Os sons que a paisagem portuguesa tem

Natureza

Os cantos dos rouxinóis e de outras aves enchem o ar na Reserva Natural do Paúl do Boquilobo, na confluência entre o rio Almonda e o rio Tejo. Noutro canto do país, em Maçal do Chão, Celorico da Beira, ouvimos os chocalhos de um rebanho que ali passa num dia de Primavera.

De olhos fechados, viajamos até ao Inverno na região alentejana de Moura, ou passeamos pelas Salinas de Vasa Sacos, na Reserva Natural do Estuário do Tejo, onde escutamos as aves invernantes que por ali andam.

Estes locais fazem parte de um mapa que reúne as 20 melhores paisagens em Portugal para se ouvir a natureza. A lista foi escolhida no âmbito do projecto “Paisagens Acústicas Naturais de Portugal” (2010-2012), iniciativa onde assenta, em grande medida, o primeiro arquivo nacional de sons da biodiversidade portuguesa.

[A partir de agora pode continuar a ler este artigo a ouvir a Primavera como se estivesse no Paúl do Boquilobo, graças a uma das gravações feitas durante o projecto.]

 

 

A iniciativa “Paisagens Acústicas Naturais de Portugal”, coordenada pelo biólogo e especialista em bioacústica Paulo Marques, fez o retrato sonoro de 20 paisagens de Norte a Sul do país, incluindo a Ilha Terceira, nos Açores. O objectivo foi conhecer os sons da paisagem em diferentes regiões e preservá-los para o futuro.

As paisagens bioacústicas estão disponíveis na Internet. No entanto, apesar de num simples “clique” do rato parecer que estamos ali mesmo em Moura ou na Serra do Gerês, não foi rápido nem fácil chegar a este resultado.

 

02 Maio 2013 - Paulo Marques no Museu de História Natural

Paulo Marques no Museu de História Natural. Fotografia: Joana Bourgard

 

Foi ao longo de vários anos e mais intensamente depois de 2010, no âmbito de um projecto de investigação científica mais vasto dedicado à história da ciência, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, que Paulo Marques e os restantes membros da equipa recolheram cerca de 3000 horas de gravações em carvalhais, paisagens agrícolas e rurais, montados de sobro, estuários, sapais, estepes, matos e linhas de água. Quiseram fazer gravações que representassem as espécies que produzem som num determinado local.

O objectivo foi “fazer o melhor retrato possível das paisagens acústicas naturais portuguesas”, explicou Paulo Marques à Wilder. O biólogo pretende que estas “sinfonias naturais” tornem possível comparar a biodiversidade sonora, nos sítios onde foram gravadas, com as mudanças que ali forem acontecendo. Cada um dos locais onde a equipa esteve a trabalhar foi georreferenciado, para mais tarde não restar qualquer dúvida sobre a sua localização.

Na escolha de cada paisagem, nada foi também deixado ao acaso. Os investigadores esforçaram-se por encontrar os “recantos portugueses mais bem conservados, em termos de património natural”, e contactaram em cada região as entidades e associações que os poderiam ajudar.

Com o local escolhido, a equipa instalava uma matriz de cinco microfones, montados em cima de tripés e ligados todos ao mesmo gravador por cabos com 50 metros, e deixavam-nos a captar os sons da paisagem durante 24 horas. Ao fim desse tempo regressavam ao local, recuperavam o equipamento e mudavam de sítio. “Temos muitos grupos de animais que usam o som no seu dia-a-dia. Vão desde os insectos às aves, aos mamíferos terrestres e voadores, como os morcegos”, disse o especialista.

 

Paulo Marques com o equipamento de recolha de sons. Foto: Joana Bourgard

Paulo Marques com o equipamento de recolha de sons. Fotografia: Joana Bourgard

 

Paulo Marques gostou especialmente das gravações feitas no Douro Internacional. “Não representavam nenhuma espécie em particular mas eram paisagens com pouca interferência humana e tinham uma comunidade de espécies muito rica.”

“É muito giro quando fazemos uma representação gráfica dos sons vermos frequências altas e baixas, ou seja, a banda sonora toda ocupada”, acrescentou. “As rãs a cantar cá em baixo, depois as aves a ocuparem uma faixa intermédia e uma banda imensa de insectos”.

Isso não impediu, todavia, que “mesmo nos sítios mais remotos se apanhasse sempre a presença humana”. Barulhos de aviões, o sino de uma igreja ao longe, os rebanhos que passam nos caminhos surgem muitas vezes como presença habitual destas paisagens portuguesas.

Além de fazer um retrato bioacústico dos 20 locais, em 2010, o projecto fez o levantamento dos sons de paisagens que já tinham sido captados no país. Todos esses sons fazem hoje parte do arquivo nacional de sons, instalado no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa.

 

Foto: Joana Bourgard

Fotografia: Joana Bourgard

 

Depois da fase mais intensa das gravações, seguiu-se o trabalho de ouvir o máximo possível as horas de material, seleccionar e catalogar, não apenas por local, mas também associando muitos dos sons às espécies que fazem parte destas paisagens.

De momento, o arquivo tem sons digitais de 185 espécies (48 horas de gravações), sons de 1346 paisagens (2874 horas) e de monitorização (mais de 3500 horas), num total de mais de 131.700 registos (mais de 6000 horas).

Segundo Paulo Marques, os animais utilizam os sons para atrair parceiros, defender territórios, pedir alimento e dar alarme. A bioacústica é muito útil para o estudo de comportamentos, para fazer conservação e para estudar a taxonomia e a fisiologia dos animais.

Entre os vários sons de espécies que estão identificados e se podem também ouvir na Internet, a maioria pertence a aves como o melro, a cegonha branca ou a gralha azul. Mas também é possível escutar o esquilo-vermelho, o veado, um barulhento coro de rãs-verdes ou as estranhas vocalizações que faz o charroco – um peixe que se esforça de tal forma para ser ouvido pelas fêmeas, quando chega a altura do acasalamento, que mesmo os humanos se apercebem.

“Quando comecei a fazer o levantamento dos sons para perceber o que se sabia sobre a história da bioacústica em Portugal, constatei que não havia gravações dos anos 60”, lembra o biólogo.

Os mais antigos registos portugueses conhecidos datam do final dos anos 70 mas estão à guarda da Fonoteca de Madrid, porque o arquivo português só surgiu depois.

Fotografia: Wilder

Fotografia: Wilder

 

O objectivo do arquivo nacional é “criar uma colecção biológica aberta à investigação e à sociedade, que possa ser utilizada na descoberta e interacção com a natureza”, explica Paulo Marques, que é também curador deste património, no âmbito de uma parceria entre o Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA-IU) e o Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), além de outras instituições.

O som guardado em arquivo está validado por peritos quanto à sua caracterização técnica, taxonómica, localização geográfica e temporal. Na base de dados existe informação detalhada, como por exemplo sobre quem captou o som, o equipamento utilizado para as gravações e qual a duração.

Apesar de estar actualmente envolvido num projecto de conservação da águia imperial ibérica (programa LIFE Imperial, em Castro Verde), o biólogo e a restante equipa continuam a fazer novas recolhas de sons. E mostram-se disponíveis para receber contribuições de outros naturalistas que queiram colaborar com recolhas próprias, para que as sinfonias naturais da paisagem portuguesa cheguem cada vez mais longe.

Agora é a sua vez.

Para ouvir as Paisagens Acústicas Naturais de Portugal pode aceder à página principal do projecto e ainda a alguns materiais neste site e também neste.