espécies autóctones, porque “o bosque já não tem tempo para se regenerar sozinho”, tal a frequência dos incêndios.

Mas para que o bosque volte a cobrir os matos é necessário “evitar, a todo o custo, que o fogo queime as plantações”.

“Hoje em dia, os matos vão tomando conta das árvores isoladas na área do parque”, como teixos, azevinhos e medronheiros de porte fora do normal e alguns com 400 e 500 anos de idade.

Por fim, lembra, “faz falta uma visão a longo prazo, a 30, 40 anos”.