Foto: Marguerite Tarzia

No meio de um oceano de baleias, a primeira captura de uma ave

Diário de bordo

Nesta terceira crónica de Paulo Catry, escrita a bordo do navio oceanográfico RSS Discovery, o investigador do MARE-ISPA descreve os encontros surpreendentes que vai tendo com “monstros gentis”, no meio do Atlântico. Catry está embarcado numa expedição científica de 15 investigadores, que durante um mês vai estudar a importância de uma zona específica do Atlântico Norte para aves, baleias, golfinhos e tartarugas. 

 

14 Junho – Uma das coisas mais impressionantes nesta viagem é apercebermo-nos da abundância de grandes baleias no oceano aberto e profundo.

Quando o vento amaina um pouco e se reduzem os “carneirinhos” nas ondas, logo se tornam óbvios os sopros de grandes baleias; por vezes isolados, não raro também em pequenos grupos, seja de mãe e cria, seja de 3 ou 4 animais.

Em geral não as vemos suficientemente bem para permitir uma identificação precisa. A maioria são baleias-comuns (ou rorquais-comuns Baleanoptera physalus) e baleias-sardinheiras (Baleanoptera borealis). É possível que entre elas andem algumas baleias-azuis ou baleias-de-bossa, mas até agora ainda não os detectámos.

 

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Baleias-sardinheiras (Baleanoptera borealis). Foto: Christin Khan / NOAA (NEFSC)

 

Ontem ao final da tarde, parámos para fazer umas observações com aves, e passado um bocado tivemos a sorte de ver um grande cachalote saltando repetidamente, tirando a metade anterior do corpo fora de água, e caindo com um enorme aparato, num gigantesco ‘splash’.

Passado um bocado apareceu um grande grupo de baleias-piloto, com alguns machos dominantes, muitos animais jovens e fêmeas com crias quase recém-nascidas.

Maravilhoso ver a união do grupo. A princípio aproximando-se em formação extremamente cerrada, com os mais jovens no meio, as crias sempre agarradas às mães, e uma natação perfeitamente coordenada.

 

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Baleias-piloto. Foto: Aleuze / Wiki Commons

 

Se é verdade que há espécies, como os cachalotes, que são especializadas em habitats do mar profundo, outras, como as baleias-comuns ou as sardinheiras, tanto podem viver em mares profundos como nas plataformas continentais de várias partes do mundo.

[Mas então, como explicar que na rica plataforma frente à costa portuguesa, praticamente nunca tenhamos oportunidade de ver baleias, que se tornam frequentes mais para o largo?

A verdade é que as baleias já abundaram por aqui, e foram intensamente caçadas, nomeadamente a partir da zona de Peniche e da Ericeira, mas isso aconteceu em tempos remotos, até aos séculos XIII e XIV. E o mesmo se deu por essa Europa fora, exterminando-se completamente populações inteiras, como as das baleias-francas-boreais que já não se encontram por aqui.]

Ao largo, felizmente, podemos comprovar nesta viagem que muitas espécies de baleias são ainda numerosas. Sabemos ainda tão pouco das vidas destes monstros gentis. Mas os registos que vamos fazendo, ao longo do caminho, vão contribuindo para se perceber melhor a sua distribuição e abundância.

E, acima de tudo, cada sopro, cada observação, ainda que furtiva, desperta o sonho e aviva o mistério deste grande Atlântico selvagem.

 

15 Junho – Estamos já dentro da nossa área de estudo, cerca de 800 km a norte do Corvo, a meio caminho entre a Europa e a América do Norte.

Paramos à tarde para fazer as nossas primeiras tentativas de atrair aves para perto do navio, proceder a observações de curta distância, e tentar capturar alguns animais.

 

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Cagarras (Calonectris borealis). Foto: Frank Vincentz

 

Quando o navio se imobiliza, de início não se vê mais do que uma ou outra cagarras que passam distantes.

Retiramos então dos porões e das arcas frigoríficas os iscos que as deverão atrair. Desperdícios de peixe, congelados numa grande bola, são amarrados a uma corda que fica presa ao navio e lançados ao mar. A isto junta-se óleo de peixe, e bocadinhos de carapau, cortados no momento.

A pouco e pouco o odor destes pitéus vai atraindo numerosas aves de várias espécies. Nem uma gaivota, pois claro, pois estamos no mar alto e profundo.

Cagarras (Calonectris borealis), pardelas-de-barrete (Ardenna gravis), e alguns pombaletes (Fulmarus glacialis). Também alguns pequenos painhos-casquilhos (Oceanites oceanicus), vindos da distante Antártida e das ilhas circundantes, para passar o Inverno austral no nosso Verão.

 

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Pardela-de-barrete (Ardenna gravis). Foto: J.J. Harrison / Wiki Commons

 

É impressionante como todas estas aves, que há uma hora não se viam, estão agora agrupadas em torno do navio, atraídas por um sentido de olfacto apuradíssimo, tanto mais notável porquanto o vento violento que se faz sentir tende a fazer dispersar os cheiros.

Durante 2 horas de paciência e jogo de nervos, as aves vão inspecionando o que se passa, mas sem se chegarem muito ao navio. Algumas passam de fugida. Outras mergulham, para apanhar os bocados de carapau que se vão afundando – claro está que debaixo de água não temos modo de as capturar. Mas progressivamente vão ganhando confiança, e uma ou outra acaba por se chegar muito perto.

 

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Pombalete (Fulmarus glacialis). Foto: Avenue / Wiki Commons

 

A técnica de captura consiste em lançar uma rede de tarrafa (rede circular de arremesso, geralmente usada para capturar peixes em águas muito pouco profundas) sobre a ave, e depois puxá-la rapidamente para cima.

Nesta primeira sessão capturámos uma fantástica pardela-de-barrete, ave vinda do Arquipélago de Tristão da Cunha, no Atlântico Sul. Rapidamente procedemos à marcação com uma anilha de código único, à colheita de amostras de sangue e penas, à obtenção de biometrias diversas e ao registo do estado de progressão da muda anual das penas.

 

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Paulo Catry com uma pardela-de-barrete, que depois de cuidadosamente examinada vai ser libertada. Foto: Marguerite Tarzia

 

Como a ave se encontra bastante magra, decidimos não lhe colocar um transmissor satélite, para seguimento dos movimentos. Vamos aguardar por uma pesca mais grossa!

No fim das capturas, um grupo de baleias-piloto (Globicephala melas) vem observar-nos de muito perto. São baleias de 5 a 8 metros de comprimento, pesando uma a duas toneladas. Muito sociáveis, apresentam-se em grupo compacto e de natação coordenada. É maravilhoso ver as fêmeas com crias praticamente recém-nascidas ao lado, enquanto os animais jovens mais crescidos se exibem com pequenos saltos, sob o olhar dos grandes machos.

E a fechar o dia, temos um cachalote que salta repetidamente, meio-corpo fora de água. Que riqueza e abundância, neste cantinho do Atlântico sem nome, perdido e esquecido, mas bem vivo.

 

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Cachalote (Physeter macrocephalus). Foto: Tim Cole / NOAA (NMFS)

 

Leia a crónica em que Paulo Catry conta como estão a ser os primeiros dias da expedição.

Saiba como aconteceu um encontro no meio do Atlântico com duas tartarugas.

Conheça aqui mais sobre a expedição científica internacional do RSS Discovery e quais são os seus objectivos.