Andorinha dos beirais, ilustrada por Sara Ferreira

Alunos de Vila Pouca de Aguiar têm clube de ornitologia e preparam um guia das aves

Naturalistas locais

Professor de Educação Física, “mas desde sempre entusiasta pela observação da natureza” e especialmente das aves, Paulo Belo acreditou que poderia contribuir para a comunidade escolar com os conhecimentos que ia obtendo. E assim nasceu um clube de ornitologia.

 

Foi há cerca de seis anos que Paulo Belo deu início ao Clube de Ornitologia do Agrupamento de Escolas de Vila Pouca de Aguiar, no distrito de Vila Real, em Trás-os-Montes. Um projecto – descreve este professor de Educação Física – que procura cativar os alunos para o respeito pelo mundo natural e ajudá-los a desenvolver as capacidades de observação, curiosidade e sentido crítico pelos fenómenos da natureza.

O primeiro passo foi obter “luz verde” da direcção do agrupamento. O clube foi então criado no ano lectivo 2009/2010 “com um tempinho do trabalho de escola”, nomeadamente o de componente não lectiva, contou à Wilder o professor.

O projecto envolve actualmente 28 alunos, desde o 5º ao 12º anos, com idades entre os 10 e os 17. Com alguma regularidade, fazem visitas de estudo, sessões de anilhagem científica de aves com ornitólogos do Grupo GVC e libertações de animais tratados no Centro de Recuperação de Animais Selvagens do Hospital Veterinário da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro)

O clube de ornitologia está também a preparar um guia ilustrado para descrever as espécies de aves observadas na escola e na região de Vila-Pouca-de-Aguiar, a partir de desenhos feitos pelos membros, mas também por outros alunos no âmbito da disciplina de Educação Visual.

 

 

“Ao longo dos vários anos tem vindo a ser solicitada colaboração à disciplina de Educação Visual e já foram realizados muitos desenhos de aves pelos nossos alunos”, explica Paulo Belo, que nota que essa é uma forma de “sensibilizar os alunos para o conhecimento das aves”.

Por vezes surgem dificuldades no desenho de certos detalhes, como os bicos e as patas, com os quais os alunos não estão familiarizados. No entanto, “já vamos tendo alguns desenhos interessantes, pelo que este ano estamos tentados a dar um impulso definitivo na realização deste guia ilustrado”, acrescenta o professor, que vai ter a tarefa de escrever os textos desta nova obra.

Matéria não lhes falta. Paulo Belo nota que Vila Pouca de Aguiar tem muitos espaços de floresta e montanha em redor, pelo que “o número de espécies observada é muito interessante, rondando cerca de uma centena”.

Ainda há um ano, em Novembro de 2014, andou pelas árvores da escola “uma raridade”: uma felosa-bilistada (Phylloscopus inornatus). Entre as muitas espécies, os alunos de Vila-Pouca-de-Aguiar vão conhecendo também o picanço-de-dorso-ruivo (Lanius collurio), “que nidifica nessa região e tem ali o seu limite de distribuição”; o andorinhão-pálido (Apus pallidus), “que nidifica num edifício em frente à escola secundária”; a estrelinha-real (Regulus ignicapilla), “que habita e nidifica nas árvores da escola”.

 

Estrelinha real, por Sara Ferreira

Estrelinha real

 

O dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) e o bútio-vespeiro (Pernis apivorus), que são espécies pouco comuns em Portugal, são também muitas vezes vistos por ali.

Houve uma saída de campo, por exemplo, em que identificaram 58 espécies. Nas saídas de campo, os alunos vão aprendendo “a identificar as aves” e faz-se também o registo das espécies, ultimamente colocado no portal “PortugalAves/eBird”.

A parceria com outras disciplinas escolares, incluindo assim alunos que não são membros do clube, não se fica apenas pelo novo guia ilustrado.

Em Educação Tecnológica, por exemplo, aposta-se na elaboração de caixas-ninho para as aves; nas aulas de Biologia, há acções de formação sobre turismo ornitológico e observação de aves para os alunos do Curso Profissional de Técnico de Turismo Ambiental e Rural e do Curso Profissional de Técnico de Gestão de Ambiente, relata o professor.

Para breve, o clube tem ainda planos para começar uma publicação semanal sobre aves, tanto no ‘site’, onde vão relatando as novidades e lançando novos desafios, como num pequeno espaço do jornal local de Vila Pouca de Aguiar, o “Notícias de Aguiar”.

 

Os membros do clube de ornitologia, numa visita recente ao Parque Biológico de Vila Nova de Gaia

 

Agora é a sua vez.

Está interessado em lançar um Clube de Ornitologia para observação de aves selvagens, por exemplo numa escola?

Paulo Belo avisa que “é preciso ter paciência e estar consciente de que observar aves é uma atividade que cativa poucos adeptos”. “Conseguir que alguns alunos se entusiasmem por este tema é importante”, mas também importa estender essa sensibilização à restante comunidade escolar e à sociedade em geral, nota.

Nesse sentido, explica, “diversas ações atingem diversos tipos de ‘público-alvo’, aumentando a possibilidade de conseguir uma boa sensibilização”: visitas de estudo; libertação de animais selvagens na natureza em parceria com centros de recuperação locais; sessões de anilhagem científica com anilhadores certificados; colaboração com diversas disciplinas escolares, como Biologia, Educação Visual e Educação Tecnológica.

“No meu caso, como professor, pedi ao órgão de gestão da escola que me concedesse algum do tempo de componente não lectiva do trabalho de escola, para desenvolver o projeto do Clube de Ornitologia”, indica também o professor.

Quanto aos materiais necessários: “Binóculos, guias de campo, blocos de notas, gravador de sons e telescópio”, sendo este último a maior dificuldade devido ao preço do material óptico.