Mais de 130 voluntários contaram 80 águias-pesqueiras

Para fazer

Fotografia: Vasco Valadares

Rio Tejo, Ria de Aveiro, Estuário do Sado e Ria Formosa foram os locais onde se contaram mais aves. O censo de 24 de Janeiro superou as expectativas dos organizadores e deixou a porta aberta para novas edições.

A história da águia-pesqueira em Portugal passa a ter um novo marco. Depois da sua extinção como nidificante em 1997 e do arranque do projecto para a sua reintrodução em 2011, o primeiro censo feito às aves que passam o Inverno em Portugal, vindas do Norte da Europa, foi realizado em 2015. Por voluntários.

Num único dia, num sábado solarengo a 24 de Janeiro, 135 observadores saíram de casa à procura desta ave de rapina nos estuários, lagoas ou albufeiras do país. Foram contadas entre 71 e 81 aves.

“Estes números ficam bastante acima da minha previsão inicial”, disse à Wilder Gonçalo Elias, o organizador do censo e responsável pelo portal Aves de Portugal. “A verdade é que como nunca tinha havido um censo desta espécie, apenas podíamos fazer suposições. A partir de agora, passa a haver uma base de comparação.”

Das 71 a 81 aves contadas – este intervalo tem a ver com as situações em que não foi possível confirmar se a mesma ave foi vista mais de uma vez em diferentes locais –, 12 foram observadas na Ria de Aveiro, onze no rio Tejo, dez na Ria Formosa e nove no Estuário do Sado.

Foi um dia “bastante intenso”, comentou Gonçalo Elias. Depois de ter saído de manhã e de ter conseguido ver duas águias pesqueiras, este observador regressou ao seu computador e começou a coordenar os dados que lhe chegavam do terreno. O registo das aves e a compilação das informações recebidas foram feitos quase em tempo real, graças à Internet. “Isso permitiu que a informação circulasse rapidamente”, acrescentou.

Gonçalo Elias acredita que o aspecto mais positivo do dia foi “a enorme adesão que esta iniciativa teve junto da comunidade de observadores e fotógrafos de aves”. Os 135 voluntários permitiram “cobrir a quase totalidade do território continental português”, desde o Estuário do Minho, em Caminha, ao Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, no Algarve.

E o responsável pelo portal Aves de Portugal já tem ideias para um próximo censo, até porque já há interessados. Gostava “de aumentar o esforço de cobertura nas albufeiras, especialmente no interior alentejano onde, devido à baixa densidade de observadores, alguns locais importantes não chegaram a ser visitados e onde suspeito que várias aves tenham ficado por contar”.

Além disso, futuras contagens devem apostar mais no barco como meio de transporte. Este ano registou-se um “número elevado de indivíduos detectados a partir de trajectos de barco ao longo do rio Tejo”, exemplificou.

Vasco, a águia-pesqueira A2A8 e a taínha

A águia-pesqueira capturou uma grande taínha e pousou num poste na Lezíria Grande, junto ao rio Tejo. Vasco Valadares estava a 15 metros de distância e esteve a ver a ave a alimentar-se, tranquilamente. “Foi o ponto alto do dia” e “uma experiência que nunca esquecerei”, contou à Wilder este geólogo de profissão e apaixonado pela fotografia de aves.

“É uma visão espetacular ver um animal selvagem tão grande num comportamento tão natural”. Vasco teve tempo para tirar fotografias com várias ampliações, afinar parâmetros da câmara e até fazer vídeos durante mais de 20 minutos. Também teve tempo para reparar que esta era uma ave anilhada, com a referência A2A8. “Através de contactos internacionais foi possível identificar aquela águia”. Na verdade, foi anilhada como cria (numa ninhada de três) ainda no ninho, em Groß Labenz, no Nordeste da Alemanha em Junho de 2014. “É jovem, já viajou tanto e está a dar-se tão bem! É fantástico.”

Mas este encontro não se deu por acaso; foi preparado com antecedência. “Assim que tomei conhecimento deste censo voluntariei-me para participar” e “fiquei responsável por registar as observações na Lezíria Grande, parte integrante do Estuário do Tejo, na zona a sul da recta do Cabo (estrada que liga Vila Franca ao Porto Alto)”. Vasco Valadares já tinha visitado a zona várias vezes e já tinha observado muitas espécies de aves, incluindo a águia-pesqueira que ali inverna. “Sendo geólogo de profissão, o contacto com a natureza sempre fez parte do meu trabalho e da minha vida. A fotografia de aves é um passatempo recente e no qual invisto muito (em tempo, deslocações e em equipamento). Mas é muito gratificante”.

Preparou-se para o censo o melhor possível. Carregou todos os mapas e fotografias aéreas no seu tablet, com GPS, o que lhe permitiu georreferenciar todas as fotografias que iria captar. Levou o seu livro de campo para anotar o comportamento das águias, o seu tempo de permanência e a direcção que tomassem quando levantassem voo e partissem, sendo que esta informação poderia ser importante para cruzar com as observações dos outros voluntários nas proximidades. Levou o almoço de casa para “não perder tempo a sair da área para ir almoçar e maximizar o tempo para as observações”.

E o trabalho deu recompensas. “Foi um bom dia (e longo, das 8 da manhã até ao pôr do Sol) em que pude ajudar no censo, fazer novos amigos e fotos fantásticas”.

Agora é a sua vez.

Sim, sabemos que o censo da águia-pesqueira já terminou. Mas com ou sem censo, aproveite para admirar esta ave antes que regresse a casa, no Norte da Europa. Gonçalo Elias deixa-lhe algumas informações sobre a espécie que o poderão ajudar.

Nome científico: Pandion haliaetus

Comprimento: 52 – 60 centímetros

Envergadura da asa: 152 – 167 centímetros

Características que a distinguem das outras rapinas: esta ave distingue-se pela sua grande dimensão, pela “máscara” preta em redor dos olhos e pela plumagem muito branca nas partes inferiores, que é geralmente visível em voo.

Locais onde é mais fácil de a observar: esta águia aparece quase sempre perto de água e é frequente vê-la a pescar ou pousada num poste, enquanto se alimenta de um peixe que acabou de capturar. Os melhores locais são a ria de Aveiro, os estuários do Tejo e do Sado e a ria Formosa.

A águia mais parecida e que pode causar confusão na identificação: a espécie mais parecida em termos de coloração e dimensões é a águia-cobreira, mas essa espécie é muito invulgar no período de Inverno e além disso não se alimenta de peixe.