Chegou o tempo da chuva. Com o outono encerrou-se mais uma “época de incêndios”. A problemática da Floresta, muita acesa durante o verão, vai saindo de cena. Passado o sobressalto, voltou a normalidade.

 

Nada poderia ser mais errado, nada poderia ser mais enganador. Por várias razões. A que mais sobressai é a questão da Floresta não se resumir à tragédia dos grandes fogos. Estes são “apenas” a consequência mais visível, a mais grave nos tempos que correm, do estado deplorável em que se encontra o coberto vegetal em Portugal.

Os incêndios são tanto piores quanto maior é a ausência de uma verdadeira floresta. Por isso, e também devido às alterações climáticas, são cada vez maiores e devastadores. Como o debate se tem focado essencialmente na argumentação do que fazer para controlar as chamas, quando os efeitos destas deixam de abrir os noticiários, o assunto morre e só ressuscitará no início de uma nova “época”.

 

Foto: Miguel Dantas da Gama

 

Errado e enganador também, porque os fogos não cessam com o outono. Fomentados pelos que defendem as queimadas e os fogos controlados como forma de evitar males maiores nos meses de estio, por todo o lado se continuará a queimar, durante o outono e o inverno, incessantemente, não apenas com o objectivo de eliminar excedentes resultantes de podas, mondas, limpezas e outras actividades agrícolas. Principalmente em espaços de montanha, devastam-se grandes extensões cobertas de mato, consequência também de outros fogos, eliminando-se a regeneração natural de espécies arbóreas nativas, fomentando-se a expansão precisamente daquilo que se pretende controlar e impedindo que a natureza recupere e desta forma contrarie a manutenção de um ciclo vicioso de destruição no qual os incêndios são a parte mais visível.

Errado e enganador porque, ao contrário do que o Estado tem pretendido fazer crer, nada de substancial mudou entre 2017 e 2018 no que à situação da floresta e dos fogos diz respeito. Este ano, felizmente, não houve vítimas mortais devido ao êxodo forçado promovido pelas autoridades nos “teatros de operações”. Mas os grandes incêndios voltaram. A devastação em Monchique não fica atrás da de Pedrogão e dos outros fogos de 2017. E o panorama só não foi pior, porque o verão foi curto e mais de feição.

Errado e enganador também porque a forma avassaladora como o eucalipto (e o pinheiro-bravo) tomou conta do nosso território reflecte uma calamidade que continua a crescer. Não apenas com os novos eucaliptos que se plantam mas também com os eucaliptos que se continuam a manter e cujo crescimento é acelerado pelos incêndios. O gesto presidencial recente de arrancar eucaliptos regenerados por esta via, foi simbólico, mas devia servir de exemplo e seguido por quem não se conforma com a desgraça que se abateu no nosso país. E esta é apenas uma das muitas vias com que se tem de combater o flagelo.

 

Foto: Sandid/Pixabay

 

A exploração do eucalipto (e do pinheiro-bravo) tal como é feita em Portugal, é indefensável, mesmo sob o ponto de vista económico. A vantagem de alguns não se pode sobrepor ao prejuízo de todos. Os milhões de divisas gerados pela indústria da celulose, não cobrem as perdas na área da produção de madeiras de qualidade e dos seus produtos derivados, os postos de trabalho que da sua exploração e transformação poderiam advir, as divisas despendidas na importação desta madeira que deixamos de ter, os custos ambientais devidos à degradação dos solos, da água e do ar, a perda de biodiversidade, os efeitos sobre a paisagem e consequentemente sobre o turismo e sobretudo sobre o bem-estar dos cidadãos. De dimensão extrema são os custos da desertificação interior que também tem muito a ver com a perda da floresta e os encargos bem quantificáveis da recuperação dos bens materiais destruídos pelos fogos. Finalmente, as vítimas humanas traduzem danos incomensuráveis. Não teriam ocorrido tamanhas tragédias se o nosso território não fosse em grande parte uma infindável e deprimente mancha de eucaliptos.

Mas mesmo que o balanço económico fosse favorável à indústria da pasta do papel, a dimensão desta actividade continuaria a ser indefensável. Outros negócios baseados em espécies vegetais seriam mais rentáveis, mas não são legalmente autorizados pelos danos que causariam. Esta é a questão fundamental. Reconhecer, sem a interferência dos lóbis, o desastre que se foi consentindo. Não é necessário ser-se sensível à causa ecológica. No mundo actual em que as viagens além-fronteiras se tornaram banais, é fácil reconhecer que algo de muito errado cobre o solo, assola a paisagem quando se entra em território português.

 

Foto: Miguel Dantas da Gama

 

Impõe-se contrariar o discurso que defende que o problema não são as espécies mas sim a “gestão” da “floresta” que temos. As medidas a empreender não podem ter como objectivo apenas o controlo dos grandes incêndios. Urge fazer regressar a floresta que há muito não temos, pondo termo à gestão das arborizações danosas que se pretendem manter.

Mas para combater o erro e o engano em que estamos mergulhados, só um movimento generalizado da sociedade civil poderá impor aos responsáveis políticos condições de fundo para que esta mudança se inicie. Ela afigura-se inevitável. A questão é saber quantos mais Pedrogãos e Monchiques serão precisos para que seja despoletada?