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Como travar invasão de árvores exóticas nas áreas ardidas

Plantulas de acacia. Foto: Francisco López-Núñez

Hélia Marchante e Elizabete Marchante, investigadoras do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e responsáveis pelo Invasoras.pt, explicam como as exóticas estão a responder aos incêndios e o que podemos fazer para evitar uma invasão.

 

Uma área muito extensa de Portugal ardeu nos últimos meses. O fogo trouxe coisas más demais. Perderam-se vidas que jamais serão repostas. Perderam-se bens e recursos que o serão com mais ou menos esforço.

Arderam também importantes áreas florestais e espaços naturais de grande valor, tanto a nível económico como a nível de conservação.

Algumas das comunidades vegetais vão simplesmente começar a recuperar lentamente sozinhas. Afinal, grande parte do nosso país tem vegetação adaptada a clima mediterrâneo e, como tal, o fogo faz parte da dinâmica natural de muitos destes ecossistemas (mas não de todos).

Outras áreas vão precisar de ajuda para recuperar da melhor forma. Especialmente nos locais onde as plantas invasoras vão entrar na competição.

 

O que esperar de áreas invadidas que arderam

Muitas das áreas que arderam recentemente tinham plantas invasoras adaptadas ao fogo (chamadas pirófitas). Como as acácias-de-espigas (Acacia longifolia), as mimosas (Acacia dealbata) e as háqueas-picantes (Hakea sericea). Por isso, é expectável que sejam re-invadidas mais ou menos rapidamente.

A maioria das espécies de acácia acumula sementes no solo (banco de sementes) em grande número, por vezes muitos milhares por metro quadrado.

 

Frutos de Acacia dealbara. Foto: Elizabete Marchante

 

Estas sementes de acácia podem permanecer viáveis no solo durante muitos anos e a sua germinação é estimulada pelo fogo.

Algumas sementes podem ter sido destruídas, dependendo da profundidade a que estavam e das temperaturas que o fogo atingiu em cada local. Mas é expectável que muitas venham a germinar e a facilitar a re-invasão das áreas onde ocorriam. A rapidez com que o farão vai depender, por exemplo, da disponibilidade de água e das temperaturas.

As espécies de háqueas têm uma estratégia diferente. Acumulam bancos de sementes arbóreos, muito numerosos. O fogo estimula a abertura dos frutos e, consequentemente, a dispersão das sementes.

 

Frutos de Hakea sericea. Foto: Elizabete Marchante

 

Fogos que tenham atingindo temperaturas muito elevadas podem ter destruído alguns frutos/sementes, mas é previsível que em muitas situações tenham apenas aberto os frutos e estimulado a dispersão das sementes. Ou seja, as sementes foram catapultadas, frequentemente, a muitos metros de distância à volta das plantas-mãe. Ao germinar vão re-invadir as áreas onde estavam e aumentar muito a área invadida. O que tem acontecido nos últimos anos depois de muitos incêndios.

As elevadas taxas de crescimento e/ou dispersão das plantas invasoras das áreas ardidas permitem prever que, em muitas situações, estas se irão estabelecer mais rapidamente do que outras espécies que regenerem naturalmente e/ou venham a ser plantadas ou semeadas.

 

O que fazer para evitar uma invasão de exóticas

Antes de mais, é preciso ir avaliando o que recupera nas áreas ardidas e adaptar a gestão de forma a aumentar as hipóteses de sobrevivência das espécies escolhidas, quer sejam as que regeneram naturalmente ou as que forem plantadas ou semeadas.

Por isso não devem acontecer já as sementeiras e plantações. É preferível descobrir quais as espécies que vão surgir ou favorecer as que recuperem naturalmente. Ou seja, é crucial adaptar as medidas de recuperação ao desenvolvimento das plantas invasoras que surgirem.

É importante ainda que o controlo das invasoras tenha em conta questões como a erosão do solo e que seja enquadrado em planos abrangentes de gestão das áreas (não focados exclusivamente nas invasoras, mas não as ignorando!), preferencialmente acompanhados por técnicos especializados.

Será muito difícil (quase impossível!) agir em todas as áreas onde vão surgir plantas invasoras, mas naquelas que forem consideradas prioritárias, gerir o problema terá que incluir o controlo destas espécies (muitas vezes primeiro), impedindo que elas re-invadam e ameacem a recuperação ou estabelecimentos das outras espécies. Por esta e outras razões, em muitas situações começar a fazer plantações agora é prematuro e pode não ser a melhor solução.

As respostas rápidas e adaptativas, tão precoces quanto possível, são fundamentais para conter o estabelecimento e expansão das espécies invasoras da melhor forma. Os incêndios foram uma tragédia a muitos níveis – desde humano, social, económico, ecológico – mas se aconteceram é preciso agora adaptar a gestão a essa realidade e aproveitá-los para gerir as invasoras antes que cresçam de novo e seja muito mais difícil lidar com elas.

Jovens plântulas que germinaram há pouco tempo ainda não têm reservas armazenadas nas partes subterrâneas que lhes permitam rebentar vigorosamente. Está aqui uma janela de oportunidade para intervir! Antes que as plantas cresçam muito, mas já depois de terem morrido aquelas que não vingariam (deixemo-las ajudar-nos!), devem ser eliminadas.

Como fazer? As metodologias devem ser adaptadas ao contexto e recursos disponíveis. Pode ser utilizado, por exemplo, corte com motorroçadora quando a densidade e área o justificarem (mas sempre antes que atinjam um palmo!), arranque manual em ações de voluntariado, pastoreio, mobilização superficial do solo, etc. Nas acácias, se se aplicar corte com motorroçadora, é particularmente importante a referência do “palmo” – depois disso aumenta a probabilidade de formarem rebentos o que exigiria a aplicação de medidas posteriormente!

Em qualquer das situações, se as acções de controlo se atrasarem, é essencial que as plantas invasoras nunca cresçam o suficiente para voltar a formar sementes. Caso contrário, estará recriado o ciclo da sua regeneração. No caso das acácias, e dependendo do tamanho de banco de sementes no solo, o surgimento de novas plântulas por germinação das sementes que ainda tenham ficado no solo pode voltar a ocorrer depois das primeiras intervenções.

Apesar de não ser muito frequente, algumas acácias sobrevivem à passagem do fogo e recuperam – a eliminação destas plantas também deve ser considerada a par com outras medidas de recuperação das áreas. Dependendo dos contextos, podem controlar-se através de descasque (mas pode não ser possível se estiverem parcialmente secas), corte (mas é provável que voltem a rebentar, exigindo ações de controlo posteriores), corte+herbicida (com todos os cuidados necessários e só quando for justificável e possível), etc.

No caso da acácia-de-espigas, apesar de algumas das áreas de libertação do agente de controlo biológico terem ardido, esperamos que à medida que o agente se vá estabelecendo este ajude a conter algumas das plantas mais jovens e a diminuir a produção de sementes nas adultas; mas será sempre a longo-prazo.

 

[divider type=”thick”]Agora é a sua vez.

Se localizar espécies de plantas invasoras a surgir em áreas queimadas, ou sabe de áreas que tinham invasoras antes dos incêndios recentes, por favor, preencha a informação neste formulário.

 

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Este artigo é o terceiro de uma série de quatro dedicados aos incêndios que ocorreram e ao futuro da floresta em Portugal, numa parceria entre a Wilder e a Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO).

O que mudou no solo devido ao fogo e o que devemos fazer para o recuperar. – Maria Amélia Martins-Loução

Que floresta queremos para Portugal – Helena Freitas