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O que procurar no Outono: a quita-merenda

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Uma das mais adoráveis plantas de outono, a quita-merenda (Colchicum montanum), começa agora a desabrochar. As suas pequenas flores de caule curto e de pétalas notavelmente longas variam entre o rosa, o lilás e a cor púrpura.

A floração tardia de algumas plantas dá outra cor ao outono. São maioritariamente pequenas e do tipo geófito. As flores abrem-se antes da formação das folhas, no início do outono, após um período de repouso no solo. Só após a floração formam as folhas que permanecem verdes até ao final da primavera.

A quita-merenda

A quita-merenda pertence à família Colchicaceae, que possui cerca de 280 espécies distribuídas em 15 géneros. Em Portugal esta família está representada por quatro espécies nativas do género Colchicum: C. montanum, C. lusitanum, C. multiflorum e o C. filifolium.

Quita-merenda. Foto: Ghislain118/WikiCommons

Esta espécie – também vulgarmente conhecida como noselha, colchico-menor ou merendeira – é uma planta perene, bolbosa, de pequenas dimensões, que mede entre 7 a 20 cm de altura. Dispõe de um bolbo subterrâneo, sólido, oblongo-ovóide, revestido por uma túnica coriácea e castanho-escura.

A floração ocorre entre os meses de setembro e novembro. Cada bolbo dá origem a uma única flor, raramente duas, que aparecem ao nível do solo. São quase sésseis ou possuem um pedicelo curto que se alarga na frutificação. São hermafroditas (masculinas e femininas), actinomorfas e o perianto é mais ou menos estrelado, com seis tépalas livres, de cor rosa, lilás ou púrpura e com uma mancha esbranquiçada na base.

Só após o aparecimento das flores se dá a formação das folhas.

As folhas são basais, lineares, glabras (sem pelos), com margem lisa, por vezes ondulada, sendo a parte basal envolvida por uma bainha membranosa. Aparecem no outono, mantendo-se verdes até ao final da primavera, altura em que secam totalmente. As folhas surgem agrupadas em conjuntos de 2 a 4, raramente 5, por cada bolbo.

O fruto é uma pequena cápsula oblongo-elipsóide, deiscente, composto por três válvulas, que alojam as sementes são piriformes (em forma de pera).

Espécie endémica da Península Ibérica

A quita-merenda é uma espécie endémica da Península Ibérica, estendendo a sua área de ocupação à região central dos Pirenéus. Em Portugal está presente em boa parte do território do Continente, ocorrendo mais profusamente na região do Minho, Douro-litoral, Trás-os-Montes e Beiras.

Esta planta vive habitualmente em clareiras de montanha, em prados e pastagens, normalmente bastante pastoreadas e em clareiras de matos. Também pode ser encontrada na margem de caminhos, em lugares secos, pedregosos e encostas rochosas, desde as terras baixas até às regiões alpinas mais baixas, até 2600 metros de altitude.

Quita-merenda. Foto: Ghislain118/WikiCommons

A quita-merenda habita preferencialmente locais ensolarados, mas é tolerante à semi-sombra das plantas mais altas. O substrato ideal é argilo-arenoso, ligeiramente ácido, húmido e rico em nutrientes, no entanto esta espécie é bastante tolerante a solos pobres e secos, desde que bem arejados. É também bastante tolerante às temperaturas baixas, suportando até -18ºc.

As flores grandes e vistosas tornam esta espécie particularmente interessante do ponto de vista ornamental, sendo adequada para recriar jardins de pedras e ambientes alpinos. No entanto, é pena que não exista em jardins e espaços verdes.

Uma atração de outono para os polinizadores

Ecologicamente, a quita-merenda manifesta uma elevada importância. O aparecimento destas plantas numa época do ano em que não existem muitas flores é uma grande vantagem para muitos polinizadores, uma vez que são uma fonte tardia de pólen e néctar. As flores da quita-merenda são muito atraentes para as moscas, as abelhas e algumas vespas.

Em qualquer outra época do ano seria improvável que estas pequenas flores atraíssem uma tão grande diversidade de polinizadores, uma vez que estes estão mais interessados em grandes grupos de flores, no entanto as espécies que florescem no outono são uma exceção à regra.

Tóxica e medicinal

A quita-merenda é uma planta tóxica. Todas as partes da planta contêm alcalóides tóxicos, mas o teor destes é significativamente mais baixo no bolbo subterrâneo do que nas folhas, onde se concentram as maiores quantidades.

Quita-merenda. Foto: Meneerke Bloem/WikiCommons

Não se pode empregar na alimentação humana, e os rebanhos e outros animais herbívoros evitam-na, sobretudo na época de formação e desenvolvimento das folhas. Para os cães a ingestão de folhas pode até ser muito problemática e mesmo provocar a morte.

