Cogumelo Leratiomyces ceres. Foto: Igrundmann / Biodiversity4All

Cidadãos já encontraram mais de 160 espécies de cogumelos em Coimbra

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Susana Gonçalves lançou o projecto Cogumelos na Cidade inspirada por um passeio de exploração da natureza urbana com o filho de 7 anos. A Wilder falou com a investigadora.

Há pouco mais de três anos, numa tarde chuvosa de Novembro, Susana Gonçalves foi passear pelas ruas ao pé de casa, em Coimbra, com o filho. Henrique queria “ver os cogumelos que a mãe já tinha visto” e pode-se dizer que correu bem: em cerca de duas horas e numa pequena área, observaram 13 espécies diferentes. Seguiram-se outras oito espécies, na semana seguinte.

“Por defeito profissional, todas as espécies de cogumelos foram mapeadas, fotografadas e preservadas”, recorda esta investigadora especializada no reino dos Fungos ligada ao CFE-Centro de Ecologia Funcional e ao MyCoLAB, da Universidade de Coimbra.

Cogumelo Leratiomyces ceres. Foto: Lucia / Biodiversity4All

Foi então que teve a ideia de dar a volta a um projecto mais antigo e lançar o novo Cogumelos na Cidade na plataforma Biodiversity4All/iNaturalist, dedicado à região de Coimbra. Esta plataforma permite a realização de projectos de ciência cidadã abertos a todos os interessados.

Mas foi passados quase dois anos que o projecto arrancou em força. Durante um passeio higiénico de quarentena, em Abril de 2020, Susana foi “surpreendida com a frutificação abundante da espécie Helvella monachella, cuja observação foi apenas a segunda para Portugal na plataforma Biodiversity4All”. “Tomei ainda mais consciência da relevância que o projeto poderia ter e, sobretudo, do pouco que se sabe sobre a diversidade e distribuição de macrofungos em Portugal.”

Também a pandemia levou ao aumento da interacção dos cidadãos com a natureza e isso não passou despercebido à equipa, recorda a investigadora. Foi em Setembro de 2020 que o “Cogumelos na Cidade” passou a ser uma das prioridades do MyCoLAB, laboratório de investigação dedicado aos fungos que é parte do CFE, coordenado por Susana Gonçalves.

Mais de 1.280 observações

Desde então, e até esta quarta-feira (12 de Janeiro), 82 cidadãos já registaram na página online do projecto fotografias de cogumelos que encontraram na região de Coimbra, num total de 1.280 observações que ficaram disponíveis para quem as quiser consultar. A partir dessas imagens foram identificadas 260 espécies diferentes de cogumelos – muitas delas com a ajuda do software de reconhecimento visual da plataforma Biodiversity4All / iNaturalist.

Entretanto, para garantir que os dados recolhidos são suficientemente fiáveis para serem usados por cientistas – em estudos de monitorização por exemplo – cada identificação deve ser ainda confirmada por dois ou três identificadores registados na plataforma. Se isso acontecer, é classificada com um “grau de pesquisa”.

Cogumelo gaiola-de-bruxa (Clathrus ruber). Foto: Susana Cunha / Biodiversity4All

Neste caso, são 164 as espécies de cogumelos identificadas até agora com esse grau de validação. Susana considera este número “excelente” em termos de adesão ao projecto, mas lembra também que “os fungos são um grupo muito diverso”. Em Portugal, por exemplo, alguns investigadores calculam que há cerca de 3.000 espécies, mas o número é muitíssimo superior no mundo todo. “Estima-se que existam entre 2,8 a 3,4 milhões de espécies de fungos, das quais menos de 10% terão sido descritas”, nota a investigadora, que avisa: “A probabilidade de tropeçarmos – literalmente – numa espécie ainda não descrita para a ciência, até mesmo na cidade, não é negligenciável.”

Mas para que vão servir estes dados? “Na componente de ciência cidadã, o objectivo é mapear a diversidade de cogumelos na cidade de Coimbra”, adianta a bióloga, que explica que “a missão do MyCoLAB, enquanto dinamizador do projeto, é ajudar os cidadãos cientistas a documentar e a desfrutar da diversidade de cogumelos à nossa volta”.

Cogumelo esquizófilo-comum (Schizophilum commune). Foto: Susana C. Gonçalves / Biodiversity4All

Com a ajuda dos dados recolhidos, a equipa quer descobrir por exemplo quantas espécies de macrofungos – fungos que produzem cogumelos claramente visíveis – existem em Coimbra, ou que serviços de ecossistema estes prestam, e ainda quais são as espécies raras, as invasoras e as tóxicas. Importante é também perceber “como podemos favorecer a diversidade dos fungos e a saúde das árvores urbanas face às alterações climáticas.”

Outro dos objectivos é “incentivar as pessoas a estabelecer relações pessoais com o mundo natural, com benefícios para a sua saúde mental, e em especial com o mundo dos cogumelos”. “

“Os cogumelos são a parte visível de um grupo de organismos muito diverso e importante, os fungos, ainda muito negligenciados em conservação”, explica a mesma responsável. “Em Coimbra podemos encontrar cogumelos fantásticos à espera de cativar quem se detenha a observá-los. Acreditamos que esse é o primeiro passo para inspirar as pessoas a actuar para proteger estes organismos, sem os quais a vida na Terra seria insustentável.”

As três espécies mais observadas…

Quanto às três espécies mais observadas desde o arranque do projecto, o primeiro é o cogumelo Leratiomyces ceres, enquanto que a segunda posição pertence à gaiola-de-bruxa (Clathrus ruber). “Não sei se serão as mais comuns, mas são comuns”, indica a responsável. Ambas “são espécies conspícuas durante a época de frutificação que é preferencialmente o Outono”, pois chamam a atenção devido à sua cor vermelha.

Já o terceiro cogumelo mais observado tem sido o cogumelo esquizófilo-comum (Schizophilum commune), que “aparece quase todo o ano, o que talvez explique o facto de ser tantas vezes registado”.

Ainda assim, o mais comum entre os fungos “é ser-se raro” : 90 das 164 identificações com grau de pesquisa, no âmbito do projecto, correspondem a apenas uma observação.

…e cinco cogumelos interessantes

Quanto a registos de cogumelos interessantes já realizados no âmbito do projecto, Susana Gonçalves exemplifica com cinco casos diferentes:

Cogumelo Favolaschia calocera: Uma espécie invasora no território português. Esta observação é a primeira a sul do rio Mondego na plataforma Biodiversity4All.

Cogumelo Favolaschia calocera. Foto: Susana C. Gonçalves / Biodiversity4All

Cogumelo Cantharellus alborufescens: O primeiro registo desta espécie confirmado para Portugal e o primeiro registo da espécie para a Península Ibérica, na plataforma iNaturalist. De acordo com o especialista Ibai Olariaga, não existiam ainda registos confirmados para Portugal para este táxon.

Cogumelo Cantharellus alborefescens. Foto: Susana C. Gonçalves / Biodiversity4All

Cogumelo madre-de-louro (Laurobasidium lauri): Este é um fungo parasita específico do loureiro.

Cogumelo Laurobasidium lauri. Foto: Susana Cunha / Biodiversity4All

Cogumelo Lentinus arcularius: Este cogumelo é um clássico de Primavera.

Cogumelo Lentinus arcularius. Foto: Luís Chelinho / Biodiversity4All

Cogumelo Cordyceps militaris: Este é um cogumelo parasita de insectos.


Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.