Foto: Luis Fernandez Garcia/Wiki Commons
/

O que procurar no Verão: o trovisco

Não sei bem explicar o motivo, mas recordo que esta terá sido uma das primeiras plantas que me aventurei a identificar nos meus primeiros dias de estudante. Talvez por ter sido uma planta que me acompanhou durante a minha infância, com que me cruzava diariamente no caminho de casa para a escola.

Não lhe conhecia o nome, mas a singularidade dos seus ramos e dos seus frutos, em particular nesta época do ano, deixava-me encantada. Como é que uma planta tão bonita estava nas matas e não se via nos jardins?

Hoje vou falar-vos do trovisco (Daphne gnidium), uma espécie da família Thymelaeaceae, também conhecido vulgarmente como trovisco-fêmea, trovisqueira, erva-de-joão-pires, gorreiro, lauréola-macha, mezereão-menor, matapulgas.

O Trovisco

O trovisco é um arbusto perenifólio, que pode crescer até 2 metros de altura. É muito ramificado a partir da base, formando uma pequena copa arredondada. Os seus ramos são patentes e rígidos mas flexíveis.

As folhas são persistentes, coriáceas, acuminadas (pontiagudas e ligeiramente curvas na ponta), sem recortes e sem pelos. São de cor verde-azulada, em tons claros, e têm glândulas odoríferas na página inferior. Possuem pecíolos curtos, que as ligam aos ramos, têm uma forma linear a lanceolada e dispõem-se alternadamente umas em relação às outras.

A floração do trovisco é tardia e prolongada, podendo ocorrer a partir do final da primavera, e assim manter-se durante os meses de verão e início do outono.

As flores são hermafroditas (femininas e masculinas), aromáticas e tubulares. Não possuem pétalas, apenas quatro sépalas de cor branco-creme ou levemente amareladas. Surgem agrupadas em inflorescências terminais, semelhantes a cachos com uma forma cónica, ou por vezes piramidal, em conjuntos de 10 a 60 flores.

Foto: Luis Fernandez Garcia/Wiki Commons

A maturação dos frutos ocorre durante o verão e o outono. O fruto é uma drupa carnuda, globosa a ovóide e ligeiramente pubescente. De coloração verde (no início), passa pelo laranja-avermelhado e finalmente veste-se de negro brilhante, quando madura. Possui uma única semente por fruto.

É frequente haver flores e frutos em simultâneo e, na primavera, as flores chegam até a aparecer antes das folhas novas.

Espécie nativa 

O trovisco é uma espécie nativa da Região Mediterrânica e das Ilhas Canárias.

Em Portugal, é comum em todo o território nacional, ocorrendo numa grande diversidade de habitats. Em algumas regiões formam-se verdadeiras comunidades arbustivas, denominadas troviscais.

É uma espécie comum em bosques perenes e caducifólios, associada a inúmeras espécies do género Quercus, tais como o carvalho-alvarinho (Quercus robur), o sobreiro (Quercus suber), a azinheira (Quercus rotundifolia) e a carvalhiça (Quercus lusitanica).

Também pode ser vista noutros ambientes florestais, como matos esclerófilos (adaptados a secas prolongadas), matagais, terrenos incultos e na orla de caminhos; por vezes, no sob coberto de pinhais, zimbrais, matos costeiros e dunas interiores.

Foto: Colin C. Wheeler/Wiki Commons

Esta espécie tem preferência por climas quentes, locais com exposição solar plena, solos pobres, rochosos e bem drenados. Desenvolve-se bem em regiões secas, é capaz de resistir a longos períodos de seca e é tolerante a temperaturas até -5ºC.

Além do trovisco (Daphne gnidium), existe uma outra espécie nativa do género em Portugal: a Daphne laureola ocorre de forma natural em três ilhas dos Açores (São Miguel, Pico e Terceira). Em Portugal Continental é conhecido um único local de ocorrência, na Serra de Sintra.

Segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental e a União Internacional para a Conservação da Natureza, estima-se que a população nacional de Daphne laureola seja inferior a 600 indivíduos, estando portanto classificada como espécie Criticamente Em Perigo em Portugal Continental.

Planta ecologicamente importante

O trovisco é uma planta ecologicamente importante, sendo uma das primeiras plantas a surgir após a passagem de um incêndio florestal. Nas dunas, surge na zona de interseção com a floresta estabilizada.

Além disso, os seus frutos são muito apreciados pelas aves, o que contribui para aumentar a biodiversidade dos locais onde prolifera.

