Que espécie é esta: escorpião de espécie exótica?

O leitor Romy Mathews encontrou este escorpião a 2 de Agosto em Lagos, Algarve, e pediu ajuda na identificação. Sérgio Henriques e Pedro Sousa respondem.

“Ficaria muito grato se alguém pudesse identificar que escorpião é este. Entrou na minha casa em Lagos a 2 de Agosto”, escreveu Romy Mathews à Wilder.

“O corpo terá cerca de dois centímetros (sem contar com as pinças ou cauda), grandes pinças e cauda curta. As patas são de cor ligeiramente mais clara”, acrescentou Romy Mathews, que colocou o animal dentro de um frasco de vidro para o estudar melhor, antes de o libertar num jardim, junto a um muro de pedra.

“Parecia inactivo, nada agressivo. Até pensei que estivesse morto mas não, estava vivo!”

Tratar-se-á de uma espécie exótica de escorpião, difícil de identificar pela fotografia.

Espécie identificada e texto por: Sérgio Henriques, líder do grupo de especialistas em aranhas e escorpiões da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) e especialista da Sociedade Zoológica de Londres, e por Pedro Sousa, especialista mundial em escorpiões ibéricos e investigador do CIBIO-InBIO (Universidade do Porto).

Este é um registo bem interessante e temos a sorte de o perito mundial em escorpiões ibéricos ser português, Pedro Sousa, da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO), pelo que o contactei e isto foi o que ele tinha a dizer:

“Este escorpião não pertence a nenhum dos três géneros de escorpião nativos da Península Ibérica. Em Portugal existe apenas uma espécie, do género Buthus, que é de tamanho médio e coloração amarela. Em Espanha para além de escorpiões do género Buthus, existem outros dois géneros, Euscorpius e Belisarius, ambos mais pequenos e de corpo mais escuro, quase castanho por vezes. Não é possível ter a certeza do tamanho do animal na foto, mas, apesar de desfocada, o animal aparenta ter um metassoma, ou “cauda”, robusta. Os dois géneros de escorpião mais pequenos mencionados antes têm caudas finas, e também olhos dispostos mais à frente na região do cefalotórax, ou “cabeça” do que o animal da foto. Já foram encontradas duas espécies exóticas em Espanha, uma na região de Huelva, e outra nas Ilhas Canárias, mas ambas têm um corpo com formato alongado, muito diferente do animal da foto. Devido à qualidade da foto, é mais fácil excluir hipóteses do que identificar com certeza o que poderá ser”, disse Pedro Sousa.

Na minha opinião, este animal parece-se com algumas das espécies que conheço da Ásia e que costumam ser vendidas como animais de estimação. Pelo que suspeito que este foi um animal que escapou de cativeiro ou da embalagem em que estava a ser enviado. O que poderá ser bastante grave para o ecossistema algarvio se esta espécie se estabelecer na área e é, na verdade, muitas vezes uma prática prejudicial no país de origem destes animais. Já que estas espécies são apanhadas na natureza para serem vendidas em grandes números a turistas ou pessoas que as querem manter em casa. O que infelizmente levou ao declínio de populações destas espécies na Ásia e em outras regiões do mundo.

Se o leitor, ou alguém na área, voltar a ver um escorpião negro, se for seguro, por favor não o devolvam à natureza e entrem em contacto connosco assim que possível, para que possamos partilhar instruções de como processar o animal de forma prática e segura.


Agora é a sua vez.

Encontrou um animal ou planta que não sabe a que espécie pertence? Envie-nos para o nosso email a fotografia, a data e o local. Trabalhamos com uma equipa de especialistas que o vão ajudar.

Explore a série “Que espécie é esta?” e descubra quais as espécies que já foram identificadas, com a ajuda dos especialistas.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.