Quem busca o lado mais bravio da natureza nos mais espectaculares redutos de montanha, quem se deixa deslumbrar com o poder, a beleza, a imponência de um predador de topo, acaba por se confrontar com um mundo de vida selvagem grandioso e com as suas águias-reais. Costumo dizer, porque o sinto. Para mim, há dois tipos de dias. Os com as águias-reais e os outros.

Na instabilidade que tem caracterizado o tempo desta primavera envergonhada lá vão surgindo uns dias mais quentes. Como hoje, em que o calor é mais sentido dentro do vale emparedado por escarpas de fortes pendentes.

Sem vento, tudo permanece imóvel. Mas tudo parece mover-se devido ao desvio de luz provocado pelo ar aquecido e intensificado quando a paisagem é percorrida através das lentes de um potente binóculo.

Após duas longas horas de espera sob a rede de camuflagem, eis que surge uma sombra negra, evoluindo rapidamente sobre o relevo parcialmente arborizado da base da encosta.

O coração bate mais forte.

Ilustração: Miguel Dantas da Gama

Com o sol a pique, um rápido movimento ascendente do binóculo coloca a origem da sombra no centro do foco. O corpo da ave que se anunciou desta forma é também muito escuro, mas não todo. Um tom dourado na cabeça sobressai, lembrando de imediato por que razão os ingleses denominam golden eagle à maior das nossas águias.

A ave traz suspenso pelas garras um grande pedaço ensanguentado de uma presa capturada há pouco. Dirige-se para o ninho onde um aguioto com cerca de três semanas a aguarda. Há dez dias esta cria ainda partilhava o abrigo na parede alcantilada com o irmão mais novo. Mas, como acontece frequentemente, o facto de ter nascido uns dias mais cedo deu-lhe a vantagem no processo de cainismo que as águias praticam, em que o irmão mais velho aniquila a concorrência e monopoliza a comida e a atenção dos progenitores. 

A outra águia adulta, imponente, também sobrevoa o vale mas a grande altura. Vigia o coração do território e aguarda que a parceira alimente o ainda muito pequeno aguioto, o que ela faz despedaçando a carne em pequenos fragmentos que lhe coloca no bico.

Pouco depois partem as duas para nova caçada, num processo conjunto por vezes muito elaborado, que lhes permite abater presas muito maiores que elas próprias.

É uma fase de grande movimentação no longo ciclo de reprodução da águia-real. Este começou entre dezembro e janeiro com as exuberantes paradas nupciais. Nessa altura, é principalmente o macho que se entrega a voos acrobáticos e a algumas façanhas com que impressiona a fêmea. Das suas garras deixa cair um pau para logo a seguir o recapturar ainda em voo! A fêmea assiste desde um poiso altaneiro na montanha.

Ilustração: Miguel Dantas da Gama

É a época em que é mais provável ouvir o canto desta ave de rapina, sempre raro, algo parecido com o latido de um cachorro. 

Numa fase avançada deste período de cortejo, os dois membros da parelha, que permanecem fiéis até à morte de um deles, entregam-se à reparação de um ou outro dos vários ninhos que, ao longo da vida, vão construindo num território que defendem com agressividade, principalmente contra indivíduos intrusos da mesma espécie.

A escolha do ninho para nidificar é em cada ano condicionada por diversos factores como a pressão humana ou o grau de sujeição a parasitas. Situam-se em zonas inacessíveis de escarpas rochosas, reentrâncias ou parapeitos criteriosamente escolhidos também pela proteção que asseguram contra os extremos climatéricos. A chuva, a neve, o sol, o calor.

Quando as escarpas não existem ou escasseiam, também nidificam em grandes árvores. É o que acontece nas Highlands escocesas, onde os ninhos se encontram em grandes exemplares de pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris).

Quando pousada, o que sobressai na águia-real é a sua cabeça dourada, proeminente, o bico ganchoso e umas garras poderosas, a sua arma letal.

Ilustração: Miguel Dantas da Gama

Estas águias podem permanecer no mesmo local horas a fio. Já testemunhei manterem-se num poiso estratégico durante mais de cinco horas. Muitas vezes dissimuladas, quem não lhes conhecer as rotinas pode regressar da serra sem as ter visto mesmo estando bem enfiado nos seus territórios e até com linha de vista para o local onde elas permaneceram pousadas.

