Bufo-real (Bubo bubo). Foto: Dick Daniels/Wiki Commons

Seis aves que pode ouvir agora à noite (e os sons que fazem)

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A Wilder pediu aos investigadores do Grupo de Trabalho em Aves Nocturnas para sugerirem espécies que se podem ouvir nesta época em Portugal. Fique a conhecer quais são.

Nos dias de Inverno tudo fica mais calmo e silencioso e os ritmos do mundo natural parecem quase parados. Mas na verdade não é bem assim. Entre as aves de hábitos nocturnos, algumas espécies estão já empenhadas na reprodução e fazem-se ouvir mais facilmente, como é o caso do bufo-real e da coruja-do-mato.

Os chamamentos e outras vocalizações são aliás a melhor forma de identificarmos as espécies deste grupo – e o método de eleição dos voluntários que colaboram todos os anos no censo Noctua Portugal, coordenado pelo Grupo de Trabalho em Aves Nocturnas, ligado à Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Fique a conhecer seis aves sugeridas pelos investigadores ligados ao GTAN e alguns dos sons mais típicos que poderá ouvir num passeio nocturno de Inverno:

1. Coruja-das-torres (Tyto alba)

uma coruja-das-torres em voo
Coruja-das-torres (Tyto alba). Foto: Edd Deane/Wiki Commons

A coruja-das-torres pode ser encontrada em terrenos agrícolas e jardins e também no interior de algumas povoações, incluindo cidades, e está presente por todo o território continental e também na Madeira – ilha onde é a única ave nocturna. Faz ninho em edifícios abandonados, mas também em buracos de árvores e caixas-ninho. Com sorte pode ser observada a alimentar-se ainda antes do anoitecer, depois de ter caçado algum rato, rã ou insectos. A silhueta branca e a face em forma de coração tornam fácil a sua identificação.

Sons de duas corujas-das-torres gravados por Renato Bagarrão em Cabanas de Tavira, no Algarve, à 1h00 da manhã. Fonte: xeno-canto

2. Mocho-galego (Athene noctua)

Mocho-galego (Athene noctua). Foto: El Golli Mohamed/Wiki Commons

O mocho-galego tem um porte pequeno e compacto. Ocorre por todo o território continental, sobretudo a sul, e pode ser encontrado mais facilmente “em terrenos abertos, áreas rochosas e semidesérticas, estepes, pastagens, jardins e pomares, muitas vezes na proximidade de quintas e povoações”, indica o portal STRI-Rapinas Nocturnas de Portugal. Como é parcialmente diurno e muitas vezes pousa sem se esconder, é relativamente fácil de observar, mas é à noite que fica mais activo. Alimenta-se de insectos, aves, pequenos anfíbios e cobras.

Sons de um mocho-galego gravados por Nelson Conceição em Luz, no concelho algarvio de Tavira, pelas 15h18. Fonte: xeno-canto

3. Coruja-do-mato (Strix aluco)

Coruja-do-mato (Strix aluco). Foto: Joe Pell

Esta ave nocturna prefere as florestas, mas é também comum em jardins e cidades e pode mesmo pousar em edifícios e dar caça aos roedores à volta de quintas e de casas, explica o “Guia de Aves de Portugal e da Europa”, de Lars Svensson. A coruja-do-mato alimenta-se ainda de insectos e de muitos outros animais, incluindo pequenas aves, anfíbios e répteis. Existe em grandes números em Portugal Continental e é bastante vocal e sonora.

Sons de coruja-do-mato gravados por António Xeira em Ervedal, Avis, no distrito de Portalegre, pelas 6h30. Fonte: xeno-canto

4. Coruja-do-nabal (Asio flammeus)

Coruja-do-nabal (Asio flammeus). Foto: CERVAS

A coruja-do-nabal é das aves nocturnas com hábitos mais diurnos e é invernante em Portugal, onde pode ser encontrada entre Setembro e Abril, em especial no final do Outono e no Inverno. “Os locais do país com maior número de observações recentes encontram-se principalmente no litoral centro e sul, sendo de destacar os estuários do Tejo e do Sado e, em número mais reduzido, a Ria de Aveiro e a Ria Formosa”, indica o STRI-Rapinas Nocturnas de Portugal. Alimenta-se principalmente de micro-mamíferos, como o rato-das-hortas e a rato-d’água.

Sons de coruja-do-nabal gravados por Paulo Alves na Ponta da Erva, Vila Franca de Xira, pelas 19h30. Fonte: xeno-canto

5. Alcaravão (Burhinus oedicnemus)

Alcaravão (Burhinus oedicnemus). Foto: Artemy Voikhansky/Wiki Commons

O alcaravão é uma ave limícola, ou seja, associada a zonas húmidas, mas é raro ser observado perto da água. Tem hábitos furtivos e costuma estar mais activo desde o cair da noite até ao nascer do sol, estando presente em Portugal Continental ao longo de todo o ano – embora no Inverno os números cresçam devido à chegada de aves invernantes. “O seu chamamento assobiado, que se faz ouvir à noite ou ao crepúsculo, é um dos principais sinais da sua presença”, nota o portal Aves de Portugal.

Sons de alcaravão gravados por Nelson Conceição na Urbanização Mato Santo Espírito, no concelho algarvio de Tavira, pela 1h44 da manhã. Fonte: xeno-canto

6. Bufo-real (Bubo bubo)

Bufo-real (Bubo bubo). Foto: Dick Daniels/Wiki Commons

Com uma envergadura de asas que pode chegar aos 1,70 metros e uma altura máxima de 73 centímetros, este é o maior dos estrigídeos europeus, ou seja, do grupo que junta todas as corujas, mochos e bufos. O bufo-real reside em montanhas e florestas e prefere áreas com rochas, escarpas íngremes e árvores velhas, em especial coníferas, explica o “Guia de Aves de Portugal e da Europa”. Tem uma distribuição fragmentada em Portugal Continental e alimenta-se de ratos, ratazanas, coelho-bravo, corvos e gaivotas, entre outros. O chamamento soa fraco, quando ouvido de perto, mas é audível a uma distância entre 1,5 a 4 quilómetros.

Sons de bufo-real gravados por Bram Vogels em Kalmthout, Antuérpia, Bélgica, pela meia-noite. Fonte: xeno-canto

Saiba mais.

Conheça os resultados mais recentes do censo Noctua Portugal, que apontam para quatro espécies que estão com um declínio forte em território nacional: coruja-das-torres, mocho-d’orelhas, mocho-galego e alcaravão.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.