Por estes dias o ribeiro, entalado na estreita corga onde há duas horas me encontro, leva mais água, faz-se ouvir a maior distância.

 

Um, dois, três estalidos secos sucedem-se repentinamente, precedendo o ruído crescente, um pouco assustador, do esgaçar de um grande braço do velho carvalho. A árvore centenária, há muito morta, completamente seca e bruscamente mais desequilibrada pela perda deste seu grande braço, estremece uma primeira vez. A cascalheira sobre o colo do enorme tronco também se move. Até que o ruído da pequena cascata que o carvalho sempre viu fluir a escassos metros do pé, volta a impor-se.

Pressente-se uma situação de instabilidade. Aquele sinal soou como um aviso.

Apresso-me a sair do local. Mas mal tenho tempo de me afastar uma dezena de metros esgueirando-me pelos seixos escorregadios parcialmente submersos no limite de uma das margens.

Também agravado pelo peso do gelo que a neve de há dias gerou e se acumulou sobre ele, o esforço torna-se insuportável para o grandioso, outrora esplendoroso carvalho. O grande fuste não quebra.

A árvore começa a inclinar-se, levanta todas as pedras em torno da sua base e abate-se com fragor sobre os maiores pedregulhos do curso de água.

 

 

As paredes da ravina ampliam um estrondo enorme, irrompem projeções de lascas de madeira e uma nuvem de pó e de serrim misturados eleva-se no ar.

Do meio deste efervescente cenário espanta-se uma fuinha, quem sabe se não seria uma marta, que provavelmente não se mostraria, se tão estrondoso acontecimento não tivesse ocorrido. Um piar forte também assinala o evento.

Uns minutos depois tudo está terminado. Para esta imponente árvore, maior entre as suas vizinhas, inicia-se agora um novo e derradeiro desempenho. Igualmente importante. Caída meia fora, meia dentro da água, vai decompor-se mais rapidamente, vai continuar a suportar vida, a alimentar um conjunto variado de espécies de fauna e flora. Dará abrigo a plantas e animais selvagens até se perder por completo.

Por estes dias, de um inverno que tem feito recordar tempos antigos, faz muito frio. Nas últimas semanas já choveu abundantemente. Uma ventania forte apressou a caída da folhagem no arvoredo caducifólio e alguma neve adensou o gelo que agora persiste por mais tempo.

Corços, veados e mesmo as cabras-montês movimentam-se menos, resguardando-se a menores cotas, onde há mais alimento e melhor refúgio para enfrentarem as inclemências do tempo e as investidas dos predadores. Estes não têm outro remédio senão continuar a deambular pela serra em busca de presas incautas, enfraquecidas ou mesmo mortas.

Ainda esta manhã um lobo confirmou as suas longas travessias.

É também o tempo das grandes paradas nupciais das águias-reais. Se voam mais altas, mais distantes, vocalizam como em nenhuma outra época do ano. No céu podemos testemunhar as suas espectaculares acrobacias.

Até meados da primavera a fome atormenta os bichos selvagens que se mantêm activos nestes meses mais frios.

 

 

Mas entre eles, há quem tome providências em devido tempo. Os esquilos reduzem fortemente a sua actividade. E a algum alimento que encontram disponível nos bosques de coníferas, juntam os frutos secos que foram acumulando nos ninhos arbóreos em que passam grande parte deste tempo frio.

Outros, como os gaios e os pica-paus, vasculham os interstícios dos troncos maiores onde no outono passado entalaram bolotas e outros frutos a que agora também recorrem para se alimentar. Quando os encontram, o que nem sempre acontece. Por esquecimento, porque foram roubados por vizinhos de outras espécies, ou porque não fizeram o trabalho bem feito e os frutos se perderam no chão do bosque. Ou talvez não. As quedas significam uma perda para os entalhadores, mas podem ser um ganho para a natureza de que também dependem. Alguns destes frutos acabam por germinar dando origem a novas árvores, muitas vezes em locais onde dificilmente se disseminariam.

O inverno é um tempo de maior escassez de recursos para quem vive da natureza selvagem. Uma «pobreza» que também se manifesta na falta das cores que a montanha exibe noutras épocas do ano. Por estes dias quem as ostenta exuberantes, sobressai mais, por mais pequeno seja.

 

 

Crocus carpetanus

 

Hoje, um pisco-de-peito-ruivo no chão do trilho, uma ou outra flor de Crocus carpetanus e um pôr-do-sol típico de inverno foram talvez a parte mais colorida desta jornada de montanha.

Mas nem só com cor se regozija quem procura a montanha. Se atentos, há sempre motivos de interesse. E atenção é sempre desejável manter por estas paragens, nomeadamente para poder conviver com acontecimentos mais inesperados, como o de hoje, mais prováveis no inverno. Uma estação tão propícia quanto as outras para sair para o monte, para caminhar na natureza.

Muitas vezes revela-se mesmo a melhor.