Todos os meses, o projecto “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”, ligado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá-lhe a conhecer as paisagens e a biodiversidade que povoam as obras literárias de escritores portugueses. 

 

“Ia o janeiro fora, estava o tempo escorrido, se bem que a terra andasse alagada de água com o Inverno muito chuviscoso que trouxera à serra bandos de gansos e patos bravos, para os olhos dos velhos imagens nunca vistas.”

Terras do Demo, de Aquilino Ribeiro

 

Há 100 anos, Aquilino Ribeiro chamou Terras do Demo a um território na Beira Alta, publicando, com esse título, um romance sobre a serra da Nave e as aldeias montesinhas. No cenário deste seu livro, que repetirá em muita da obra subsequente, uma personagem se destaca: a paisagem. Paisagem que compreende “terra, gente e bichos”, e de entre os bichos, mais do que outros, as aves merecem uma atenção especial. Estas não existem na prosa só para decorar um quadro humano ou uma moldura de granito que lhe serve de chão. O escritor assume-se realista e “mais cronista do que carpinteiro de romance”.

Mas que serra é esta, a da Nave? Na sua extensão cimeira, a quase 1000 metros de altitude, exibe toda a originalidade do granito erodido em enormes blocos arredondados, empilhados ou espalhados num ondulado pouco pronunciado. Entre mato rasteiro e erva de pasto, assomam, depois das chuvas, espelhos de água cristalina. Formam-se, assim, os alagoeiros da Nave, charcas de baixa profundidade, pululantes de algas, musgos e larvas de insetos, e, por isso também, de rãs e outros anfíbios, e passeriformes de muitas espécies. Estes alagoeiros secam no verão e a sua dimensão está sempre dependente da maior ou menor pluviosidade anual.

 

Paisagem da Serra da Nave. Foto: Wiki Commons

 

A ocupação deste local, ermo e invulgar, tem milhares de anos. Uma necrópole megalítica ergue-se na mesma zona apaulada, dando à paisagem um caracter único. No tempo de Aquilino, apascentavam-se cabras e ovelhas, e, na estação própria, semeavam-se ali pequenas áreas de painço e centeio, onde a terra fosse mais humosa.

Por uma vez, espantaram-se os olhos daqueles que sabiam qual a variedade ornitológica destas terras bárbaras e agrestes. Fenómeno desusado, por isso digno de figurar na literatura, esta paragem das aves explica-se pela pluviosidade abundante e, consequentemente, pela ocasional, mas significativa presença de um extenso habitat aquático.

 

Gansos-bravos. Foto: Jac. Janssen/Wiki Commons

 

De onde vieram estes patos e gansos selvagens? O escritor não se demora a explicar a sua migração invernal desde o gelado Norte europeu até à meseta ibérica de que a Nave faz parte. Mas nós sabemos que, tal como hoje, as maiores zonas húmidas da região mediterrânica, geralmente estuários, lagoas litorais ou albufeiras, se enchem de grupos numerosos de Anatídeos selvagens à procura de um local para invernar. Regressam às origens, para se reproduzir, e repetem este comportamento, anualmente, como chave para a sua sobrevivência.

 

Ana Isabel Queiroz pertence ao grupo de investigadores ligados ao “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”. Esta é a primeira crónica da série “Escrita com Asas”.