Finalmente o dia mais esperado. A «Strict Reserve» com 10.500 hectares é o coração do Parque Nacional de Bialowiesa (Polónia), o sector intocado pelo homem. A área protegida polaca, por sua vez, insere-se nos cerca de 150.000 hectares de floresta caducifólia mista, a maior parte dos quais pertencem à vizinha Bielorussia. Trata-se de uma das maiores e melhores manchas florestais da Europa.

 

Atravessamos uma sugestiva porta de madeira e entramos noutro mundo.

 

Entrada da «Strict Reserve» de Bialowiesa. Foto: Miguel Dantas da Gama

 

A experiência já ocorreu há mais de uma década, mas porque a floresta de Bialowiesa tem sido notícia nos últimos tempos e também porque a «floresta» portuguesa tem estado na ordem do dia, ambas pelas piores razões, faz sentido recuar no tempo, evidenciando como os dois temas convergem.

Recuar no tempo. Foi precisamente a sensação que tivemos logo que transpusemos o portal de acesso. A visita à «Strict Reserve» tem de ser previamente marcada e só se faz com um guia. Nesse dia, eramos só nós, três portugueses que tiveram a sorte de serem acompanhados por Arkadiusa Szymura, o próprio director do museu do Parque Nacional.

A luz reduz-se, o arvoredo agiganta-se. Sentimo-nos cada vez mais diminutos. Algo de estranho trespassa-nos logo no início de uma visita que vai durar mais de seis horas.

O abate da floresta de Bialowiesa tem merecido a oposição da Comunidade Europeia que, com a ameaça de sanções, pressiona o Governo polaco para que não seja destruído algo tão importante para o património natural da Europa.

Por cá, as condições climatéricas continuam a ditar o grau da calamidade que em cada ano se abate sobre o nosso território. Uma primavera e um início de verão especialmente favoráveis à contenção dos fogos, têm também arredado da discussão pública a inadiável recuperação da floresta portuguesa que assim vai continuando por fazer-se.

 

Foto: Miguel Dantas da Gama

 

A incursão por Bialowiesa evidencia o muito que em Portugal se alterou e destruiu, o quanto está por executar e que vai muito para além da imprescindível redução drástica das monoculturas de eucaliptos e de pinheiros-bravos e do controlo de infestantes. A floresta natural tem que voltar. E voltar a dominar.

O nosso guia também vai munido de manuais de campo. Mas nem eles conseguem acalmar a nossa perplexidade quando confirmamos que muitas das árvores com trinta e quarenta metros de altura, cerca de seis de perímetro, são os «mesmos» carvalhos-alvarinhos (Quercus robur) que deviam prevalecer no coberto vegetal de, pelo menos, todo o noroeste de Portugal. Nunca tínhamos visto semelhante grandiosidade nem mesmo nos redutos «selvagens» do nosso Parque Nacional da Peneda-Gerês. O que seria expectável.

À dor de alma, junta-se uma persistente dor de pescoço. Temos que caminhar com a cabeça bem erguida se queremos apreciar a grandeza do bosque. Tão enormes como os centenários carvalhos são os pinheiros-silvestres (Pinus sylvestris) e os freixos (Fraxinus excelsior). Misturam-se com abetos, faias, tílias, amieiros, bétulas, choupos, bordos…

Ao longo do dia vamos percorrendo os mesmos trilhos dos muitos cientistas que acorrem a Bialowiesa para estudar as associações vegetais primitivas que se foram perdendo por todo o continente. Aliviamos o pescoço porque há também muito para ver mais perto de nós. E para sentir. Os aromas que emanam dos charcos são muito intensos, as picadas dos omnipresentes insectos também. Mas não o suficiente para desviar a nossa atenção do essencial.

O nosso guia alerta-nos para tudo o que nos rodeia com um empenho e um entusiasmo contagiantes, a que aderimos tão rapidamente quanto a roupa ao nosso corpo, tal o grau de humidade misturado com calor, que nos envolve. A vegetação arbustiva é variada, a herbácea compreensivelmente avassaladora, muita dela saborosa. O nosso guia vai-nos dando a provar várias espécies à medida que progredimos.

 

Foto: Miguel Dantas da Gama

 

Ele também canta e assobia. Várias aves acusam o chamamento. E pouco a pouco sucedem-se avistamentos únicos. Num bosque tão extraordinário, ocorrem espécies raras. Pássaros carpinteiros que só conhecemos nos livros, vão-se cruzando no nosso caminho, alimentando-se nos enormes troncos das árvores que apodrecem no solo, imersas em densas camadas de musgos e líquenes. Nunca mais esquecerei os avistamentos de pica-pau-mediano, pica-pau-tridáctilo e de pica-pau-de-dorso-branco. Nesse dia voltei a ver o pica-pau-preto.

Um coberto vegetal natural maduro, pouco ou nada alterado pelo homem, exponencia o sustento de populações de vida selvagem. Os números de Bialowiesa são impressionantes. Mais de setecentas plantas vasculares, quase trinta de porte arbóreo, trezentos líquenes, dois mil e quinhentos musgos. O bisonte-europeu regressou a este mundo em 1952, depois de extinto em 1919. Lobos e linces-boreais (Linx linx) evidenciam-se entre os grandes carnívoros. Duzentas e cinquenta espécies de aves e sete mil de insectos, mil e quinhentas borboletas, também levaram a que a Unesco reconhecesse aqui uma reserva mundial da biosfera em 1977.

Nas «lowlands plains» de Bialowiesa subsiste a floresta caducifólia mista que outrora ia dos Urais ao Atlântico e que urge preservar, contrariando os interesses económicos de sempre.

Muita chuva e trovoada impediram que se concretizasse a promessa de Arkadiusa Szymura de que teríamos também uma noite invulgar. A audição de mocho de Tengmalm (Aegolius funereus), uma preciosidade que também aqui ocorre.

A mesma chuva que por cá faz esquecer que as tragédias de 2017 podem repetir-se. Porque no essencial nada mudou.