Num só dia passaram pelo Monte Barata, onde funciona um campo de alimentação para aves necrófagas, quase três centenas de abutres e de outras espécies. Mas este é um recorde preocupante, avisa Samuel Infante, da Quercus.

 

Situado no Parque Natural do Tejo Internacional, no concelho de Castelo Branco, o campo de alimentação de aves necrófagas do Monte Barata nunca tinha recebido tantos “clientes” em apenas 24 horas. No dia 19 de Outubro, os responsáveis da Quercus que gerem esta infraestrutura contaram um recorde de 270 animais: 48 abutres-pretos, sete milhafres, uma águia real e 214 grifos.

“Nunca tínhamos visto uma concentração tão grande destas aves. Já temos visto muitos bandos grandes, com 40, 50 ou até mesmo 100 indivíduos, até porque no Tejo Internacional temos das mais importantes populações de aves necrófagas, mas nunca tínhamos assistido a algo com esta dimensão”, disse à Wilder Samuel Infante, dirigente do núcleo da Quercus em Castelo Branco.

 

Bando de grifos a alimentarem-se, no Monte Barata

 

As grandes concentrações têm-se mantido nas últimas semanas, em números mais reduzidos, mas este recorde não é para festejar. Significa que há uma grande falta de alimentos disponíveis na natureza, avisa Samuel Infante.

Os campos de alimentação são grandes espaços vedados que têm pelo menos um hectare, certificados pelas autoridades veterinárias.

Ali, de semana a semana ou de 15 em 15 dias, depositam-se carcaças de veados, javalis, coelhos e outros animais, na maioria fornecidas pelas zonas de caça. O contacto com humanos é o mínimo possível e a monitorização faz-se, muitas vezes, com recurso a equipamentos de armadilhagem fotográfica.

A insuficiência de alimentos também afecta o número de crias. Embora a população de grifos se mantenha estável, mais de metade dos 170 casais que nidificam no Tejo Internacional não tiveram sucesso reprodutivo no ano passado. “Foi um dos piores anos de monitorização neste domínio.”

A Quercus aponta o Sirca-Sistema de Recolha de Cadáveres de Animais Mortos na Exploração, e a sua crescente eficácia, como a principal causa para este problema. Criado pelo Estado em 2009 para permitir a despistagem da encefalopatia espongiforme bovina (doença das vacas loucas), o Sirca já faz actualmente a recolha de “cerca de 1000 cadáveres por dia”, em todo o país – entre vacas, ovelhas e outros ruminantes.

Em Portugal, actualmente ocorrem naturalmente três espécies de abutres: grifos, abutres-pretos e abutres-do-Egipto. [Outras espécies, como a águias-imperial e a águia-real, alimentam-se também às vezes de restos de animais mortos.]

 

Abutres-do-Egipto e abutres-pretos

 

As aves necrófagas “têm um papel importantíssimo na natureza, ao nível do controlo sanitário”, nota Samuel Infante. E no entanto, ressalva, continuam a ser ainda hoje vítimas de perseguição directa e de envenenamentos, de linhas eléctricas e da instalação de parques eólicos.

No que respeita à alimentação, é preciso flexibilizar as regras do Sirca nas zonas sem problemas sanitários, como já se faz em Espanha e em França, permitindo a disponibilidade de alimento fora dos campos, defende a Quercus.

Outra medida importante é haver mais campos de alimentação para essas espécies, para que não fiquem dependentes apenas de um ou dois espaços.

A associação ambientalista gere três campos na zona do Tejo Internacional (um destes, o campo do Rosmaninhal, está agora desactivado para requalificação). No Alentejo, também a Liga para a Protecção da Natureza gere uma dezena de infraestruturas deste tipo, no âmbito das medidas de conservação do abutre-preto. O Instituto de Conservação da Natureza e Florestas tem um campo a funcionar na Malcata.

Para breve, prevê-se a publicação da Estratégia Nacional de Conservação das Aves Necrófagas, que esteve até há um mês em consulta pública. “Esperamos que traga melhorias”, conclui Samuel Infante.

 

Agora é a sua vez.

Os abutres são muitas vezes aves incompreendidas e desprezadas pelos humanos, mas têm um papel vital na natureza. Aqui, pode ficar a conhecer a campanha “Saving Nature’s Clean-Up Crew” (em inglês), da Birdlife International, dedicada a proteger os abutres em África, na qual se explica a importância destas espécies.

Se desejar conhecer melhor as três espécies de abutres que ocorrem naturalmente em Portugal, e saber onde as consegue observar, pode consultar a informação do portal Aves de Portugal: grifos, abutre-preto e abutre-do-Egipto.