Alguns insetos lepidópteros são atraídos pelo odor característico destas plantas, como é o caso da traça da videira (Lobesia botrana), que usa esta planta para depositar as suas larvas.

No entanto, todas as partes da planta são altamente tóxicas, incluindo os frutos, o que afasta os restantes animais. Por esse motivo, é uma planta que salta à vista em zonas de pastagem natural, pois é a única que se mantém intacta no meio da restante vegetação “devorada” pelos animais.

Tóxica, medicinal e multifacetada

A toxicidade desta planta deve-se à presença de alguns compostos químicos altamente tóxicos – várias cumarinas (dafnetina, dafnina, etc.) com propriedades vesicantes – que em contacto com a pele e as mucosas produzem irritação, ulceração e queimaduras fortes, podendo levar à destruição dos tecidos. As reações mais comuns são as dermatites.

A ingestão ou aspiração em doses elevadas pode produzir um efeito asfixiante, gastroenterite, diarreia e, em casos mais graves danos nos rins, ritmo cardíaco irregular ou até causar a morte.

Foto: gailhampshire/Wiki Commons

Como acontece com todas as plantas venenosas, o trovisco possui propriedades medicinais surpreendentes. É uma planta anti-inflamatória, tintureira, anticancerígena, insecticida, antisséptica, emética, purgativa, vulnerária e abortiva.

Devido à elevada toxicidade recomenda-se o seu uso apenas em caso de prescrição médica.

Mas para além das propriedades medicinais, o trovisco tem múltiplas aplicações:

É um eficaz insecticida natural, nomeadamente contra piolhos e formigas. Quando queimado, em combinação com rosmaninho, é um excelente repelente para afastar as cobras, devido ao cheiro intenso libertado pelas duas plantas em conjunto.

O trovisco também é conhecido pelo seu valor cosmético. Na Idade Média, a infusão e maceração das folhas eram utilizadas para disfarçar os cabelos brancos e a maceração da casca, em vinagre, era usada como desinfectante de feridas.

Os ramos são usados no fabrico de vassouras para varrer as eiras e a casca é uma excelente corda natural devido à sua flexibilidade e resistência, podendo fazer-se nós muito firmes.

Valor ornamental

Já do ponto de vista paisagístico, o trovisco é uma boa solução ornamental.

É uma planta esteticamente agradável pela sua forma e tom da folhagem. As pequenas flores brancas, reunidas em cachos na extremidade dos raminhos, profusamente abundantes na primavera e no verão e que bem contrastam com o verde da folhagem e os frutos coloridos, são sem dúvida um bom motivo para querer ter esta planta em qualquer jardim ou espaço verde.

Foto: jailluch/Wiki Commons

Além disso, não necessita de grandes cuidados de manutenção e é resistente às condições atmosféricas, mesmo as mais adversas.

No entanto, a sua instalação em qualquer espaço verde deve ser bem ponderada, evitando-se locais frequentados por crianças e animais.

Mitos e crenças

A designação científica do trovisco está associada a um forte simbolismo mitológico. O nome do género Daphne deve-se à ninfa por quem Apolo se terá apaixonado e que terá perseguido. Ao fugir dele, acabou por se transformar num loureiro (Daphne é a designação grega para o loureiro).

Já a denominação gnidium advém do latim Cnidius, de Cnido, antiga cidade grega localizada na costa da atual Turquia, famosa por aí existirem vários santuários dedicados a Afrodite, deusa do amor, da beleza e da sexualidade.

Desde os tempos pré-históricos o trovisco tem sido usado como amuleto e repelente de espíritos malignos. Em algumas regiões da Europa acreditava-se que o trovisco protegia contra as bruxas e era usado como amuleto contra feitiços.

Apesar de ser uma planta que afasta animais e bruxas, foi das primeiras plantas que me chamou a atenção e atraiu para o mundo fascinante da botânica. E que, ainda hoje, me deslumbra.


Dicionário informal do mundo vegetal:

Patente – ramo que se insere segundo um ângulo próximo de 90º.

Coriácea – folha que tem uma textura semelhante à casca da castanha ou do couro.

Acuminada – folha cuja ponta é geralmente aguda e mais estreita que a restante parte e com os lados ligeiramente côncavos. 

Linear – folha estreita e comprida (comprimento é 6 a 12 vezes mais do que a largura), com margens quase paralelas.

Lanceolada – folha com forma semelhante a uma lança.

Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames). 

Tubular – flor que possui a forma de um tubo muito alongado.

Inflorescência – forma com as flores estão agrupadas numa planta.

Pubescente – que tem pelos finos e densos.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.