Codorniz-comum. Foto: Luis Sánchez / Wiki Commons

Codorniz é a Ave do Ano 2020 eleita em Portugal e Espanha

Conservação

Portugueses e espanhóis elegeram a codorniz-comum (Coturnix coturnix) como Ave do Ano 2020, numa votação que foi pela primeira vez comum aos dois países.

 

O eleição foi organizada em conjunto pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e pela espanhola Sociedad Española de Ornitología (SEO/Birdlife). A codorniz-comum foi eleita com 7.930 votos, à frente do tartaranhão-caçador (ou águia-caçadeira, com 6.130 votos) e do picanço real (5.156 votos).

Esta campanha teve como objectivo “chamar a atenção para a situação em que se encontram as espécies da avifauna ibérica e seus habitats”, explicou a SPEA, quando as três espécies a concurso foram anunciadas. Em causa estão desde logo os efeitos negativos da agricultura intensiva e do uso de pesticidas.

A população ibérica de codorniz é a mais importante da Europa Ocidental. Com as suas cores discretas, a mais pequena ave dos galináceos é perita em camuflagem, escondendo-se sobre a terra ou no meio das culturas de cereais de olhares dos menos atentos.

Em Portugal, esta ave não é das mais comuns, mas pode ver-se de norte a sul principalmente em zonas agrícolas, em especial nos campos de cereais. Alimenta-se de sementes silvestres, grãos de cereais e pequenos invertebrados.

 

Foto: Jan Svetlik

 

A intensificação agrícola é assim uma das principais ameaças para esta espécie, mas também a pressão da caça – estima-se que sejam caçadas todos os anos mais de um milhão de codornizes em Espanha e 26.000 em Portugal – e a contaminação genética com a codorniz-japonesa ou com a criação de híbridos para fins cinegéticos. As alterações climáticas também afectam esta ave migradora, que chega ao sul do Sahara e nas suas rotas é muito dependente da disponibilidade de comida e água.

Em Espanha, de acordo com a SEO/Birdlife, o número de codornizes-comuns teve um declínio de 70% nos últimos 20 anos, somando hoje cerca de 225.000 aves. Em Portugal, o relatório sobre “O Estado das Aves” aponta por enquanto para uma tendência populacional estável.

Ainda assim, a área de distribuição desta espécie “diminuiu 30% na última década em Portugal, como resultado de alterações nas práticas agrícolas”, de acordo com dados mais recentes divulgados pela SPEA, em comunicado.

A expansão das monoculturas, o desaparecimento dos pousios e a eliminação das sebes e margens dos campos são apontados como os principais motivos para o facto de haver cada vez menos habitat disponível para a codorniz e outras aves típicas de zonas agrícolas. “Esta ave alimenta-se de sementes, grãos de cereais e pequenos invertebrados, pelo que tem sofrido também com o aumento do uso de herbicidas e inseticidas”, acrescenta esta organização não governamental.

“A população ibérica de codorniz é a mais importante da Europa Ocidental. Mas se não se fizer nada para valorizar a agricultura extensiva de sequeiro, vai seguir o caminho de outras espécies ameaçadas como o sisão e a águia-caçadeira”, avisa Domingos Leitão, director-executivo. “A política agrícola tem de compensar quem pratica uma agricultura responsável e sustentável, contribuindo para a preservação dos valores naturais.”

As duas organizações preparam-se para impulsionar um plano de acção europeu para a codorniz-comum e a melhoria do conhecimento sobre a sua situação nas zonas de invernada. Está também prevista a revisão do estatuto de conservação da espécie pela União Internacional para a Conservação da Natureza, que é Pouco Preocupante, mas deverá passar para Em Perigo.

 

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