António Heitor voltou ao Estuário do Tejo, um excelente local para observar aves aquáticas. Mas não só. Este também é território de rapinas “irreverentes”.

 

Nesta época do ano, as aves juvenis já estão capacitadas a voar e a explorar os territórios dos progenitores. Algumas já partiram em direcção aos locais de invernada, dando início à grande jornada que os levará à idade adulta.

A inexperiência e irreverência juvenil podem permitir algumas observações interessantes, pois estes animais tendem a ter menos “medo” dos humanos, permitindo por vezes uma maior aproximação.

Desta vez, a minha visita ao Estuário do Tejo começou pelo Paul da Barroca. Cheguei ao nascer do dia para observar o regresso das garças noturnas aos seus locais de dormida. Rapidamente apareceram uns quantos gorazes e outras tantas garças-rateiras.

Um olhar mais atento para o limite da área florestal não teve qualquer resultado prático, mas depressa me apercebi de dois vultos, pelo canto do olho. Pela estrutura e tamanho do bico reparo que são dois gorazes: um adulto e um juvenil. Será o regresso de uma “aula prática”? Gosto de pensar que sim.

 

 

Neste local é também relativamente fácil encontrar flamingos que, apesar de não nidificarem em Portugal, usam os nossos estuários durante todo o ano. Apesar de todos procurarmos a tonalidade rosada destas aves, o que mais se vê é o cinzento dos juvenis.

Mudei-me, então, para a Ponta da Erva. Assim que cheguei escolhi um local mais sossegado. Uma observação atenta da linha do horizonte permitiu-me ver várias aves aquáticas, um pequeno peneireiro e umas quantas águias-sapeiras.

As horas foram passando e encontrei os passeriformes migradores que tinha pensado encontrar: o chasco-cinzento e a felosa-musical. Após umas fotografias a um chasco-cinzento, pensei que o dia estava feito e decidi regressar a casa.

Assim que liguei o carro e olhei para a estrada, reparei num pequeno ponto um pouco acima do horizonte. De binóculos, a primeira imagem que vejo foi a de uma grande rapina, de cores claras.

 

 

A cauda, as cores e a estrutura pareciam as correctas. Uma águia-de-Bonelli juvenil.

Era tempo de voltar ao carro e, após umas largas centenas de metros, o animal desceu um pouco e muda de direcção … passando por cima da estrada mesmo onde, por acaso, eu tinha parado.

 

 

Gosto de pensar que foi a tal irreverência que o fez voltar para trás e passar mesmo por cima do meu carro, dar duas ou três voltas e continuar em direcção ao seu destino. Só posso agradecer a oportunidade que me deu.

 

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