Porto da Baleeira em dia de tempestade. Foto: Nuno Barros

Tempestades, bonanças e aves que não vemos todos os dias

Correspondentes

Nestes dias de tempestade, ver aves, só se for de dentro do carro. Mas estas são boas oportunidades para procurar espécies que não vemos todos os dias e que procuram refúgio em baías, portos de pesca e lagoas costeiras.

 

Uma tempestade com ventos fortes e chuvas torrenciais abateu-se sobre o Sudoeste na terceira semana de Outubro. Algumas aves marinhas em migração sobre o Atlântico foram apanhadas pela tormenta e encontraram um local de paragem temporário no porto da Baleeira, em Sagres.

Mal cheguei reparei num Ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla) a alimentar-se junto a algumas gaivotas. Esta é uma ave originária de zonas costeiras da tundra ártica que, por esta altura do ano, desce até às costas da Europa Central e Ilhas Britânicas. Não é todos os anos que se vê por cá, apesar de no ano passado termos tido bastantes no pico do Inverno.

 

Ganso-de-faces-pretas entre gaivotas. Foto: Nuno Barros

Ganso-de-faces-pretas entre gaivotas. Foto: Nuno Barros

 

Algumas das gaivotas que por lá estavam eram juvenis de Gaivota-de-Audouin (Larus audouinnii). Estas reproduzem-se na ilha Deserta (Ria Formosa) e costas Mediterrânicas, e não são de todo comuns aves pousadas em terra tão para Oeste.

Ali estavam também refugiadas um Famego (Larus canus) – gaivota invernante escassa -, cinco Garajaus-comuns (Sterna hirundo) e uma Gaivina-preta (Chlidonias niger). Estas espécies são migradores que estão de passagem a caminho das costas atlânticas africanas. Fora da época de nidificação é raro vê-las “em terra”. Mas se as virmos, o mais provável é serem aves cansadas após tempestades.

Chovia copiosamente. Os meus binóculos e máquina fotográfica escorriam água. Um Guarda-rios (Alcedo athis) abrigava-se debaixo de um pontão.

Mas a estrela da companhia não estava lá. De manhã, alguns observadores tinham detectado no porto um Garajau-bengalense (Sterna bengalensis). Este elegante garajau de bico laranja cria nas costas da Líbia e inverna na África Ocidental. Neste século conhecem-se certamente menos de dez registos em Portugal. Eu nunca tinha visto nenhum. Fui para a lagoa do Martinhal, molhado e rabugento, com esperança de o encontrar.

 

Lado de fora do porto da Baleeira. Foto: Nuno Barros

Lado de fora do porto da Baleeira. Foto: Nuno Barros

 

No Martinhal o cenário era idêntico. Abrigavam-se aqui mais de 20 Gaivinas-pretas e cinco Garajaus-comuns, duas Gaivotas-de-cabeça-preta (Larus melanocephalus), 15 Guinchos (Larus ridibundus) e 13 Colhereiros (Platalea leucorodia) – a maior concentração que já tinha visto nesta parca lagoa salgada. Um chasco-cinzento (Oenanthe oenenthe) saltitava à cata de insectos, indiferente à intempérie.

Nada de Garajau-bengalense. Enfim…

O dia seguinte amanheceu limpo. À tarde regressei ao Martinhal. Com o dissipar da tempestade, tudo tinha mudado. Estava sol e havia libélulas por todo o lado – especialmente da espécie Sympectrum fozcolombii, que passa por Sagres aos milhares. Nos arbustos, alguns pequenos migradores tardios como um Rouxinol-pequeno-dos-caniços (Acrocephalus scirpaceus) e um Papa-moscas-preto (Fycedula hypoleuca), assim como alguns invernantes como Piscos-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) e Felosinhas-comuns (Phylloscopus collybita). Pousada numa pedra junto à margem, uma Alvéola-cinzenta (Motacilla cinerea) esvoaçava em busca de insectos. Das 23 Gaivinas-pretas que vi ontem sobravam duas e dos Colhereiros apenas um. Garajaus e Gaivotas-de-cabeça-preta nem vê-los.

 

Gaivina-preta, Martinhal. Foto: Nuno Barros

Gaivina-preta, Martinhal. Foto: Nuno Barros

 

A Cabranosa estava à espera. Decidi pôr de lado os ímpetos de caçador-recolector de espécies observadas e reforçar os de observador atento às maravilhas do mundo natural, independentemente do seu grau de raridade. A verdade é que este Outono ainda não tinha visto Grifos (Gyps fulvus) nem Milhafre-reais (Milvus milvus) e estava na cara (e no ar) que a tarde na Cabranosa poderia trazer bandos de ambas ou, pelo menos, uma das espécies. Além disso, esta questão das listas confesso que não me faz bem…

Assim que cheguei ao topo da mítica colina, logo me perguntaram os observadores de serviço se já tinha visto o garajau, pois já várias pessoas o tinham encontrado de novo durante a manhã. Respirei fundo e afirmei que não, que se a ave estivesse disposta a tal, lá ficaria à minha espera mais um pouco.

