Melro-preto. Foto: Diogo Oliveira

Cinco aves canoras para ouvir em Março e Abril

Um naturalista no Jardim Gulbenkian

É por estes dias que os jardins se enchem de uma gloriosa cacofonia de sons capazes de alegrar o nosso coração. Abra os ouvidos e descubra estas cinco espécies.

 

Nesta época, as aves cantam porque estão a estabelecer ou a defender um território e a atrair ou a proteger um parceiro. A maioria dos cantores são machos e o tema predilecto é a reprodução.

Aprender os sons das aves é muito útil, porque mais depressa se ouve uma ave do que se vê, mas pode levar algum tempo. É quase como aprender uma língua nova.

Quando ouvir uma ave a cantar, pare uns minutos e escute com atenção. Verá que é possível distinguir uma espécie da outra através do som e que este é muitas vezes complexo e maravilhoso.

Aqui ficam cinco cantos de Primavera para começar:

 

um melro preto

Foto: Diogo Oliveira

Melro (Turdus merula):

O melro tem um dos cantos mais agradáveis que pode ouvir em Portugal, sempre doce e simples. O grito de alarme que emite a voar para longe, quando nos aproximamos demasiado, faz parte da sinfonia de qualquer espaço verde urbano. Mas na época de nidificação, por estes dias, os melros trazem-nos música com os seus cantos aflautados. Segundo o naturalista britânico Simon Barnes, “os melros definiram, e talvez em parte criaram, a nossa ideia de canto das aves e contribuíram bastante para a maneira como o compreendemos”.

 

 

chapim carvoeiro pousado num ramo

Foto: Diogo Oliveira

Chapim-carvoeiro (Periparus ater):

Ave característica de florestas, o canto repetido e estridente do chapim-carvoeiro faz-se por vezes ouvir no Jardim Gulbenkian e noutros espaços verdes dentro das cidades. Segundo o “Guia de Aves” da autoria de Lars Svensson, “parece um primo pequeno e descorado do chapim-real”. O canto desta espécie é também semelhante ao do chapim real, mas emitido com maior velocidade, numa sucessão rápida de “sitchu-sitchu-sitchu-sitchu…”.

 

 

Carriça pousada num ramo

Foto: Diogo Oliveira

Carriça (Troglodytes troglodytes):

A carriça está entre as aves mais pequenas de Portugal, mas também é a espécie com a vocalização mais forte em relação ao tamanho do corpo. Os cerca de 10 centímetros de comprimento e um peso de apenas 8 a 12 gramas não a impedem de produzir uma saraivada de notas alternantes. Por vezes, termina com um trinado estridente e prolongado, e é esse o trecho que a distingue, pois uma vez identificado será difícil voltar a confundir a carriça com os sons de outras aves. E se é verdade que nem sempre emite este trinado final, na Primavera é mais provável que o faça, uma vez que está totalmente empenhada em definir o seu território. É muito comum no Jardim Gulbenkian.

 

 

Chamariz ou milheirinha.

Foto: Diogo Oliveira

Chamariz ou milheirinha (Serinus serinus):

O canto comedido e tilintante desta pequena ave é emitido incansavelmente pelos machos na época de reprodução, normalmente a partir de pousos elevados, como os ramos cimeiros das árvores e postes ou antenas. O canto deste passeriforme de cabeça e peito amarelados faz lembrar um rádio por sintonizar, há quem diga também que se assemelha a um molho de chaves. Podemos facilmente ouvir o chamariz – e por vezes observá-lo – por todo o território português, com excepção do Baixo Alentejo.

 

 

pisco-de-peito-ruivo

Foto: Diogo Oliveira

Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula):

O pisco canta durante a maior parte do ano. Os piscos, como a maioria das aves, estão mais silenciosos durante o pico do Verão, quando estão a mudar as penas e estão mais vulneráveis e a última coisa que querem é chamar a atenção. Mas na Primavera, cantam a plenos pulmões para encontrar um parceiro e defender o território onde vão nidificar, muitas vezes com o mesmo parceiro do ano anterior. São das primeiras aves a cantar quando o dia começa e os últimos a emudecer quando fica escuro. Esta ave move-se entre a vegetação densa, onde é difícil vê-la, mas pousa em locais elevados para cantar.

 

 

Ao longo do ano, a cada mês, a revista Wilder sugere-lhe a natureza que não pode perder no Jardim Gulbenkian.