Paulo Catry entremeia o trabalho científico a bordo do navio oceanográfico RSS Discovery com momentos de pausa em que se senta a escrever-nos o que vê, no oceano profundo, e o que lhe vai na alma. Nesta sexta crónica, o investigador do MARE-ISPA conta-nos mais um pouco das histórias do oceano Atlântico. 

 

25 de Junho – À custa de muitos esforços, lá conseguimos apanhar alguns pombaletes (Fulmarus glacialis) com a rede de tarrafa. São desconfiados e raramente se aproximam suficientemente perto das nossas armadilhas. Está-lhes na natureza não correrem riscos. Sábios são eles, vivem muitos anos, chegam aos 30 ou 40 de idade. Quantas baleias, grandes lulas e outros monstros marinhos não terão eles já visto?

 

Pombalete. Foto: Paulo Catry

 

27 de Junho – Seria natural pensar-se que isto cá fora, no oceano aberto, é de uma uniformidade enfadonha. E é, sob certos pontos de vista. Mas se nos interessarmos pela fauna ou pela oceanografia, a diversidade é grande e cada dia é composto de mudança. Hoje, por exemplo, em duas horas de navegação (uns meros 35 km) passámos de uma temperatura superficial da água do mar de 10 para 18 graus centígrados. Impressionante, como num meio completamente aberto e sem barreiras físicas visíveis, as massas de água se mantêm separadas, permitindo gradientes acentuados como estes (noutra ocasião, a temperatura da água desceu 10 graus em meio dia de viagem). Muitas vezes, é junto a estas fronteiras oceanográficas (as chamadas frentes), invisíveis a olho nu, que se concentra boa parte da vida marinha. E as coisas vivas também mudam abruptamente. Hoje de manhã não se viam medusas, mas à tarde, o mar estava cheio de caravelas portuguesas e de outras águas-vivas.

 

Bando de pombaletes. Foto: Paulo Catry

 

Com a subida da temperatura foram aparecendo outras espécies oceânicas espetaculares, como os atuns. Todos os conhecem, das latas, ou dos bifes, poucos se dão conta da sua extraordinária beleza hidrodinâmica e das migrações que os levam a atravessar oceanos inteiros. Que estranho mundo este, onde poucos vimos, ao vivo, os animais selvagens que ainda, quase diariamente, nos enchem a barriga. Sim, os atuns são animais verdadeiramente selvagens, toda a vida percorrendo livres o vasto oceano, até serem pescados ou de outra forma se finarem. Comemos atuns e sardinhas, salvamos baleias e pintassilgos, num sistema de valores confuso, que só muito atabalhoadamente poderíamos explicar, com duvidosa capacidade persuasiva. Se vivêssemos no mar, talvez salvássemos os atuns, e nos alimentássemos, sem escrúpulos, de raposas, rouxinóis e cotovias.

 

Paulo Catry a segurar um fulmar

 

28 de Junho – Estes mares são bastante desertos de embarcações. Claro que andam algumas por aí, mas nesta vastidão, chegamos a passar quase uma semana sem pôr os olhos noutro navio. O único barco de pesca que vimos estava em trânsito, rumo a … Aveiro. Chamava-se Cidade de Amarante.

A bicharada é que não anda sozinha por aqui. Constantemente, vemos associações interessantes. Uma das mais presentes é a pretensa amizade das cagarras e dos golfinhos. Nas secções mais meridionais das linhas (transetos) que vamos percorrendo sistematicamente no oceano, encontramos numerosos golfinhos-comuns (Delphinus delphis). Estamos no mar alto e profundo e, ao contrário dos Açores, onde geralmente se vêem grandes grupos (com dezenas ou mesmo centenas) destes animais, aqui muitas vezes deparamo-nos com não mais que meia-dúzia. Curioso é que estas minúsculas flotilhas levam quase sempre uma cagarra (às vezes duas), poucos metros acima, à laia de anjo da guarda, ou de papagaio preso por uma linha invisível. A cagarra volteia e revolteia, no seu voo deslizante, fazendo tempo para não se adiantar aos golfinhos, mais lentos.