Já alguns roedores, nomeadamente o rato-cego-mediterrânico, também conhecido como rato-toupeira (Microtus duodecimcostatus) partilham o mesmo habitat da quita-merendas, alimentam-se dos seus bolbos, apesar dos alcalóides tóxicos que possui, além de serem fundamentais para a dispersão da espécie.

A quita-merendas não possui um método de dispersão de sementes viável, logo muitas vezes as plantas desenvolvem-se todas muito próximas umas das outras, podendo ocorrer alguma competição pelo espaço. O rato-toupeira, ao alimentar-se dos bolbos, desempenha um papel fundamental na distribuição inadvertida dos mesmos, reduzindo a competição, facilitando a dispersão da espécie.

Como acontece com outras espécies do género Colchicum, entre os seus componentes está a colchicina, uma substância que interfere no desenvolvimento celular. A espécie conhecida por conter a quantidade mais letal de colchicina é C. autumnale.

Por outro lado, como acontece com muitas outras plantas tóxicas, esta planta tem múltiplos usos farmacológicos, sendo utilizada no tratamento de gota, pericardite, artrite, além de ser utilizada como anti-inflamatório.

Colchicum, Merendera ou Crocus

Cientificamente o nome do género Colchicum deriva do grego Kolchis – ídos, o nome dado a uma antiga região nas margens do Mar Negro – Kolkhida, também conhecida como reino de Cólquida, no oeste da Ásia, provavelmente na atual Geórgia, onde se diz que as plantas deste género eram particularmente abundantes.

A terminologia montanum derivará do facto de esta espécie ser particularmente adaptada a regiões de elevada altitude.

A quita-merenda foi originalmente classificada como pertencente ao género Merendera, como Merendera montana. Mais tarde, com base em evidências genéticas moleculares, esta espécie, bem como outras espécies do género, foi agrupada no género Colchicum.

Folhas e frutos da quita-merenda. Foto: Meneerke Bloem/WikiCommons

Além dessa particularidade, esta espécie é muitas vezes confundida com uma espécie do género Crocus, o açafrão-bravo (Crocus serotinus), possivelmente por serem morfologicamente idênticas e por ambos os géneros botânicos possuírem colchicina.

No entanto existem algumas características visuais que permitem distingui-las: as flores da quita-merenda nascem diretamente do solo, raramente possuem pedicelo (caule), as pétalas são livres, têm seis estames e os estiletes e estigmas são brancos e inteiros; já as flores do açafrão-bravo possuem um pequeno caule, pétalas soldadas, apenas três estames e os estiletes e os estigmas são alaranjados e muito ramificados.

Com a chegada do outono, o calor do verão diminui e os dias são mais curtos. Segundo alguns autores, o nome comum quita-merenda refere-se à refeição do meio da tarde e, aparentemente alude ao facto de nas zonais rurais a atividade diária ser regida pelas horas de luz solar. Assim, como nesta época do ano o número de horas de luz solar é mais reduzido, dispensava-se o lanche, já que o jantar ocorria mais cedo, conforme o sol se punha.

Com ou sem tempo para merendar, fica a sugestão de procurar, ainda com luz, esta belíssima flor outonal.


Dicionário informal do mundo vegetal:

Geófita – planta que possui órgãos de reserva (bolbo, tubérculo, rizoma, etc.) onde são armazenados nutrientes que lhes permite sobreviver em condições climáticas.

Perene – planta que tem um ciclo de vida longo e que viver três ou mais anos.

Bolbosa – planta que produz um bolbo.

Bolbo – caule subterrâneo de eixo curto, cujas folhas, transformadas em escamas, contém substâncias nutritivas de reserva e que se mantém ativo ao longo de todo o ano, ainda que a parte aérea seja renovada anualmente.

Túnica – membrana que reveste o bolbo.

Coriácea – que tem uma textura semelhante à casca da castanha ou do couro.

Séssil – que se insere diretamente pela base, sem intermédio de qualquer suporte.

Pedicelo – “pé” que sustenta a flor.

Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).

Actinomorfa – flor com simetria radial, ou seja a flor pode ser dividida em várias partes iguais.

Perianto – conjunto das peças florais (pétalas e sépalas) que rodeiam e protegem os órgãos reprodutores da flor.

Tépala – peça floral não diferenciada em pétala ou sépala.

Glabra – sem pelos.

Bainha – parte basal e mais ou menos larga de certas folhas, que envolve mais ou menos o eixo.

Deiscente – fruto que, quando maduro, se abre naturalmente para libertar as sementes.

Válvula – pequena formação membranosa, semelhante a uma tampa, que se levanta (abre) e por onde se faz a deiscência das sementes.

Piriforme – em forma de pera.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.