Fotos: Miguel Dantas da Gama

Sinais de Outono

Dias com Vida Selvagem

Por estes dias a diversidade dos bosques naturais manifesta-se pela profusão de cores da sua folhagem.

É também um dos sinais de que chuva em quantidade pode estar a chegar, já que são dois acontecimentos que naturalmente convergem num mesmo tempo, no início de mais um outono.

E a chuva que tardava, voltou finalmente, pondo fim a uma seca prolongada em que o bosque foi sofrendo com a míngua de água nos ribeiros que o atravessam. A maior parte deles secaram, apenas nalgumas poças residuais os animais foram conseguindo saciar a sede. 

No Gerês, as grandes e recortadas folhas dos padreiros exibem um tom amarelo muito conspícuo, destacando-se numa paleta de cores progressivamente mais ampla à medida que o tempo avança. As faias que quase só por aqui ocorrem, ainda ensaiam a mudança extrema por que vão passar.

Faltava de facto a água para “puxar” os tons, extremar os contrastes, reavivar as plantas herbáceas, encharcar os musgos. 

Nestas semanas de alguma instabilidade e muitas mudanças, torna-se mais difícil surpreender um animal selvagem. O chão do bosque, dos trilhos sob a copa dos carvalhos está pejado de landes que estalam com vigor sob as nossas botas pesadas.

E este parece ser um bom ano de bolotas. Cachos densos de bagas muito vermelhas sobressaem na folhagem verde perene dos azevinhos. As pereiras conservam ainda o seu fruto. Medronhos, há-os em vários tons. No solo estão os mais maduros, de um vermelho intenso, nos medronheiros também, mas misturados com outros, ainda amarelados, ainda a amadurecer. Neles e no solo, abundam sinais que atestam o gosto que aves e mamíferos nutrem por este fruto. As bagas dos azereiros são agora negras como a noite, amargas como sempre e nos pilriteiros subsistem pilritos. 

As primeiras chuvas outonais como que puxam o lustro a todo o diversificado coberto vegetal. Nesta época do ano, a floresta autóctone, brilhante por natureza, torna-se exuberante como em nenhuma outra época do ano.

Mas o regresso em força da água, tem outros efeitos nos bosques e na montanha que os acolhe. Correndo com enorme vigor por leitos acidentados, despenha-se em ruidosas cascatas, outro factor que também dificulta escutar os animais que por aqui se movimentam na tentativa de acumular a maior quantidade de reservas que lhes permitam superar o inverno que já não tarda.

Deixando o fundo do vale, subindo por uma das suas encostas, ganha-se campo de visão. E um profundo silêncio, tão característico na montanha quando sem água por perto. Ele reinará enquanto não atingirmos um qualquer topo.

Há menos manta morta no caminho de pé-posto, aqui e ali ladeado por vidoeiros. Agora são dejectos de lobo e de outros mamíferos de menor porte, bem espaçados ao longo do percurso, que nos concentram a atenção. Só levantamos a cabeça quando duas gralhas-pretas passam e quebram esse silêncio. Bem perto de nós, apercebemo-nos da presença de ferreirinhas-comuns e de cias, aves pequenas e resistentes que já viram partir as espécies estivais e agora convivem com as migradoras retardatárias e com as invernantes precoces. 

Atingida a portela, outro elemento torna-se dominador. Também quebra o silêncio. E entranhando-se de uma forma que não conseguimos evitar quebra-nos também a vontade de permanecermos imóveis, contemplativos, à escuta. O vento, mesmo não sendo muito forte, agora já é frio a estas cotas. E a uma altitude um pouco superior, faz correr as nuvens baixas, um nevoeiro denso, muito branco mas esfarrapado que anima a sucessão de cristas da montanha que se expande por todo o lado. A penedia que desta forma se agiganta, contrasta escura, agreste, selvagem.

E é daqui que se tem a perspectiva mais abrangente do bosque. Uma mancha viva que nos toca pela sua riqueza, pela sua beleza, pela sua diversidade e nos faz recordar algo que por esta época cai no esquecimento geral.

O que temos diante de nós é uma natureza excepcional. A que constitui a regra no nosso território é pobre, está fortemente adulterada pelo homem. Por estes dias, eucaliptais, pinhais e muito mato, lambem as feridas de mais um ano que foi de sofrimento, de incêndios, de desgaste, de perda, de devastação, realidade que nos próximos meses, chuvosos e frios, voltaremos a ignorar.

Neste outro ciclo anual, gerado pelo homem, só voltará a ser notícia, tema de debate, de confronto, de promessas, quando, pelos erros que tudo indica vamos continuar a cometer, a natureza se revoltar de novo. Num processo que se agrava, porque a retórica humana é sempre a mesma. Tal como os efeitos da sua quase sempre invariável má conduta. Isto apesar do que se sabe, do que já se sofre e do muito mais que se antevê possamos vir a sofrer.