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O que procurar na Primavera: erva-das-sete-sangrias

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As paisagens continuam cheias de cor e aromas de primavera e a erva-das-sete-sangrias (Glandora prostrata) não passa despercebida. De floração prolongada, esta espécie pode ser vista em flor durante todo o inverno e primavera, preenchendo as zonas de matos e o sob coberto de pinhais e sobreirais com pequenas flores azuis.

A erva-das-sete-sangrias, também conhecida como sargacinha, sargacinho e chupa-mel, pertence à família Boraginaceae, a mesma família da borragem e da miosótis. Esta família inclui diferentes formações vegetais, desde pequenas plantas herbáceas, a arbustivas e até árvores e espécies trepadeiras, algumas com elevado valor ornamental.

Foto: David/WikiCommons

A erva-das-sete-sangrias é uma pequena planta arbustiva, de base lenhosa que pode medir até 50 cm de altura. Tem caules prostrados ou erectos, revestidos de pelos de diversos tamanhos e de cor verde nos mais jovens. Os ramos mais adultos ficam ligeiramente mais lenhosos e acastanhados. 

As suas folhas são verde-escuras, inteiras, alternas, normalmente planas e com uma forma oblonga a elíptica e não têm pecíolo. Possuem uma nervura central muito pronunciada e estão cobertas de pelos. Os pelos são mais compridos na página superior da folha, mais próximo da margem, e mais finos, curtos e em maior quantidade na página inferior. 

Esta planta tem um período de floração muito prolongado, permanecendo florida de dezembro a junho. As flores vão abrindo aos poucos, de forma esparsa. A vida útil de uma flor é de 3 a 5 dias.

As flores dispõem-se em inflorescências definidas – cimeiras, com 4 a 7 cm de altura e em conjunto de 6 a 14 flores. As flores são pequenas, hermafroditas, actinomorfas e erectas. A corola é formada por cinco pétalas de tonalidade azul a violeta intenso, por vezes em tons de rosa, arredondadas nas extremidades e unidas na base formando um tubo pubescente no interior, no qual se inserem os cinco estames e o androceu. O cálice, também é pubescente e é formado por cinco sépalas esverdeadas, mais ou menos soldadas na base. Possuem brácteas foliosas de forma oval ou elíptica.

Os frutos, característicos desta família de plantas, são núculas ou clusas – tipo de fruto seco indeiscente do tipo esquizocarpo, semelhante a uma pequena noz, que se separa na maturação, formando quatro frutos parciais, que protegem as pequenas sementes.

Algumas características morfológicas da Glandora prostrata estão na origem da designação científica da espécie. O nome do género deriva de uma mistura entre o termo em latim glandulosus, que significa “glandular”, “aquele que possui glândulas”, em referência à forma glandular da corola, e o nome do género antigo Lithodora, que deriva da união do termo grego Lithos – pedra – e do verbo latim odora – perfume. O restritivo especifico prostratus deriva do latim e significa prostrado, tombado, deitado, devido à forma como os seus ramos se apoiam. 

Espécie nativa

A erva-das-sete-sangrias é uma espécie nativa do sudoeste da Europa (França, Portugal e Espanha) e Noroeste de África (Marrocos e Argélia). 

Foto: Luis Nunes Alberto/WikiCommons

Em Portugal ocorrem duas subespécies: a Glandora prostrata subsp. prostrata no norte e centro do país. Esta subespécie apresenta ramos decumbentes, folhas mais ou menos plantas ou ligeiramente revolutas e corola tubular grossa, densamente peluda. A Glandora prostrata subsp. lusitanica, espécie endémica da Península Ibérica, é comum nas regiões do centro e sul. Os ramos desta subespécie são ascendentes ou erectos, as folhas são geralmente revolutas e a corola tubular é glabra, por vezes peluda.

Ambas podem encontrar-se em zonas de matos xerófitos, no sob coberto de pinhais e de sobreirais, em charnecas e areias marítimas, na orla de matagais, taludes e fendas de rochas. 

A erva-das-sete-sangrias tem preferência por uma exposição solar intermédia, podendo crescer bem em sol pleno, com humidade relativa constante e temperaturas médias de 15ºc. Prefere solos ácidos, secos, bem drenados, siliciosos ou descarbonatados, mas também se adapta bem a solos pedregosos ou arenosos. Uma vez bem estabelecida, é tolerante a condições semelhantes à seca.

É uma planta interessante do ponto de vista ornamental, sendo ideal para a cobertura de solos, em jardins de pedras, uma vez que assume uma forma compacta e floração abundante e prolongada. Os principais polinizadores destas flores são as abelhas solitárias, moscas e borboletas, por possuírem língua longa. 

Segundo alguns estudos etnobotânicos esta planta é muito conhecida pelas várias propriedades medicinais, desde propriedades depurativas, antipiréticas e analgésicas. O nome comum de erva-das-setes sangrias é consequência do efeito depurativo desta planta. Também é utilizada como hipotensora e redutora dos níveis de colesterol, no tratamento de doenças das viais urinárias, no tratamento de infecções e inflamações da pele e tem ação nos vasos sanguíneos. Tem efeitos abortivos e em caso de grandes doses pode causar a morte.

Reclassificação recente – Lithodora ou Glandora

Com base em dados moleculares a erva-das-sete-sangrias foi recentemente reclassificada. Segundo a nova revisão científica, esta espécie pertence agora ao género Glandora. A designação científica anterior agrupava-a no género Lithodora e nomeava-a como sendo Lithodora prostrata. Em 2008, este género foi reorganizado devido a diferenças de caracteres morfológicos da estrutura da flor e da semente de algumas espécies. 

As espécies do género Glandora apresentam folhas cerosas, cobertas de pelos rijos e as corolas também são muito peludas. No género Lithodora as espécies apresentam corolas com pétalas acetinadas devido à camada de pelos finos e curtos.

Foto: Pancrat/WikiCommons

No entanto, são muitas as semelhanças entre as espécies destes dois géneros. Todas as plantas pertencentes a estes dois grupos são arbustos perenes, com flores com dimorfismo no comprimento dos estiletes e dos estames e com um período de floração longo. Do ponto de vista edafo-climático requerem condições ambientais semelhantes.

Compreender a natureza é mesmo um desafio. Uma vez mais proponho que procurem esta espécie e que tentem decifrar qual a subespécie que predomina na vossa região. Bons passeios e aventuras pelo mundo vegetal.


Dicionário informal do mundo vegetal: 

Prostrados – ramos estendidos sobre o solo.

Oblonga – folha com forma aproximadamente retangular, com polos arredondados

Elíptica – folha com forma que lembra uma elipse, mais larga no meio e com o comprimento duas vezes a largura.

Cimeira – inflorescência com crescimento limitado, terminando numa flor, assim como os seus ramos laterais. 

Actinomorfa – flor com simetria radial, ou seja a flor pode ser dividida em várias partes iguais.

Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).

Pubescente – que tem pelos finos e densos.

Indeiscente – fruto que não se abre naturalmente quando maduro, não libertando as sementes.

Esquizocarpo – fruto seco que na maturação se divide em frutos parciais.

Decumbentes – ramos deitados sobre a terra, por onde se alastram e com a ponta levantada para cima.

Revoluta – folha que mantém as margens ligeiramente enroladas para a página inferior da mesma.

Tubular – corola que possui um tubo muito alongado.

Corola – conjunto das pétalas.

Glabra – sem pelos.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.


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