Mas como seria de esperar, a Cabranosa não desiludiu. No mundo dos passeriformes, a colina é agora dominada pelas Felosinhas-comum, Alvéolas-brancas (Motacilla alba) e Petinhas-dos-prados (Anthus pratensis). Há andorinhas no ar, mas são Andorinhas-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris), uma espécie que pode ser vista em Portugal durante todo o ano, mas que passa o Inverno em regiões mais litorais. Ainda havia migradores tardios, como Rabiruivos-de-testa-branca (Phoenicurus phoenicurus), Felosas-musicais (Phylloscopus trochilus), um Papa-amoras (Sylvia communis) e um Torcicolo (Jynx torquilla) – esse estranho e mimético pica-pau migrador, para mim uma das mais bonitas aves da nossa avifauna. Havia também um Rabirruivo-preto (Phoenicurus ochrurus) da subespécie gibraltariensis, migrador recém-chegado que nesta altura se junta aos nossos residentes P.o. aterrimus – mais pretos e contrastados.

A dada altura decidi afastar-me para o pinhal pois havia algo que queria procurar. Queria encontrar e fotogravar a larva de Borboleta-caveira (Acherontia atropos), um ser impressionante que se desenvolve escondido entre os ramos do Tomateiro-do-diabo (Solanum linnaeanum). Esta borboleta nocturna deve o seu nome ao padrão no seu dorso, que faz lembrar um caveira.

 

Lagarta de Borboleta-caveira. Foto: Nuno Barros

Lagarta de Borboleta-caveira. Foto: Nuno Barros

 

Alguns arbustos depois, deparei-me com um que acolhia pelo menos seis destas enormes lagartas (algumas com mais de 10 cm e mais grossas que o meu polegar). Um ser que tem tanto de belo como de alienígena.

No caminho de volta para o ponto de observação, a formosa Scilla autumnnallis, uma pequena flor arroxeada que rompe o verde dos campos por esta altura, ponteava o solo molhado.

 

Scilla autumnallis. Foto: Nuno Barros

Scilla autumnallis. Foto: Nuno Barros

 

Tinha de novo os olhos postos no céu e havia, de facto, passagem de planadoras. Um bando de 14 Milhafres-reais e, para me encher o ego, um bando de Grifos. No total eram 42 aves em térmica, com um Abutre-do-Egipto (Neophron percnopterus) lá pelo meio. Confesso que fiquei emocionado. Ver Grifos em Sagres, em Outubro, é relativamente banal, e um bando com menos de 100 aves não é nada de mais. Mas tinha saudades de ver aqueles enormes vultos às voltas e sentir aquele calafrio migratório que tantas lembranças me traz. O bando alongou e baixou. No dia seguinte muitos mais viriam.

Além destas aves passaram por mim, em cerca de duas horas, mais três Águias-cobreiras (Circaetus gallicus), três Águias-calçadas (Aquila pennata), três Águias-d’asa-redonda (Buteo buteo), um Tartaranhão-azulado (Circus cyaneus), duas Cegonhas-brancas (Ciconia ciconia) – as minhas primeiras do Outono em Sagres – e cinco Peneireiros (Falco tinnunculus).

 

Bando de Grifos ao fundo. Foto: Nuno Barros

Bando de Grifos ao fundo. Foto: Nuno Barros

 

O silêncio do fim da tarde aproximava-se e sentia o vento e o frio a puxar para Novembro. Fui avisado que devia ir tentar ver o garajau. Desta vez assenti, tinham razão.

Cheguei ao porto, estacionei o carro e levei os binóculos aos olhos. Nesse momento tocou-me o telemóvel e este era um telefonema que não podia esperar. O sol estava a baixar. Pensei: ou o vejo a passar à minha frente enquanto falo, ou lá se foi o garajau outra vez. Atendi. E um minuto depois ali estava ele a passar à minha frente, a voar para a outra ponta do porto. Mas de certeza que não iria conseguir montar o telescópio só com uma mão. Conformei-me em focar a atenção no telefonema. No final confessei ao interlocutor – por sinal um observador bem mais experiente que eu – o que se tinha passado, e que ia agora tentar relocalizar ave. Houve risos condescendentes.

Passou quase meia-hora e nem vislumbre da ave. Corri o porto de pesca entretanto já na companhia de dois outros observadores que chegaram com o mesmo propósito. Tinha visto a ave, mas apenas por breves instantes, em voo, e através do vidro do carro. Queria mais. Finalmente descobrimo-la pousada numa bóia perto da extremidade da barra, na companhia de um Garajau-de-bico-preto (Sterna sandvicensis). Observei a ave pelo telescópio, mantive a minha distância, e tirei apenas a foto possível. Porquê não sei. Graciosa e peculiar, era a minha espécie #310 para Portugal Continental. O caçador-recolector em mim estava apaziguado e o observador satisfeito, por lhe ter dado primazia.

 

Garajau-bengalense com Garajau-de-bico-preto. Foto: Nuno Barros

Garajau-bengalense com Garajau-de-bico-preto. Foto: Nuno Barros