Estamos em pleno Outubro em Sagres e tudo pode acontecer. Durante cerca de duas horas em que as chuvas nos deram tréguas, observámos 50 espécies de aves, duas delas raras. Aqueles campos e colinas rodearam-nos de prenúncios de Inverno.

 

13 de Outubro. Choveu a manhã toda. Fiquei preso em tarefas domésticas e, pela hora de almoço, estava no mínimo aborrecido. Mas lá para as 15h00 o tempo limpou e partimos para Sagres. Já tínhamos ouvido que andavam pela área pelo menos um Tartaranhão-pálido (Circus macrouros) – um migrador originário das estepes asiáticase duas Felosas-bilistadas (Phylloscopus inornatus)– um pequeno pássaro siberiano.

Pelo caminho, dezenas de gaivotas circulavam em correntes térmicas, alimentando-se de formigas-d’asa e de outros insectos que proliferam depois das chuvas. Para começarmos a observar mais depressa, metemos pela estrada velha da Vila do Bispo. Cedo se tornou claro que os pequenos migradores transaharianos mais abundantes eram o Papa-moscas-preto (Fycedula hypoleuca) e a Felosa-musical (Phylloscopus trochilus). Em meados de Outubro, a maioria destes viajantes de longo curso encontra-se já a Sul do Sahara, e os invernantes vindos de Norte começam a dominar o panorama dos movimentos das aves. Ao longo do dia observámos também alguns Chascos-cinzentos (Oenanthe oenanthe), um Cartaxo-nortenho (Saxicola rubetra) e um tímido Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica).

 

O Chasco-cinzento é um migrador de passagem comum em Sagres, que pode vir de terras tão longínquas como a Gronelândia. Foto João Guilherme

O Chasco-cinzento é um migrador de passagem comum em Sagres, que pode vir de terras tão longínquas como a Gronelândia. Foto João Guilherme

 

Ao ouvir o metálico e inconfundível chamamento da Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax), parámos no topo de uma colina de campos lavrados onde observámos um bando em voo de 65 destas magníficas aves. Mais à frente, no Vale Santo veríamos outro grupo de cerca de 60 em alimentação, perfazendo mais de 120 aves – a maior concentração que pessoalmente já detectei na zona de Sagres.

Perscrutando os céus do Norte da península, descobrimos também duas Águias-de-Bonelli (Aquila fasciata) – um juvenil e um imaturo, em provável dispersão – algumas Águias-calçadas (Aquila pennata), duas Águias-d’asa-redonda (Buteo buteo), alguns Peneireiros-comuns (Falco tinnunculus) e um Peneireiro-cinzento (Elanus caeruleus) – uma espécie algo incomum na península de Sagres, cuja presença se deve aos amplos movimentos dispersivos que realiza durante a época não-reprodutora. Ocasionalmente esvoaçava perto de nós uma borboleta Almirante-vermelho (Vanessa atalanta).

 

A Gralha-de-bico vermelho é um das espécies mais emblemáticas da zona de Sagres. Foto: João Guilherme

A Gralha-de-bico vermelho é um das espécies mais emblemáticas da zona de Sagres. Foto: João Guilherme

 

Antes de chegarmos às imediações do Cabo S. Vicente, passou também por nós um bando de cerca de 70 Pintarroxos (Carduelis cannabina). Por alturas de meados de Outubro, as populações migradoras de fringilídeos (tentilhões, pintassilgos, pintarroxos e afins) começam a chegar aos campos vindas de Norte, engrossando as nossas populações residentes. Há um mês seria improvável ver tantos pintarroxos juntos. Observei também aquelas que foram para mim as primeiras Petinhas-dos-prados (Anthus pratensis) do ano, uma espécie que brevemente será uma das mais abundantes na zona. Tudo sinais de que o Inverno está a chegar.

 

Vale Santo, Sagres, no Inverno. Um paraíso para Petinhas, Lavercas, Abibes, Fringilídeos e Trigueirões. Foto: Nuno Barros

Vale Santo, Sagres, no Inverno. Um paraíso para Petinhas, Lavercas, Abibes, Fringilídeos e Trigueirões. Foto: Nuno Barros

 

A tarde ia passando, o Sol descendo e as rapinas baixando. Mal chegámos à sebe de pinheiros que ladeia o caminho para a Cabranosa – provavelmente o mais emblemático ponto de observação de aves de rapina do país – um Cuco (Cuculus canoros) levantou a voar rasteiro à nossa frente. Era o primeiro que observava em Sagres, e estava bastante atrasado no seu calendário específico – a migração pós-nupcial desta espécie passa bastante despercebida, no entanto a grande maioria das aves ter-nos-á já deixado em meados de Setembro.