A associação de aves a predadores subaquáticos, como peixes, golfinhos e baleias, é fenómeno bem conhecido, e eu próprio o vi inúmeras vezes, envolvendo diversas espécies distintas. Mas isto geralmente sucede quando as aves se juntam a outros animais em alimentação, para se aproveitar dos pequenos peixes que ficam encurralados, empurrados pelas bocas que os perseguem vindas de baixo até à superfície. O que é engraçado de ver aqui é que as cagarras literalmente viajam com estes pequenos grupos de golfinhos, mesmo quando não há atividade de alimentação em curso, na expetativa de que os seus parceiros venham a encontrar peixe pelo caminho, e portanto proporcionem oportunidades de uma refeição fácil.

Outra associação curiosa, ainda hoje: um bandinho de cagarras, poisadas no mar, entre as quais nadam três peixes-lua. Porque será? Dizem que as aves livram estes grandes peixes de parasitas. Mas no caso, todos pareciam estar a repousar…

 

Pôr-do-Sol, onde se pode ver uma nesga de céu. Foto: Paulo Catry

 

29 de Junho – Passámos do oceano profundo para os Grandes Bancos da Terra Nova (Canadá). Dia inteiro mergulhados em nevoeiro denso, não se vê absolutamente nada, numa das áreas que deveria ser de maior interesse. O trabalho de exploração e investigação de campo e mar também é isto, sucessos e maravilhas mas também dificuldades e pequenas desilusões.

Os primeiros europeus a chegarem à Terra Nova e ao continente americano foram sem dúvida os Vikings, há cerca de 1000 anos atrás. Disso deixaram crónicas nas suas sagas, cuja veracidade foi comprovada por achados arqueológicos no norte da Terra Nova. Mas os Vikings não se demoraram por aqui.

Quinhentos anos mais tarde, a Terra Nova foi oficialmente achada por Caboto, havendo todavia fortes suspeitas de que pescadores e exploradores portugueses, bascos, quiçá outros europeus, já conhecessem a área e lá pescassem em segredo. Os Grandes Bancos foram, durante séculos, o mais generoso fornecedor de bacalhau em todo o Atlântico, até que, cansados de tanto abuso, os stocks colapsaram e o Governo canadiano foi obrigado a fechar a pesca dos famosos peixes, fechando também tantas indústrias associadas. Ainda existem bacalhaus neste mar, mas as populações nunca recuperaram, mesmo depois de muitos anos de repouso. O que já não existe são as tordas-mergulheiras gigantes, uma ave parecida com os pinguins, que não voava, que vivia nesta zona e que serviu de sustento a tantos marítimos que por aqui andaram, até se extinguir completamente.

 

Torda-mergulheira-gigante. Ilustração: Richard Lydekker (1849-1915)/Wiki Commons

 

Bem ridículas são as nossas queixas do nevoeiro, acima proferidas. Que contraste este, dos confortos de um moderno navio oceanográfico, com a labuta dos heróicos pescadores portugueses que até há 50 anos atrás andavam por aqui na grande faina do bacalhau. Pela alvorada, o navio-mãe largava dezenas de minúsculas embarcações, cada uma com o seu homem, que pescava com linhas de mão os grandes peixes que haviam de nos encher pelo natal e em tantos outros dias do ano. Esses sim, tiveram razões de bradar contra o nevoeiro denso. Quantos, ao longo dos tempos, por ele foram engolidos, e para sempre se perderam no mar gelado, deixando órfãos e viúvas em Viana ou em Aveiro, do lado solarengo deste Atlântico que, além de maravilhoso e pródigo, foi recorrentemente também maldito.

 

Diário de bordo de Paulo Catry

Leia aqui as crónicas de Paulo Catry, investigador português que está a a bordo do navio RSS Discovery no Atlântico Norte. Conheça aqui mais sobre esta expedição científica internacional.