 Em voo, evidencia-se uma enorme envergadura de asas com as pontas (dedos) arrebitadas durante os prolongados movimentos circulares em que evoluem sobre as correntes térmicas que as fazem ganhar altura sem esforço. A velocidade que atingem nos voos picados, precipitando-se sobre as presas ou em impressionantes trajectórias sinusoidais executadas em claras manifestações de territorialidade, só é comparável à dos falcões-peregrinos. 

No que diz respeito à sua dieta alimentar, as águias-reais são generalistas, adaptando-se ao que estiver disponível em cada região da sua vasta área de distribuição por grande parte do hemisfério norte.

Nas montanhas da Ásia Central são ainda hoje utilizadas para capturar lobos e raposas. Das terras frias do Canadá, às serras do norte do México, em grande parte do território norte-americano, mas também em muitas das montanhas europeias, na extrema cordilheira dos Himalaias ou no Japão, grandes ungulados, crias de corços e de javalis, coelhos, perdizes e outras aves de grande e médio porte, são presas da águia-real, uma ave pouco esquisita que também é necrófaga.

No Alto Sabor já encontrei no topo dos penhascos onde despedaçam as suas presas, restos de carapaças de cágados-comuns (Mauremys leprosa), confirmando que das grandes alturas em que normalmente se avistam, as águias descem ao fundo das ravinas, até junto das linhas de água. 

Carapaça de cágado-comum e restos de cabrito doméstico em poiso de águia-real. Foto: Miguel Dantas da Gama

Em Portugal cerca de 50 parelhas reprodutoras sobrevivem em vários núcleos populacionais de regiões interiores fronteiriças, o maior dos quais no nordeste transmontano.

Em termos de longevidade uma águia-real pode viver mais de 20 anos.

Ao cair da tarde abandono o meu hide após um longo dia em que as águias voltaram mais duas vezes, sempre rápidas na ação, ágeis e silenciosas no movimento.

O meu seguimento em cada jornada termina com uma visita breve a um dos poisos, se os consegui localizar no início de cada campanha anual.

Hoje esta passagem foi particularmente proveitosa. Para lá das penas, dejectos e plumadas – aglomerados de ossos, pelos e penas que as águias não digerem e que por isso regurgitam, preciosos elementos de estudo da sua dieta – encontrei a cabeça de «Abel», morto pelo seu irmão «Caim» (daí a designação de cainismo, numa alusão ao episódio bíblico).

A cabeça de Abel trazida do ninho por uma das águias progenitoras. Foto: Miguel Dantas da Gama

 Quem busca o lado mais bravio da natureza nos mais espectaculares redutos de montanha, quem se deixa deslumbrar com o poder, a beleza, a imponência de um predador de topo, acaba por se confrontar com um mundo de vida selvagem grandioso e com as suas águias-reais. Costumo dizer, porque o sinto. Para mim, há dois tipos de dias. Os com as águias-reais e os outros. 

Daqui a umas semanas, lá para finais de junho, voltarei aqui. Nessa altura conto seguir os primeiros voos deste Caim de 2019.


UMA LONGA CAMINHADA COM AS ÁGUIAS-REAIS DA PENEDA-GERÊS

É fruto de uma paixão pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês e por uma espécie selvagem da sua fauna, a águia-real. Num álbum de grande formato, encadernado, profusamente ilustrado com fotografias a cores e desenhos a grafite, as águias-reais surgem retratadas nos (seus) cenários mais emblemáticos. A obra suporta-se no trabalho de campo desenvolvido ao longo de 25 anos, nas notas recolhidas em centenas de caminhadas pelo Parque Nacional. Dados sobre a evolução da espécie neste território, sobre as causas que ditaram a sua perda e propostas para que no futuro se possa tê-la de volta de uma forma sustentada. Visando igualmente a divulgação e a consequente valorização do património natural do nosso único parque nacional esta edição de 248 páginas inclui uma apresentação da espécie Aquila chrysaetos, detalhando os dados relevantes da sua biologia. 

Mais informação em www.fapas.pt