Fotos: Raquel Dias da Silva

Um passeio pela magia dos cogumelos na Mata Nacional da Machada

Naturalistas

O pulmão do Barreiro reserva os sábados para os curiosos. Em Dezembro passado, o Centro de Educação Ambiental da Mata da Machada e do Sapal do Rio Coina abriu portas à EcoFungos e a um grupo de 21 participantes que, mesmo debaixo de chuva intensa, não resistiram a aprender sobre a importância dos fungos na renovação dos ecossistemas e no equilíbrio da floresta.

 

O primeiro sábado de cada mês é sagrado no pulmão do Barreiro, na margem sul do Tejo. À frente da Escola de Fuzileiros, o terreno que serve de parque de estacionamento dá acesso a um caminho de terra batida. Seguindo sempre em frente, encontra-se o Centro de Educação Ambiental da Mata Nacional da Machada e do Sapal do Rio Coina, a funcionar desde 2005. Por detrás, esconde-se um pequeno complexo de cortiça, onde os participantes se juntam.

 

 

Com a benção da chuva, Rui Simão, co-fundador da EcoFungos, dá as boas-vindas aos corajosos que decidiram aventurar-se num passeio micológico. “Toda a gente sabe o que são cogumelos?”, pergunta.

A explicação, concisa e para os estreantes, é dada sobretudo na esperança de que, lá fora, o tempo acalme. O grupo veio preparado, de galochas, impermeáveis, guarda-chuvas e cestos de vime, para observar de perto as frutificações de alguns fungos.

Um Pisolitus

Um Pisolithus

A actividade está programada para acontecer pela mata. Agora que as temperaturas baixaram e a humidade aumentou, as várias manchas florestais escondem inúmeras espécies de cogumelos. Antes de começar, é necessário alertar para o cuidado a ter na recolha para que não se danifique o micélio, a parte do fungo que se desenvolve no interior do substrato e permite a sua reprodução vegetativa. A prática fará o mestre.

Entre as folhas de cores outonais e a terra molhada que ladeia o complexo, esconde-se um Phallus impudicus, uma espécie de fungo tóxico em forma de falo, cujo cheiro nauseabundo pode ser sentido a vários metros de distância. Ninguém o guarda no seu cesto e o grupo avança até um exemplar semelhante a uma Amanita, género que compreende mais de 600 espécies, algumas comestíveis, a maior parte tóxica ou até mortal.

O exemplar encontrado é, contudo, uma Volvariella e, ao contrário das amanitas, as lâminas adquirem uma tonalidade rosada à medida que o fungo amadurece. Ao cozinhar deve ter-se algum cuidado por causa de uma toxina que provoca distúrbios gastrointestinais, explica Rui Simão – que confessa não encontrar qualquer interesse, do ponto de vista gastronómico, num cogumelo que tem de ferver durante cerca de 10 minutos para ser consumido.

Antes de se retomar caminho, conversa-se sobre a forma como os cogumelos crescem. Quando jovens, ainda fechados, possuem um véu que os protege e, assim que o chapéu abre, pode ou não formar um anel, uma característica importante para a identificação de cogumelos.

 

 

Os restos desse véu permanecem no chapéu de algumas espécies “como a Volvariella ou a Amanita muscaria, aquele cogumelo vermelho com pintas brancas que não são nada mais do que os restos”, esclarece Rui, enquanto segura um Agaricus, um género que inclui o cogumelo comum (também conhecido como champignon de Paris) e o do campo, cultivo predominante de cogumelos no Ocidente.

Tricholoma sulphureum

Tricholoma sulphureum

Mata adentro, com o vento forte e o regresso da chuva, o grupo abriga-se debaixo das copas dos sobreiros, para uma lição sobre os vários tipos de fungos e a sua relação com os outros seres vivos. A maioria dos cogumelos alimenta-se de matéria orgânica, reciclando-a e permitindo que seja aproveitada por outros organismos. Os simbióticos conseguem mais: extraem nutrição das plantas verdes e, em troca, fornecem água, vitaminas, hormónios e outras substâncias. Para além disso, criam uma rede de comunicação entre as árvores, através da extensão das suas raízes, o que estrutura toda a sanidade da floresta.

Ana Paula, 57 anos, lembra que este é o seu segundo passeio micológico no espaço de uma semana e que achou curioso Rui dizer que praticamente não come cogumelos. “Gostar deles não significa apreciá-los do ponto de vista gastronómico”, conclui, acrescentando que o que a fascina é, precisamente, a capacidade que os fungos têm de transmitir informação entre as árvores: “Se uma árvore está a morrer, se precisa de mais nutrientes.”

Por outro lado, refere o imaginário de infância, “os contos de fadas nos bosques”, e a potencialidade do ponto de vista medicinal. “Não precisamos de ir muito longe, a penicilina é um fungo.”

 

Um Gymnopilus junonius

 

É, contudo, difícil identificar as espécies comestíveis e, porventura, as medicinais das tóxicas, alucinógenas ou até mortais. São precisos muitos anos de observação, razão porque a Ecofungos – Associação Micológica promove ações de sensibilização e educação para miúdos e graúdos. Pedro Henriques, 14 anos, não é o mais jovem do grupo, mas é um estreante na Mata da Machada. “São muito diferentes dos que apanho na Serra de Sintra”, explica, antes de dispersar e, tal como os restantes participantes, começar a explorar por si.

Enquanto Rui Simão mostra, junto ao tronco de uma árvore, uma espécie de cogumelo, Gymnopilus junonius, que cresce em tufos e, além de tóxico, é alucinógeno, há quem esteja a admirar, num outro ponto da mata, um cogumelo lilás com um aspeto gelatinoso na parte superior. Conhecido como ‘pé azul’, este Clitocybe nuda é comestível e, ao contrário da maior parte dos cogumelos tóxicos, o seu odor é muito agradável, destacando-se do cheiro a terra molhada.

A chuva já parou e, com o tempo a escassear, a vontade de encontrar espécies novas e ouvir as explicações de quem já conhece a magia dos fungos é cada vez maior. É preciso estar atento para não os pisar e, sobretudo, para não levar para casa uma surpresa desagradável. De volta ao complexo, são esvaziados os cestos e organizam-se os cogumelos em géneros, ao centro, em cima de uma mesa redonda. Serve-se chá, enquanto se conversa sobre o que se colheu, e Jorge Rodrigues, chef na Ecofungos, prepara-se para cozinhar alguns cogumelos, incluindo o exemplar lilás que se encontrou na mata.

Ângela Gonçalves, designer de Permacultura, confessa que se juntou ao passeio sobretudo para aprender a identificar cogumelos comestíveis. Embora dê formações na área da Permacultura e Sustentabilidade na Mata da Machada, foi a primeira vez que participou numa actividade de reconhecimento de fungos. “Gosto muito de poder comer o que a natureza nos dá, mas não me sinto preparada, acho que é muito difícil.” Acrescenta, contudo, que espera repetir a experiência.

 

 

O passeio não chega ao fim antes da degustação. O chef apresenta o primeiro prato e explica que o segredo está no tempo de cozedura. “O lume deve estar forte para entrar rápido, dar-lhe a volta e sair. Vão perceber que está rijo e que sentem toda a textura.”

Depois de sujar as galochas, ser abençoado pela chuva e admirar a biodiversidade da mata, é hora de reconfortar o palato. Porque a magia também está no sabor.