Um milhafre-preto nas asas do suão

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Todos os meses, o projecto “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”, ligado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá-lhe a conhecer as paisagens e a biodiversidade que povoam as obras literárias de escritores portugueses.

Próximo da ponte de tábuas, um milhafre dá três voltas vagarosas ao rés da terra, imobiliza-se no espaço e baixa-se repentinamente, como tocado por um tiro. Daí a nada levanta-se, num esticão, e leva um pinto no bico. Por um momento, o voo da ave de rapina é um traço negro na paisagem morena da planície. E só o homem, pela janela, vê o assalto. Tem uma pequena agitação, dá dois passos em direcção à rua, eleva instintivamente os braços como a querer seguir o rumo do pássaro no infinito e depois recolhe-se de novo ao fundo da casa.

Antunes da Silva, Suão (1960)

O voo de caça de uma rapina diurna marca o incipit do primeiro romance de Antunes da Silva (1921-1997), Suão – um título evocativo dos ventos quentes e secos de sul/sueste que varrem as planuras do Alentejo e cedo ocuparam a imagética deste poeta e ficcionista, nascido e criado em Évora.   

A conduta predatória da ave – com seu volteio rente ao solo, imobilização no ar antes do ataque, agilidade de porte da presa – é característica, embora não exclusiva, do milhafre-preto, Milvus migrans. Observa-se em áreas abertas, muito da sua eleição, como culturas cerealíferas ou pastagens; nesta cena, a avaliar pela tonalidade “morena” dos horizontes, ocorre provavelmente sobre terrenos lavrados ou em pousio. Dados os seus hábitos alimentares oportunistas (que incluem a necrofagia), o milhafre poderia vitimar um outro pequeno vertebrado; mas, ao fisgar uma cria de animal de quinta, sugere-nos a vizinhança de habitação humana.  

Foto: Mike Prince/Wiki Commons

Como o léxico literário não é obediente, nem tem de ser, à nomenclatura zoológica, perdoemos ao escritor, bom conhecedor da sua região natal, o termo “pássaro” com que designa o falconiforme da Família Accipitridae   ainda hoje muito comum na maior parte do nosso território continental, particularmente nas Beiras e no interior dos Alentejos. Mantida a liberdade criativa, o realismo de Suão não ilude o leitor. O “traço negro” a riscar o céu deve-se à plumagem castanho-escura das asas e da cauda bifurcada, e a época do ano respeita o saber dos ornitólogos: trata-se de uma ave migratória, invernante a sul do Saara, que entre março e agosto vem acolher-se em vários tipos de habitats das amenas latitudes lusas, escolhendo para nidificar matas ribeirinhas e arvoredos pouco densos, como os montados.  

Talvez pela ampla distribuição geográfica nas regiões tropicais e temperadas, o milhafre surge noutras ficções literárias. Nas Fábulas de Esopo (c. séc. VI a.C.) representava o eleito que abusa do poder e desonra as suas promessas; no conto fantástico “O Milhafre” (1867), Eça de Queiroz delegou-lhe o papel de crítico social. Mas, se nos cingirmos ao trecho em epígrafe, não alcança honras de personagem: é apenas uma marca da biologia vibrante cruzando a indolência da planície alentejana. E sai de cena após uma performance de sobrevivência que resgata momentaneamente o protagonista ao seu cisma de rendeiro de “terras baixas” em “ano mau”, vendo as searas de cevada e trigo definhando sob a seca e a praga “alforra”.

Foto: Digitalsignal/Wiki Commons

O romance estreia-se num meio-dia escaldante: “Por cima da estrada real”, o sol “arde, enfeitiça o mundo.” Este verão mediterrânico, mais quente e seco por influência do interior ibérico, permite a ocorrência natural e a manutenção humana dos Quercus de folha perene, sobreiro e azinheira, que compõem o montado alentejano. Em meados do século XX, o clima ditava o vigor ou a debilidade das searas, a penúria ou a abundância de pão, o desalento ou a alegria das famílias camponesas. O milhafre faz(ia) objetivamente parte desse património ambiental, porém – e isto é só uma hipótese – no conjunto do romance adquire valor simbólico, como na metáfora sobre os assalariados rurais pobres: “Um destino de maldição abre as asas negras, paira por cima dos longes (…)”. 

Foto: Timothy Gonsalves/Wiki Commons

Esta associação faz sentido à luz do ideário sociopolítico do autor e do seu lugar cimeiro no neorrealismo português. É que a intriga de Suão decorre no tempo da debulha das searas feita “a sangue ou a pé de gado” e dos “criados de lavoura aos oito anos” de idade. O palco são as cercanias planas da Serra de Portel, onde o Alto Alentejo prepara a transição para o Baixo. No Guia de Portugal II (1927), Silva Teles chamou-lhe “uma sucessão de colinas brandas e arredondadas”, cobertas de sobreiros e oliveiras e ainda povoadas por lobos. As imagens literárias de Antunes da Silva não andam longe.

Escrita romanceada mas fiel ao seu objeto de atenção, em tom de pesadume pela iníqua partilha dos recursos da terra, Suão é um diálogo entre vários conceitos da Ecologia Clássica e da Ecologia Humana. A literatura portuguesa deve muito a esta obra e as gerações atuais têm imenso a aprender com esse diálogo.


Escrita com Asas

Ana Cristina Carvalho pertence ao grupo de investigadores ligados ao  “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”. Esta é a 12ª e última crónica da série “Escrita com Asas”.