A caminhada inicia-se no cruzamento da estrada que me trouxe até aqui, com a pista florestal em terra batida que se dirige para o cimo da serra. As previsões apontam para um dia com algum sol e temperaturas um pouco elevadas para a época.

 

Acrescento que por aqui vai haver muita humidade a elevar-se no ar, depois de uma semana de chuva intensa. Da aldeia que ficou para trás, situada um pouco mais abaixo na mesma encosta, chega a algazarra do rebanho de cabras, ainda retido no curral.

O dia nasceu há pouco mas já se ouvem gralhas-pretas e um gaio mais distante. Verifico o altímetro para um registo da evolução no terreno e arranco para um percurso inicial, sem história, de cerca de dois quilómetros, pelo estradão.

Abandono-o logo a seguir para atacar uma ladeira mais íngreme. O esforço do corta-mato é compensado com as primeiras vistas amplas da serra que, para nascente, cresce sempre, principalmente em altura. Progrido em espaço aberto, numa imensidão de mato rasteiro, sobre o solo fortemente lajeado por inúmeros afloramentos graníticos. Os cartaxos-comuns vão sinalizando a minha presença, empoleirados no topo do tojo. Os juvenis do ano são os mais temerários e curiosos. Também há petinhas e a dada altura ouço perdizes.

 

troncos de árvores com musgo

 

Atingido um primeiro patamar na encosta, corrijo a rota, para alcançar o «Trilho da Raposa Morta». É um caminho de pé-posto, nalguns troços assente numa calçada antiga que outrora facilitava o acesso aos pequenos currais onde os pastores pernoitavam para guardar os rebanhos.

O nome por que a identifico ficou-lhe desde quando há muitos anos encontrei um destes astutos animais mergulhado numa poça, parcialmente gelada, de uma das inúmeras corgas que a senda atravessa.

Avanço a meia encosta sobre um vale escavado, no fundo do qual correm, em sentido contrário, as águas tumultuosas de um ribeiro. A vegetação continua a ser dominada pelos matos de tojo e carqueja a que pontualmente se juntam manchas de giestas, mais altas e densas.

 

tronco de árvore

 

O insistente fogo dos pastores explica a pobreza e a monotonia do coberto vegetal. Mas o relevo compensa. A serra agiganta-se, o vale afunila-se à medida que me aproximo de uma discreta represa que me permite atravessar o ribeiro. A escassos centímetros da tona de água, uma toutinegra-de-barrete ficou presa num arbusto, por uma asa. Cheguei tarde para lhe valer. A proximidade da água permite a sobrevivência de algumas pereiras-bravas e de salgueiros dispersos.

Já na margem direita, depois de vencida uma vereda de inclinação acentuada, socorro-me de um carreiro aberto pelos garranos que pastam abandonados num regime de semi-liberdade. O solo está atapetado por fetos em que o castanho é já a cor que neles predomina. Atravessado um dos fios de água que alimentam o ribeiro, cruzo um denso piornal com o solo revolvido, sinal da presença assídua dos javalis.

 

pequenas árvores e arbustos

 

Depois há que vencer mais uma encosta de forte pendente, mais mato e afloramentos rochosos, até alcançar uma enorme planura que medeia o vale que ficou para trás e a grande ravina por onde corre o rio principal e para onde convergem todas as águas desta área da serra.

Três «fragos» de lobo confirmam limites do território da alcateia que aqui reside. Os cumes a nascente estão descobertos, mas do fundo do vale onde me vou enfiar, emergem vagas de uma neblina que depressa se apodera desta encosta.

«Adeus civilização» é o que costumo pensar sempre que inicio esta fase da jornada. Uma fantasia, alimentada pelo desejo de umas horas de isolamento na companhia da natureza bravia. Mas é do melhor que se pode aspirar em Portugal. E abstraindo-me do constante vai e vem dos aviões a jacto, até consigo desfrutar dessa boa e rara solidão.

A vegetação é agora mais interessante. E sempre que o trilho, progressivamente a descer para o fundo do vale, atravessa uma das corgas das diversas escorrências que correm apressadas para alcançar o rio, os carvalhos são maiores, mais antigos, mais imponentes. O tom dourado que agora predomina nas suas copas contrasta com as paredes rochosas que também os protegem e com o verde brilhante de uma outra relíquia florestal.

 

Folhagem de azevinho

 

Primeiro surgem em manchas densas de porte arbustivo sob os carvalhos maiores. A neblina que desta vez se eleva do fundo da ravina torna ainda mais surreal o surgimento dos exemplares centenários. Começam por ser enormes manchas negras verticais mas rapidamente ganham os contornos de troncos de azevinhos valiosos. Sob as suas densas copas abrigam-se animais e plantas. Tanto no verão, quando o sol se torna implacável, como no inverno, quando a estas altitudes predominam a neve e o gelo um pouco por toda a serra. Por aqui, com tempo e paciência, observam-se ou escutam-se lobos, corços, javalis, raposas, gatos-bravos, fuinhas, víboras… 

 

ramo de azevinho

 

Estas árvores acossadas pelo fogo deviam ser veneradas, classificadas uma a uma e o seu «habitat» preservado, respeitando a legislação aprovada para áreas classificadas como esta onde património raro, especialmente valioso, sobrevive. O rio está muito próximo e nele as maiores atrações são as toupeiras-de-água e as lontras.

No regresso, já na planura entre os dois vales aonde «retorno à civilização», o céu está parcialmente descoberto. Uma cor de fogo escapa-se por entre as nuvens azuladas do fim da tarde. É outro bom momento do dia para grandes encontros selvagens. Nas três horas que me separam do fim de mais uma jornada de montanha há que apurar a vista e ficar à escuta. A qualquer momento a magia acontece!