Foto: Bernd Haynold/Wiki Commons
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O que procurar no Verão: a carvalhinha

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O meu pequeno jardim de plantas nativas continua a crescer. Algumas plantas só foram instaladas no outono passado e outras nesta primavera, mas as que foram plantadas anteriormente começam a despontar as primeiras flores e a colorir aquele cantinho especial. 

A carvalhinha (Teucrium chamaedrys), também conhecida como camédrios, carvalho-pequeno, erva-carvalha e têucrio, com as suas flores cor-de-rosa e o aroma suave e algo resinoso das suas pequenas folhas, pinta agora o meu cantinho que tanto gosto de ver crescer.

Género Teucrium

A carvalhinha é uma espécie da família Lamiaceae, uma das maiores famílias de plantas com flor, que inclui 235 géneros e mais de 7000 espécies, algumas das quais bem conhecidas, como a hortelã, o tomilho, o rosmaninho, a sálvia, o orégão e tantas outras. 

Maioritariamente aromáticas, as espécies desta família são muito procuradas como plantas ornamentais pela diversidade de flores e cores e também como plantas condimentares, alimentares e medicinais. 

O género Teucrium, onde se engloba a carvalhinha, também é bastante extenso, com mais de 280 espécies. Quinze dessas espécies são nativas em Portugal Continental, duas das quais endémicas do território nacional (Teucrium vicentinum e T. salviastrum), ambas na categoria de espécie “Pouco Preocupante”, segunda a União Internacional para a Conservação da Natureza.

A espécie Teucrium vicentinum encontra-se ainda protegida pelo Anexo V da Diretiva Habitats – Directiva 92/43/CEE do Conselho, de 21 de Maio de 1992, relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e da flora selvagens. As espécies constantes neste anexo são consideradas de interesse comunitário, podendo a sua colheita na natureza e exploração ser objeto de medidas de gestão. 

Das restantes espécies nativas, quatro são endémicas da Península Ibérica: T. albarbiense, T. gnaphalodes, T. haenseleri e T. lusitanicum subsp. lusitanicum.

No Arquipélago da Madeira existem ainda quatros espécies endémicas da região: T. abutiloides, T.betonicum, T. francoi e T. heterophyllum. Quanto ao Arquipélago dos Açores, este género é praticamente desconhecido.

A carvalhinha

A carvalhinha é uma espécie perene, de porte arbustivo e baixo crescimento, que não cresce além dos 40 cm de altura. Forma pequenos e densos tufos de base lenhosa, bastante ramificados, mais ou menos peludos, e com raminhos prostrados ou ascendentes densamente revestidos de folhas.

As folhas são aromáticas, verde-escuras e lustrosas na página superior e ligeiramente ásperas na página inferior. Possuem uma forma oval e são ligeiramente dentadas a crenadas na margem, fazendo lembrar folhas de carvalho em miniatura – daí o nome comum carvalhinha ou carvalho-pequeno, por exemplo.

Foto: Doronenko/Wiki Commons

A floração ocorre no final da primavera e no verão. As flores são tubulares, de cor púrpura a rosa e crescem em espirais a partir da axila das folhas. Surgem geralmente agrupadas em conjunto de 2 a 6 flores e são bastantes atrativas para as abelhas.

O fruto é um aquénio, com uma superfície reticulada a lisa e de cor castanho-escuro. 

Nativa ornamental

A carvalhinha é uma espécie nativa da Europa, Ásia ocidental e Norte de África. Em Portugal é comum na região Centro Litoral. Cresce em terrenos calcários e pedregosos, prados secos, matos abertos, clareiras de bosques, taludes e vertentes soalheiras e bermas de caminhos. Não há registo da sua presença nas Regiões Autónomas.

Ecologicamente, esta espécie tem preferência por locais com boa exposição solar e solos neutros a alcalinos, desde que bem drenados. Tolera solos pobres, mas não excessivamente húmidos. Não é sensível à geada. Quando bem estabelecida é uma espécie tolerante à seca.

A carvalhinha é uma espécie bastante interessante do ponto de vista ornamental. Pode ser conduzida de forma natural, mais informal, ou então de forma mais formal, aparada.

É uma planta especialmente recomendada para jardins de pedras ou rochosos (escarpas e encostas pedregosas), em jardins de ervas, em pequenos grupos para cobertura de solo, em sebes baixas e como planta de afiação ou cerca viva para delimitar canteiros. Pode ser plantada em vasos e floreiras e combina muito bem com outras plantas aromáticas.

É uma espécie típica dos jardins mediterrânicos e também é utilizada em jardins de cidades e zonas costeiras e em áreas de difícil cultivo de outras espécies.

As suas flores são muito atrativas para os polinizadores, principalmente para as abelhas. Apesar de ser uma planta melífera, a produção de mel desta espécie limita-se a áreas restritas onde a planta é mais difundida.

Tóxica e medicinal

A designação científica da carvalhinha está envolta de lendas, muito devido às propriedades medicinais da planta. 

Diz-se que o nome do género Teucrium deriva do grego teúcrion e que estará relacionado com o lendário primeiro rei de Tróia – Teucro (Teucer) – que segunda a lenda terá usado plantas deste género para fins medicinais.

O restritivo específico chamaedrys, deriva do prefixo grego chamai-, que significa “no solo, rastejando” e de -drys, que significa carvalho, pelas semelhanças que esta planta tem a um pequeno carvalho (as folhas são parecidas com as dos carvalhos).

Foto: Stefan.lefnaer/Wiki Commons

A carvalhinha é uma planta francamente tóxica em todas as suas partes, embora às vezes seja utilizada pelas suas propriedades amargas, aperitivas e digestivas. É uma planta tipicamente aromática e as suas folhas são muito utilizadas para aromatizar licores, vermutes e outros vinhos.

Esta planta contém vários compostos químicos curativos: a teucrioresina, a colina, a scutellaria e o tanino. Fornece ainda uma essência de cor amarela com um odor característico, uma mistura entre resina e cânfora, pelas várias substâncias que contém: pineno, canfeno, entre outros.

A carvalhinha possui propriedades terapêuticas de vários tipos: anti-inflamatórias, antirreumáticas, adstringentes, carminativas, digestivas, diuréticas, estimulantes e tónicas. As partes aéreas (flores e folhas), secas ao sol, em local seco e fresco, podem ser usadas na forma de infusão, tintura, pó, extrato, etc.

Foto: Bernd Haynold/Wiki Commons

O cheiro agradável libertado das folhas, mesmo depois de secas, e as flores cor-de-rosa claras a profundas, que aparecem no verão, são bastante apreciados para potpourri.

E, uma vez mais, fica a sugestão: numa próxima saída para apreciar o que de mais belo a natureza tem para oferecer, explore e procure esta belíssima planta da nossa flora nativa. 


Dicionário informal do mundo vegetal:

Perene – planta que tem um ciclo de vida longo e que viver três ou mais anos.

Prostrado – ramo estendido sobre o solo.

Ascendente – ramo que se desenvolve na posição horizontal ou quase, mas que tende a verticalizar.  

Crenada – margem com recortes arredondados.

Tubular – flor cuja corola possui um tubo muito alongado.

Aquénio – fruto seco, indeiscente e monospérmico.

Indeiscente – fruto que não se abre naturalmente quando maduro, não libertando as sementes.

Monospérmico – fruto que possui apenas uma semente.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.