Fotos: António Heitor

Os meus prados e pastagens preferidos

Correspondente

Para quem se interessa pelo mundo natural, os prados silvestres são locais a não perder. Em Portugal, o correspondente António Heitor elege três zonas e explica porquê.

 

Escolho, sem dúvida, as serranias da Peneda-Gerês, da Lezíria do Tejo e do Vale do Guadiana. Aqui é fácil encontrar prados, pastagens e pousios de elevado valor ambiental, económico e social.

Começando a Norte as serranias da Peneda-Gerês são um local de eleição para encontrar algumas das nossas espécies da fauna e flora. Por razões familiares conheço melhor as Serras da Peneda, Castro Laboreiro, Soajo e Amarela, onde os prados e pastagens são mantidos por práticas ancestrais de gestão da pastagem e do pastoreio.

 

 

O Inverno a estas altitudes é rigoroso e a chegada da Primavera resulta numa explosão de cores e aromas que transforma por completo a região. É altura de renovar os pastos e o fogo é uma ferramenta usada desde sempre. As aves de rapina – como a águia-cobreira, o milhafre-preto e a águia-de-asa-redonda – aproveitam as queimadas para caçar nestas áreas agora limpas. Dominam os urzais, os tojais e os matos de altitude, recortados por lameiros (prados seminaturais) e manchas florestais de carvalhos, resinosas, medronheiros e azevinhos. Os cursos de água são ladeados por salgueiros e vidoeiros. Estes rios e ribeiras são o habitat ideal para o melro-de-água e toupeira-de-água, onde procuram alimento. As zonas abertas são locais excelentes para ver um leque diversificado de aves como cartaxos, petinhas, picanços-de-dorso-ruivo e escrevedeiras, como a cia.

 

 

Mais perto de Lisboa, a Lezíria do Tejo tem zonas de pastagem bem interessantes. Estes prados são locais de descanso, alimentação e reprodução de um conjunto vasto de espécies, durante todo o ano e durante todo o dia. Esta zona está fortemente condicionada pelo ciclo das estações e das marés: as aves que se alimentam na maré baixa regressam na preia-mar e podem ser encontradas nestes locais a descansar.

Estas pastagens são constituídas por várias espécies de plantas como a serradela, a margaça, a aira-cariofílea e trevos. Nas bordaduras das pastagens, quer nas margens dos rios quer dos canais de rega, os caniçais são habitat preferencial de um conjunto de espécies, como os rouxinóis, as cigarrinhas-ruiva, as garças e algumas limícolas (aves que de alimentam na lama).

Na Primavera as migradoras nidificantes aproveitam as condições favoráveis dos prados que renascem assim que os raios de sol o permitem. As perdizes-do-mar, assim que chegam de África, recuperam da longa viagem e preparam-se para construir ninhos nestes locais, no chão.

 

 

Estas pastagens planas são também o habitat para espécies que não seriam assim tão óbvias. No Verão encontramos abetardas e sisões que, após a reprodução, se dispersam à procura de melhores condições de habitat. A lista de aves é vasta, mas destaco duas delas: a calhandra-real que facilmente se poderia associar a este habitat agrícola do estuário e a laverca, uma espécie típica das terras altas mas que encontra nos prados da lezíria um local ideal para estar todo o ano.

 

 

Durante as migrações do fim do Verão e do Inverno, muitas aves recuperam forças para o resto da viagem nos arrozais e pastagens da Lezíria do Tejo. Desde os flamingos aos patos e limícolas, até aos pequenos passeriformes. Mas nem só as aves habitam estas paragens. Aqui há raposas, saca-rabos, javalis, lontras e pequenos ratos-de-cabrera. Nas pastagens e prados as lebres estão presentes todo o ano e na Primavera os machos estão focados na reprodução. Durante as lutas parecem não se importar com a nossa presença.

 

 

Finalmente a Sul, nas pastagens e pousios do Vale do Guadiana podemos observar espécies com elevado valor de conservação. Ao longo dos anos, a gestão agrícola e florestal ancestral – desde o montado de sobro e azinho, os campos de cereal, a pecuária extensiva e a caça – moldou a diversidade de habitats.

A esteva, rosmaninho, alecrim, murta, poejo e os trevos (como o subterrâneo e o tomentoso) dominam os campos. Estas parcelas de vegetação silvestre melhoradas com outras espécies são locais ideias para aves e mamíferos que aí encontram erva e insectos em abundância. Como as perdizes. Esta espécie, a par do coelho-bravo, é hoje gerida para exploração cinegética, sendo um pilar importante da economia da região.

 

 

Graças à riqueza destas pastagens, que possibilitam a existência de diversas espécies-presas de grandes predadores, é possível encontrar na região predadores a caçar nestas pastagens. De uma maneira geral a evolução destas populações dá-nos esperança para o futuro da conservação dos recursos naturais. As grandes águias são hoje um valor natural importante desta região, e começa também a ser frequente encontrar abutres à procura de alimento, como o grifo e o grande abutre-preto. Estes necrófagos prestam-nos um importante serviço de limpeza do espaço rural.

 

Saiba quais as espécies que o António está a registar

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