Lobo-ibérico. Foto: Arturo de Frias Marques/Wiki Commons

Caça ao lobo está agora proibida em toda a Espanha

O lobo-ibérico a norte do Douro espanhol passou esta terça-feira a fazer parte da Lista de Espécies Silvestres em Regime de Protecção Especial, pelo que ganhou o mesmo nível de protecção em todo o território.

O anúncio foi feito pelo gabinete da ministra para a Transição Ecológica, Teresa Ribera Rodríguez, que em comunicado indicou que a medida passa a ter efeitos no terreno a partir desta quarta-feira, dia 22, passando a estar proibida a caça a este mamífero em toda a Espanha.

Até agora, a caça ao lobo-ibérico (Canis lupus) era permitida no país a norte do Douro, onde este predador de topo era considerado em situação favorável em termos de conservação e tinha o estatuto de espécie cinegética. Esta diferença de níveis de protecção era justificada com o aumento das populações na Galiza, Astúrias e Castela e Leão, pelo que segundo essas comunidades autonómicas tornava necessário controlar o seu crescimento.

Já a sul do Douro, as populações de lobo-ibérico (Serra Morena, Serra da Gata e San Pedro) são muito mais pequenas e estavam já classificadas como ameaçadas, tal como passa agora a suceder com as alcateias a norte.

“A inclusão do conjunto de populações de lobo na Lista de Espécies Silvestres em Regime de Protecção Especial que agora fica aprovada responde à importância da espécie como património cultural, científico, assim como pelos serviços ambientais que produz a presença deste carnívoro nos ecossistemas”, justifica o gabinete da ministra, que lembra que a decisão recebeu a 4 de Fevereiro o apoio formal – após uma votação renhida – da Comissão Estatal espanhola para o Património Natural e Biodiversidade.

A alteração de estratégia tem também como base uma avaliação realizada pelo Comité Científico em 2020. Esse documento entende que “a estagnação da população de lobo-ibérico observada nos últimos anos e o congelamento da sua área de distribuição – apesar da existência de habitats adequados para a sua expansão mais além no Noroeste Peninsular – foi resultado da elevada taxa de mortalidade não natural enfrentada pela espécie”.

Assim, a partir desta quarta-feira, as medidas de controlo da espécie a norte do Douro, ao contrário do que sucedia até hoje, passam a ter um carácter excepcional. “Unicamente poderão ser autorizadas capturas e extracções de maneira justificada quando todas as medidas de prevenção se tenham revelado ineficazes; com a garantia científica de que não comprometerão o bom estado de conservação da espécie e perante provas de danos importantes ou recorrentes na actividade ganadeira”, especifica o mesmo comunicado.

Ainda assim, esta pode não ser a conclusão do processo. Segundo a agência Europa Press, “as comunidades autónomas da Galiza, Astúrias, Cantábria e Castela e Leão, onde habitam 95% dos exemplares da espécie, estão conta a decisão e anunciaram que vão recorrer da mesma por via judicial.”

Novo censo nacional

Estima-se que vivam em Espanha entre 2.000 e 2.500 lobos-ibéricos. O último censo, realizado entre 2012 e 2014, concluiu que existiam 297 alcateias, e está agora em preparação um novo censo nacional. “Espera-se que os trabalhos no terreno comecem com a maior brevidade possível”, indicou também esta terça-feira o gabinete da ministra. Prevista está também “a criação de um grupo de especialistas para a conservação e gestão do lobo, que apoiará o Ministério na tomada de decisões.”

As metas do Governo espanhol apontam para um total de 350 alcateias em território espanhol em 2030, para que seja garantida a conservação da espécie a longo prazo. Está previsto também o aumento da área de distribuição entre 10 e 20%, na próxima década, e a redução da perseguição ilegal a esta espécie.

Em Portugal, o mais recente censo nacional ao lobo-ibérico, de 2002/2003, identificou 63 alcateias (51 confirmadas e 12 prováveis) no Norte e Centro do país. A população foi, então, estimada entre 220 e 430 animais. Mais tarde, estudos compilados entre 2003 e 2014 deram conta da existência de 47 alcateias (41 confirmadas e seis prováveis). Está actualmente no terreno um censo nacional da espécie, com conclusão prevista para este ano.

Há 28 anos que esta é uma espécie protegida em Portugal, desde que a Lei nº90/88, de 13 de Agosto, estabeleceu pela primeira vez as bases para a protecção do lobo-ibérico. Em 2005 foi classificado com o estatuto de Em Perigo (Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal).


Saiba mais.

Recorde como em Julho, em Portugal, foram encontradas provas da existência de lobo-ibérico na região de Castelo Branco.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.