Mas havia mais bichos no ar. Observámos cinco Águias-cobreiras (Circaetus gallicus), um Milhafre-preto (Milvus migrans), mais duas Águias-calçadas, duas Águias-d’asa-redonda, um Gavião (Accipiter nisus) e… Olá… Um Tartaranhão suspeito… Estava algo longe, mas a ave foi-se aproximando, circulando, e pudemos dissipar as dúvidas – era o tão aguardado Tartaranhão-pálido (Circus macrourus). O segundo que via na minha vida – o primeiro havia sido no mesmo local, quase quatro anos antes.

 

Tartaranhão pálido (tirada na Holanda). Foto: Rob Zweers/Creative Commons

Tartaranhão pálido (tirada na Holanda). Foto: Rob Zweers/Creative Commons

 

Esta é uma ave de rapina que cria no SE Europeu e Ásia central e inverna na Índia e SE Asiático. Existem menos de 20 registos desta espécie em Portugal, todos eles nos últimos cinco anos. Ventos de leste poderão ter empurrado esta ave até cá, ou pode mesmo dar-se o caso de a espécie estar a mudar alguns padrões de distribuição, nomeadamente tendo adquirido uma rota migratória mas a Oeste.

Na esperança de o observar ainda mais de perto, corremos para o carro para chegar rapidamente ao topo da colina da Cabranosa. Não voltámos a avistar ave, mas este local histórico da ornitologia nacional estava prestes a brindar-nos com todo o seu potencial. Já passava das 17h30 e não havia observadores de aves por perto. Uma luz quente e uma atmosfera estranhamente calma banhavam um fim de tarde sem vento. Havia quase tantas Felosinhas-comuns (Phylloscopus collybita) – invernantes recém-chegados – como Felosas-musicais – migradores no final da passagem. Algumas destas aves eram tão afoitas que se deixavam aproximar até cerca dois metros de distância. Possivelmente éramos as primeiras pessoas que encontravam na sua ainda curta vida, iniciada longe dali.

Pouco depois de chegarmos ao topo da colina, vislumbrámos uma ave extremamente pequena a movimentar-se num pinheirinho próximo de nós – era o segundo vulto suspeito da tarde. Não tardou até conseguirmos observá-la entre os ramos – era um felosa-bilistada. Minúscula, esverdeada e riscada nas asas e sobrolho, recém-chegada de terras distantes, as infindáveis florestas de coníferas siberianas.

 

A Felosa-bilistada é uma raridade em Portugal, cujos registos têm aumentado nos últimos 2 anos. Foto: Rob Zweers (tirada na Holanda)

A Felosa-bilistada é uma raridade em Portugal, cujos registos têm aumentado nos últimos 2 anos. Foto: Rob Zweers (tirada na Holanda)

 

Esta pequena ave deveria invernar na íntegra no SE Asiático, mas nos últimos anos o número de registos na Europa Ocidental tem aumentado bastante. Poderemos estar a assistir a uma mudança nos hábitos migratórios da espécie ou, pelo menos, nos hábitos de uma população mais ocidental?

Estávamos de alma cheia. O momento era de contemplação e de poucas palavras, e pusemo-nos à escuta, rodeados de prenúncios de Inverno. Piavam Piscos-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) por todo o pinhal. Cruzavam-nos pequenos bandos de Pintassilgos (Carduelis carduelis) e Tentilhões (Fringilla coelebs). Observámos os nossos primeiros Lugres (Cardulelis spinus) do ano. Numa observação digna de registo, passaram por nós um bando de 150 a 200 Pardais-franceses (Petronia petronia), uma espécie mais característica de regiões interiores. Um Açor (Accipiter gentilis) voava perto, sobre o pinhal.

Num rasgo de surpresa, surge um Esmerilhão (Falco columbarius) – o mais pequeno dos nossos falcões e um invernante escasso – em perseguição de uma Cotovia-montesina (Galerida thekla). Durante breves e frenéticos segundos acompanhámos aquele raro momento. A cotovia hesitou na direcção. Foi-lhe fatal.

 

Esmerilhão em perseguição de uma Cotovia-montesina. Desta vez o predador levou a melhor. Foto: João Guilherme

Esmerilhão em perseguição de uma Cotovia-montesina. Desta vez o predador levou a melhor. Foto: João Guilherme

 

A luz estava cada vez mais baixa e quente, e espelhava os nossos sentimentos. Uma calma imensa e um privilégio embargado de termos observado tantas coisas excepcionais em pouco mais de duas horas. Tínhamos detectado quase 50 espécies de aves, duas delas raras. Já não havia rapinas em voo e a tarde estava ficar silenciosa. Ao fundo via-se o Cabo S. Vicente por entre as árvores, e numa delas tamborilava ao sol um Pica-pau-malhado-grande (Dendrocopus major). Sagres é um local único, mas ainda o é mais em Outubro. E pouco mais há a dizer.

 

Nas próximas semanas, o ornitólogo Nuno Barros vai estar na Wilder para nos ajudar a compreender melhor a migração das aves, orientando-nos na observação e identificação das espécies. E Nuno traz-nos relatos de um dos melhores sítios para o fazer: Sagres. Prepare-se para aproveitar ao máximo as fantásticas aves que nos visitam nesta altura do ano.