Nos pauis, às narcejas

Narceja-comum. Foto: Davidvraju/Wiki Commons

Todos os meses, o projecto “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”, ligado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá-lhe a conhecer as paisagens e a biodiversidade que povoam as obras literárias de escritores portugueses.

 

“Esta manhã, a caçar narcejas enterrado nas lavradas até à barriga, é que percebi inteiramente a serenidade do camponês quando a morte chega. Sepultado já ele anda desde que nasceu.” (Coimbra, 13 de Fevereiro de 1949)

“Todo o dia metido nos pauis, às narcejas. Valas, charcos, lama. Mas ao menos sujei-me num meio natural…” (Coimbra, 10 de Fevereiro de 1959)

Miguel Torga, Diário IV e Diário VIII

 

A caça desempenha um papel central na vida e obra de Miguel Torga, pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha.

Longe do mundo letrado e ‘racional’, em plena harmonia e comunhão com a natureza e a “serenidade do camponês”, este escritor e médico transmontano encontra na caça um momento de regeneração e libertação.

Caçar, diz Torga numa entrada do seu Diário (volume IX), é “o único tranquilizante que me faz algum bem”.

Através da caça, contacta diretamente com a natureza, com a terra – o ventre telúrico de onde emana toda a vida. É neste meio natural que se suja, que se encontra, que se revitaliza. Como refere em A Criação do Mundo, “o acto venatório era para os meus sentidos o regresso à pureza original (…) [em] secreta comunhão com a sacralidade da natureza”.

Na obra autobiográfica Diário (16 volumes publicados entre 1941 e 1993), de onde foram retirados os excertos em epígrafe, Miguel Torga menciona e descreve vários momentos venatórios e as paisagens onde estes ocorrem, espalhadas um pouco por todo o país. Destacam-se as descrições de caça em serras transmontanas, de onde é oriundo, e nos campos alagados do Baixo Mondego. É nestes últimos que caça narcejas, “enterrado nas lavradas até à barriga”.

Em Portugal continental, a população nidificante de narcejas é muito reduzida, circunscrevendo-se ao noroeste do país.

Com a chegada das migratórias no Outono e Inverno, estas pequenas aves de bico longo tornam-se mais frequentes. Ocorrem de norte a sul, sobretudo em zonas húmidas, como os pauis, valas, charcos e lameiros a que Miguel Torga alude.

Numa entrada do seu Diário (volume V), Torga descreve estas zonas como “uma fétida placenta”, providenciando um “protoplasma onde as narcejas espetem o bico e sorvam logo como numa teta”. É aqui, neste caso perante as narcejas, que o dedo do escritor-caçador prime o gatilho, “mais amorosamente do que mortalmente”, como a personagem principal do conto torguiano O Caçador. É aqui que se encontra com as forças elementares do mundo.

 

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Filipa Soares pertence ao grupo de investigadores ligados ao “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”. Esta é a segunda crónica da série “Escrita com Asas”.